Quebrando o código de silêncio da máfia

Ante júri, ''capo'' relata seus crimes com incomum sinceridade

William K. Rashbaum, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2011 | 00h00

A pergunta era direta, apesar de não ser do tipo que indivíduos como Joseph C. Massino costumam responder. Ao menos não com tanta sinceridade. O chefão de longa data da família mafiosa Bonanno foi indagado pelo procurador: "Que poderes você tinha?" Massino respondeu de maneira curta e franca. "Assassinatos, assumir a responsabilidade pela família, promover e destruir capitães", disse ele.

E foi assim que Massino, de 68 anos, o único chefão oficial de uma família mafiosa de Nova York a cooperar com as autoridades federais, compareceu a uma corte no Brooklyn, na semana passada, e tornou-se o primeiro mafioso a testemunhar contra um ex-companheiro. Durante quase cinco horas, Massino listou seus crimes, relatando assassinatos e outros atos dos mais variados graus de gravidade criminal.

Massino disse ao júri que o réu do julgamento, Vincent Basciano, o ex-chefão da família mafiosa, tinha mencionado a ele que ordenou o assassinato de Randolph Pizzolo, um membro da família Bonanno. Basciano está sob julgamento por ter ordenado o assassinato de Pizzolo.

Mas, durante boa parte do dia, Massino expôs a extensão de sua reputação e ofereceu ao júri a sua perspectiva, explicando sua filosofia de administração mafiosa e contando sua história pessoal - tudo isso num relato repleto de referências e metáforas culinárias.

"Se você precisa de uma pessoa para matar outra, são necessários empregados - um bom molho é feito com todo tipo de carne", disse ele, que já foi dono de restaurante, consultor de serviços de buffet e proprietário de um caminhão de café. Ele contou como foi seu início no crime, aos 12 anos, roubando alguns pombos-correio. Fugiu de casa aos 14; disse ter viajado de carona até a Flórida e, no caminho, foi preso por vagabundagem na Carolina do Norte.

Disse que progrediu para os assassinatos na década de 60 e acabou envolvido em cerca de 12 execuções, algumas que ele encomendou, outras orquestradas por ele e ainda as que ele ajudou a perpetrar.

O depoimento de Massino destacou também seu tino para atuar como executivo do submundo, além de sua vida no crime, boa parte dela a serviço da família Bonanno, à qual ele diz estar associado há 33 ou 34 anos. Sua aparência comum, com as bochechas flácidas, pálpebras caídas e uma barriga considerável, era traída por sua resposta firme às perguntas do promotor, o procurador federal Taryn A. Merkl, que o questionou sobre sua história pessoal e profissional.

Massino começou a cooperar com as autoridades depois de ter sido condenado por sete assassinatos em 2004, tendo recebido pena de prisão perpétua. Deveria ir a julgamento por um oitavo assassinato, pelo qual poderia ser sentenciado à morte. Ao concordar em testemunhar para o governo ele busca clemência, escapando assim da pena capital.

Usando um conjunto de moletom acolchoado preto e cinza com uma camiseta branca visível por baixo, ele descansava alternadamente as mãos dobradas no encosto do banco de testemunhas ou sobre a barriga enquanto respondia às perguntas sobre seus crimes anteriores, sua ascensão dentro da família Bonanno e sua maneira de gerenciar as centenas de membros e associados da organização após ter se tornado o chefão em 1991. Ele se apresentou como um mestre das manobras burocráticas que exigem mais habilidade - lidando com as brigas domésticas da família ou com outros clãs criminosos - e falou ainda do seu trabalho para frustrar a perseguição da lei.

Ele disse ter se reunido com os chefões das famílias Gambino e Colombo - Paul Castellano e Carmine Persico, respectivamente - em 1981, antes de lançar uma ação preventiva contra três figuras importantes da família Bonanno, que se opunham à sua facção em uma luta interna pelo poder.

Depois de obter a aprovação dos dois chefes para matar os homens, Massino e vários outros indivíduos os assassinaram a tiros numa emboscada no porão de um clube social.

Ele também depôs a respeito dos códigos que ele e seus colegas criaram - para debater complôs de assassinato e, em certa ocasião, para determinar se um clube social fora grampeado - sem alertar a polícia, que eles acreditavam estar sempre interceptando suas conversas. Ele descreveu também algumas mudanças que implementou após tornar-se chefe, que tinham como objetivo reduzir o risco de os membros da sua família incriminarem a si próprios ou a outros membros.

Massino fechou todos os clubes sociais da família, por exemplo, afirmando que se os membros da família mafiosa ficassem sempre nesses locais bem conhecidos, isso facilitaria o trabalho do FBI, já que um agente ocupado em vigiá-los do lado de fora poderia ver todos que chegassem ou saíssem.

"Fechando o clube", disse ele, "o FBI precisaria de 50 agentes para vigiar 50 pessoas". Ele disse que sempre teve muito cuidado quanto aos locais e situações em que falava sobre os negócios da máfia.

"Nunca se deve falar em lugares como um clube, um carro, um celular, um telefone comum ou na sua casa", disse ele, afirmando que as chamadas "conversas itinerantes", nas quais dois ou mais mafiosos podem manter uma conversa enquanto andam pelas ruas, são as mais seguras.

"Optamos por conversar enquanto caminhávamos", disse ele. "Não conheço ninguém que tenha sido preso numa conversa itinerante." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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