AFP Photo/George Ourfalian
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Queda de Alepo representa vitória da aliança de regimes autoritários sobre países ocidentais

A médio prazo, resultado garante a permanência do líder Bashar Assad no poder e consagra o grupo de vencedores formado por Rússia, Irã e Turquia

O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2016 | 14h50

PARIS - A queda da cidade síria de Alepo, anunciada na quinta-feira, marca a vitória da "força bruta" da aliança entre regimes autoritários sobre os países ocidentais que optaram por ficar à margem, dando as costas às reivindicações democráticas de milhões de pessoas.

Combatentes "liquidados" e zonas "limpas" são as palavras empregadas pelo regime em Damasco e seu aliado russo, e resumem a estratégia utilizada para reconquistar a ex-capital econômica da Síria, que caiu levando milhões de vítimas, provocando deslocamentos em massa e destruição sem precedentes.

A queda de Alepo não marca somente o fim da guerra no país, mas é um ponto de inflexão maior após quase seis anos de conflito. A vitória garante, ao menos a médio prazo, a permanência no poder do presidente sírio, Bashar Assad, e consagra uma nova aliança de vencedores - Rússia, Irã e Turquia - diante dos países ocidentais e da potências regionais relegadas ao papel de simples espectadores.

"A primeira lição é que a força e a abstenção têm um custo", destaca Bruno Tertrais, diretor da Fundação de Pesquisa Estratégica. "O envolvimento em massa de Rússia e Irã, que significou um giro maior nesta guerra em 2015", foi a força. “A não intervenção americana, em 2013", é a abstenção, afirma ele.

Em 2013, o presidente americano, Barack Obama, renunciou a bombardear a Síria após acusações de que o regime de Assad havia utilizado armas químicas em um subúrbio de Damasco. "A partir de então, tudo estava dito", avaliou um especialista francês.

No mesmo ano, os combatentes do movimento xiita libanês Hezbollah, apoiados por Teerã, entraram na guerra síria para apoiar o ditador sírio. O envolvimento militar do Irã e das milícias xiitas estrangeiras aumentaram progressivamente nos anos seguintes. Na ocasião, os países ocidentais - liderados pelos EUA -, as monarquias do Golfo e a Turquia exigiam que Assad entregasse o poder e apoiavam os rebeldes sírios.

Intervenção. Dois anos mais tarde, diante de um regime sírio debilitado, Moscou agiu de forma pesada para salvar seu aliado e esmagar a oposição, qualificada de "terrorista". "Com a intervenção russa, tudo terminou. Soubemos que não poderíamos fazer mais nada", assinala o especialista francês.

"O fracasso da revolução síria não era inevitável", afirmou Tertrais, que destacou a "falta de disposição" dos países que apoiavam a rebelião.

O conflito sírio começou em março de 2011 com uma revolta pacífica e popular na qual se exigia "uma Síria sem tirania", mas o movimento desapareceu em poucos meses, diante da repressão feroz do regime, da militarização dos rebeldes e da intervenção de potências estrangeiras.

Com a ascensão do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), as aspirações democráticas dos sírios passaram ao segundo plano para os países ocidentais. "A Síria se resume à confrontação entre duas barbáries", o regime de Assad e o EI, disse Faruk Mardam-Bey, editor e presidente da associação Suria Huria. "O povo pensa que é melhor escolher a barbárie de gravata, que fala inglês e cuja mulher não usa véu".

Moscou, Teerã, Damasco e Ancara são os grandes vencedores deste conflito, apontou um diplomata europeu. Mas os interesses destes países não são os mesmos, destacam vários especialistas.

Entre Assad, que pretende reconquistar todo o país; Rússia, que se conformaria com uma "Síria útil"; Turquia, preocupada especialmente em proteger sua fronteira norte; e Irã, que busca reforçar sua posição no cenário internacional, os interesses podem se chocar em breve. / AFP

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