Queda de Ahmadinejad seria derrota para EUA

A perspectiva de um acordo nuclear entre Teerã e Washington diminui à medida que presidente iraniano perde apoio junto aos religiosos da linha dura de seu país

Suzanne Maloney e Ray Takeyh, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2011 | 00h00

                

 

 

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, está sendo gradualmente afastado do poder por fundamentalistas religiosos e isso é uma péssima notícia para funcionários do governo americano que lutam para deter o programa nuclear do Irã.

Dentro da teocracia, o mesmo líder iraniano que se aventurou em fantasias messiânicas e na negação do Holocausto foi também, paradoxalmente, o principal defensor de negociações diretas com Washington envolvendo a questão nuclear. Quando Ahmadinejad perde apoio entre os líderes religiosos da linha dura do país, a perspectiva de um acordo nuclear entre Teerã e Washington diminui.

Antes o queridinho dos clérigos conservadores, que há apenas dois anos fraudaram o sistema eleitoral para garantir a ele uma segunda presidência, Ahmadinejad está em posição precária no cargo, em meio a furiosas reprimendas por parte de seus antigos aliados. Sua queda foi rápida e acentuada. Na mais recente de uma série de humilhações, Ahmadinejad foi criticado numa cerimônia em homenagem ao líder da Revolução Islâmica de 1979. O golpe mais devastador foi desferido em maio pelo líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, que repudiou publicamente seu protegido, escolhido a dedo em meio a uma disputa envolvendo os poderes presidenciais.

Graças à sua persistente suspeita em relação à autoridade central e às eleições populares, os clérigos islâmicos do Irã fizeram deliberadamente da presidência um cargo enfraquecido. E cada um dos antecessores de Ahmadinejad sofreu desgastes debatendo-se contra essas limitações. O arrogante Ahmadinejad buscou persistentemente transcender esses limites. Ao explorar habilmente os impulsos nacionalistas e as queixas em relação à economia, o presidente usou todas as oportunidades que teve para reforçar a base de seu poder e reafirmar sua influência. O mesmo instinto de sobrevivência política o levou a adotar a ideia de negociar com Washington, proposta contrária à ideologia oficial de antiamericanismo dos clérigos.

O interesse de Ahmadinejad num diálogo não foi motivado por seu apreço pela civilização americana, nem por um impulso de reconciliação. Em vez disso, o provocativo presidente viu as negociações como um meio de reforçar sua posição no Irã e no exterior ao mesmo tempo em que seria exibida sua visão de um Irã poderoso armado com bombas nucleares. Para um político com delírios de grandeza, a ideia de uma negociação oficial com Washington oferecia uma oportunidade para desfilar no palco mundial como o campeão de uma nova ordem mundial antiamericana.

O establishment conservador iraniano há muito considera as ambições de Ahmadinejad uma ameaça, tanto ao seu domínio político quanto à sua ideologia. Entretanto, enquanto as agitações de Ahmadinejad serviram aos propósitos do regime, Khamenei tolerou e até encorajou a conduta dele - até que as pretensões do presidente começaram a afetar a autoridade do aiatolá.

Depois de ter dobrado Ahmadinejad, o controle do líder supremo sobre o Irã está no seu auge. Nenhum dos governantes mais importantes está disposto a resistir à posição de hostilidade e suspeita de Khamenei em relação ao Ocidente - mesmo que estivessem, não teriam força para fazê-lo. Conforme a agitação social se espalha pela região, o Irã tenta expandir sua influência por todo o Oriente Médio. É improvável que um Irã cada vez mais confiante e agressivo aceite limitações a suas ambições nucleares, nem a exigência de romper os laços com grupos militantes como Hamas e Hezbollah.

Isso representa um grande dilema para os encarregados da política externa nos EUA e na Europa, que têm recorrido quase exclusivamente às sanções econômicas para conter o programa nuclear iraniano, torcendo para que os conflitos internos levem o regime a um colapso. É provável que ambas estratégias produzam um resultado aquém do esperado. Afinal, o programa nuclear iraniano foi retomado pelos clérigos num período de isolamento e austeridade de guerra enquanto o Irã combateu o Iraque nos anos 80, e debates acirrados não são novidade entre a elite iraniana.

A presente agitação política na região aumenta a vulnerabilidade do regime iraniano. Além disso, o crescente absolutismo de Khamenei alienou não apenas os cidadãos do país como também seus leais soldados rasos - desde os pais fundadores da revolução, como o ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, até seus filhos mais zelosos, como Ahmadinejad.

Um regime repleto de conflitos internos, temeroso de seus eleitores, submetido a pressões econômicas e cercado por movimentos de protesto cada vez mais fortes apresenta sua própria parcela de pontos frágeis - e uma abordagem mais criativa por parte dos EUA poderia se mostrar vantajosa conforme o alinhamento da classe política iraniana se altera, oferecendo oportunidades para reorganizar as prioridades do país.

Washington deve reconhecer que está trancado numa longa disputa de poder com um de seus adversários menos previsíveis. Para fazer prevalecer sua posição nesse conflito, os EUA precisam abandonar a expectativa de que o Irã possa ser seduzido ou coagido a se sentar à mesa de negociações.

A política externa americana para o Irã deve buscar o máximo das limitações financeiras e tecnológicas sobre o programa nuclear iraniano, um reforço da oposição política no país, um aprofundamento das muitas fissuras políticas dentro de sua classe política e o isolamento dos vizinhos do Irã de suas atividades nefastas. Os líderes de uma revolução que mais uma vez devorou seus próprios protagonistas podem certamente ser frustrados pelos EUA e seus aliados. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

SUZANNE MALONEY É ANALISTA DO BROOKINGS INSTITUTION E RAY TAKEYH É ESPECIALISTA DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS

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