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Quebrar sigilo de intérpretes coloca em risco reuniões entre líderes mundiais, diz tradutor

Para Dimitry Zarechnak, tradutor aposentado que trabalhou na cúpula entre Reagan e Gorbachev em 1985, sigilo garante que líderes concordem em dialogar; nos EUA, democratas querem intimar intérprete de Trump para audiência fechada

O Estado de S.Paulo

20 Julho 2018 | 14h55

WASHINGTON - Após a cúpula entre Estados Unidos e Rússia, em Helsinque, o presidente americano, Donald Trump, passou a semana dando declarações contraditórias sobre o que aconteceu em sua reunião privada com o presidente russo, Vladimir Putin, e gerando curiosidade sobre o que os dois líderes de fato conversaram a sós. 

Em meio às especulações, o registro da história mundial poderia se beneficiar das únicas testemunhas que presenciaram a conversa: os intérpretes, uma para Trump e um para Putin. Neste sentido, alguns democratas querem que Marina Gross, a tradutora americana fale sobre o que aconteceu.

Intérpretes diplomáticos falam apenas quando alguém se dirige a eles. São as testemunhas mais íntimas da história internacional, mas também são ultradiscretos, encarregados de traduzir com a maior precisão possível e quase em tempo real as palavras e o contexto de conversas que cruzam as barreiras dos idiomas.

Especialistas em diplomacia desconhecem qualquer precedente na era moderna que tenha levado intérpretes a testemunharem sobre seu trabalho. Para o tradutor aposentado Dimitry Zarechnak, do Departamento de Estado americano, a ideia é ruim. Ele é o homem que traduziu russo para o ex-presidente Ronald Reagan, em seu encontro histórico com o líder soviétivo Mikhail Gorbachev, em 1985.

"Eu nunca ouvi falar de algo assim e estou chocado", disse Zarechnak a respeito das tentativas dos democratas de intimar a intérprete de Trump durante a reunião com Putin. "Se isso fosse possível, então nenhum líder estrangeiro iria se reunir com nenhum de nossos líderes", argumentou.

Para ele, a ideia pode ser uma estratégia da oposição, mas também pode significar o quão elevadas estão as tensões entre EUA e Rússia. "Ou é apenas um truque ou a animosidade subiu tanto que eles não estão pensando direito sobre o que dizem", afirmou. Ideias pouco convencionais ganharam espaço recentemente na tentativa de lidar com um presidente que não obedece normas e é conhecido por descrever coisas e eventos não da maneira como são, mas da maneira como ele quer que sejam.

"É absolutamente surpreendente que ninguém saiba o que foi dito", disse o líder democrata no Senado, Chuck Schummer, na quinta-feira. Enquanto isso, republicanos na Câmara bloqueavam esforços para levar a intérprete da reunião a uma audiência fechada.

Depois de várias declarações erráticas de Trump a respeito da cúpula, o público americano não está perto de saber o que os dois líderes conversaram. Mas os tradutores sabem, assim como Putin. E é possível que o círculo de pessoas seja maior. Não está claro se algum dos lados da conversa registrou o diálogo ou se notas detalhadas sobre a reunião circulam por Moscou ou Washington. A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, disse desconhecer qualquer registro do encontro.

Falhas de comunicação

Diplomatas têm suas atenções voltadas para o registro histórico e para a importância de que um presidente seja acompanhado pelos melhores pensadores e especialistas. Consequentemente, quando dois líderes se reúnem a sós, acompanhados apenas por intérpretes, surge uma preocupação. E o temor aumenta quando uma das partes do diálogo é Putin ou Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, com quem Trump conversou acompanhando apenas por um tradutor.

Sem testemunhas para corroborar o que foi dito, mal-entendidos e interpretações duvidosas podem surgir. E quando intérpretes são os únicos a acompanhar uma reunião, por vezes são chamados para ajudar a estabelecer um registro do que aconteceu. Foi assim para Zarechnak. Ele forneceu o que é conhecido como tradução consecutiva da cúpula Reagan-Gorbachev, e se revezou com outro intérprete americano na série de reuniões entre os dois líderes.

Isso significa que Zarechnak tomou notas sobre o que Reagan disse e as leu para Gorbachev em russo. O líder soviético, por sua vez, teve seus comentários traduzidos por seu intérprete, que os leu para Reagan em inglês. Essa troca é diferente dos protocolos de tradução simultânea comumente utilizados em coletivas de imprensa bilaterais, discursos da ONU e situações similares, porque deixa um registro - um caderno. E o caderno de Zarechnak tornou-se base do "memorando de conversação" que eventualmente surgiu a partir das reuniões. Mas ele não foi obrigado a divulgá-lo sob intimação e não falou sobre o assunto abertamente.

E nestes casos a tradução palavra por palavra não é suficiente. Contexto, nuances e regras das linguagens exigem uma compreensão e interpretação mais amplas para que a comunicação ocorra sem ruídos. Assim, é necessário que intérpretes usados para diplomacia conheçam o assunto sobre o qual estão traduzindo.

Os riscos de uma interpretação errada foram evidenciados na viagem do ex-presidente americano Jimmy Carter à Polônia dominada pelos soviéticos, em 1977. Carter falou das aspirações polonesas e o intérprete americano traduziu a fala como um desejo de Carter de ter algum tipo de relação carnal com o país. Posteriormente, os comentários foram divulgados para o público e esclarecidos.

Mas para Putin e Trump, pode ser que o que tenha acontecido em Helsinque permaneça em Helsinque. / AP

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