Queda da Mir: tudo dentro do previsto - até agora

A nave espacial Progress acoplada com a estação orbital Mir teve seus motores ligados nas primeiras horas de sexta-feira (dia 23 em Moscou) no início das últimas seis horas de vida da estrutura de 15 anos, para um irreversível mergulho no Oceano Pacífico. O primeiro comando foi enviado às 3h31 locais (21h31 em Brasília), quando a Mir se encontrava pouco abaixo da linha do Equador, sobre o Oceano Índico, e durou cerca de 21 minutos. De acordo com o Controle de Missão, o vôo da Mir era estável. "Tudo está transcorrendo como estava previsto. Os motores funcionaram como deveriam. Os parâmetros de órbita correspondem às nossas estimativas. A órbita foi ajustada de uma forma que seu ponto mais baixo será exatamente sobre a área de afundamento", informou Nikolai Ivanov, vice-chefe de balística da Missão de Controle. Um segundo impulso foi iniciado às 5h locais (23h em Brasília) com duração de 24 minutos, num momento no qual a Mir sobrevoava o oeste da África. A operação tem como objetivo reduzir a velocidade da Mir e trazê-la para sua órbita final antes da queda no mar. Os motores da Progress serão acionados novamente 8h locais (2h de amanhã em Brasília), quando deverão permanecer ligados por 23 minutos. Os fragmentos que não se incendiarem cairão no Pacífico Sul entre 3h20 e 3h30. Esta foi a primeira vez que os motores da Progress foram acionados após um longo período no qual ficaram desligados e havia incerteza sobre a perfeição de seu funcionamento. A estação deverá cair no mar, numa área do Oceano Pacífico entre Austrália e Chile, aproximadamente a 44 graus de latitude sul e 150 graus de longitude oeste. Mais cedo, a nata dos funcionários do Controle de Missão russo deixou as emoções de lado nesta quinta-feira e fechou a era de glória espacial do país ao enviar a última seqüência de comandos para posicionar a Mir, estação de 15 anos. Em seu último dia de operação, a Mir captou energia solar para carregar suas fracas baterias, estabilizar seu alinhamento e dar suas últimas voltas em torno da Terra. Todas as manobras foram suaves, mas ainda restam algumas ações cruciais, e a incerteza que prevalecerá até o fim sobre onde cairão os pesados restos de metal da Mir depois da a maior parte da estação queimar na atmosfera. Fonte de grande orgulho, a Mir foi construída para simbolizar as já escassas proezas tecnológicas da extinta União Soviética. A estação foi enviada ao espaço em 1986, ano que marcou um ponto de convergência na história soviética. A Mir entrou em órbita apenas cinco semanas antes de o então líder da URSS, Mikhail Gorbachev, adotar a perestroika - as reformas que derrubaram o império comunista - e apenas dois meses antes da explosão de um reator da usina de Chernobyl, no mais grave acidente nuclear da história. A decisão de derrubar a estação orbital desagradou aos russos nostálgicos da União Soviética. Cerca de 15 pessoas manifestaram-se brevemente nesta quinta-feira em frente ao Controle de Missão. Elas levaram um cartaz contendo um retrato do cosmonauta Yury Gagarin, a primeira pessoa a ir para o espaço e os seguintes dizeres: "Não desistam da indústria espacial russa!" Jornais pró-comunismo e parlamentares protestaram durante semanas, mas as autoridades espaciais alegam que a estação está decrépita e gera muitas despesas. Dentro do Controle de Missão, o clima era estritamente profissional, com os controladores evitando lamentar o destino da Mir enquanto analisavam papéis e dados para preparar os comandos cruciais para a derradeira descida da estação no início da manhã de sexta-feira. "Todas as emoções que sentimos só serão declaradas amanhã, após o afundamento da estação", disse Andrei Borisenko, o diretor de operações do Controle de Missão. "Hoje, estamos trabalhando com as emoções de lado e desempenhando nossas funções."

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