Walter Tychnowicz/AFP
Walter Tychnowicz/AFP

Queda de avião deixa diáspora iraniana no Canadá de luto  

A tragédia atingiu desproporcionalmente a cidade de Edmonton, capital da Província de Alberta, uma vez que 27 moradores estavam no avião que levava 176 a bordo

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 16h22

EDMONTON, ALBERTA — Os exaustores no laboratório da estudante Saba Saadat estavam silenciosos na sexta-feira. Os computadores e microscópios, desligados. Soluços de vez em quando quebravam o silêncio. A professora Meghan Riddell, chefe do laboratório de biologia celular, confortava um estudante em prantos, e dois técnicos com os olhos cheios de lágrimas se colocaram ao lado dela. Saadat, estudante de biologia, era uma das mais promissoras da Universidade de Alberta.

“Ela era uma PhD disfarçada de estudante”, disse Meghan Riddell, chorando. Saba Saadat estava entre as 176 pessoas que morreram quando um avião deixando a capital iraniana, Teerã, com destino à Ucrânia, caiu na quarta-feira. O acidente também matou sua irmã, recém-formada em psicologia, e sua mãe, obstetra e ginecologista.

Ao todo, 57 canadenses morreram. Várias outras vítimas eram iranianas que estudavam no Canadá. Embora a queda tenha deixado toda a diáspora iraniana no Canadá de luto, a tragédia atingiu desproporcionalmente a cidade de Edmonton, capital da Província de Alberta, uma vez que 27 moradores estavam no avião e pelo menos 10 eram alunos ou professores da Universidade de Alberta.

A angústia somente aumentou com as evidências de que foi um míssil iraniano que derrubou o avião da Ukraine International Airlines. Lembranças das perdas estavam por toda a parte quando o centro esportivo da universidade foi preparado para uma cerimônia religiosa pública no domingo.

Havia flores, chocolates, fotos e velas na porta das salas dos membros da faculdade que morreram, nos departamentos onde os alunos estudavam e nas escadas do prédio do Legislativo de Alberta. Bandeiras foram baixadas a meio pau por toda a cidade que tem pouco menos de um milhão de habitantes. Uma ponte ferroviária que atravessa um vale ribeirinho que define Edmonton geograficamente foi iluminado com luzes vermelhas e brancas, cores da bandeira canadense.

Nessa nação multicultural, os iranianos são recém-chegados em comparação com outros. Muitos chegaram após a Revolução Islâmica em 1979. Hoje, o Canadá tem o terceiro maior número de iranianos expatriados no mundo e suas universidades são um importante destino para os estudantes de graduação.

Os iranianos canadenses formam um grupo realizado, acadêmica e profissionalmente. Em Edmonton, como em todo o Canadá, eles são médicos, dentistas, engenheiros e acadêmicos. “É uma dádiva para o Canadá e você sabe que é uma perda para o regime no Irã”, disse Payman Parseyan, presidente da Iranian Heritage Society de Edmonton, ao falar das contribuições dos iranianos para o Canadá; “Eles (governo iraniano) sufocam as pessoas, essas ficam insatisfeitas com o governo e deixam o país. As melhores mentes vão embora."

Parseyan, ex-policial de 30 anos que hoje inspeciona a construção de um gasoduto e um oleoduto, refere-se a si mesmo como persa, e não iraniano, de modo a se distanciar do governo do seu país natal. Seus pais, ambos geólogos, levaram Parseyan para o Canadá quando ele tinha 8 anos, junto com seus dois irmãos. Depois de passar algum tempo com parentes em Toronto, eles viajaram para Edmonton, cidade que nunca tinham ouvido falar.

Ele diz que, para muitos iranianos que querem deixar seu país, o Canadá é a segunda opção depois dos Estados Unidos. O clima muito frio, particularmente em Edmonton, é que não ajuda. Talvez em reação à teocracia que governa o Irã, esses muitos iranianos em Edmonton são seculares, disse ele. A Heritage Society, um grupo de voluntários, em geral, se reúne nos feriados iranianos e no festival étnico anual de Edmonton, um grande evento na cidade que reúne muitas nacionalidades.

Num shopping de subúrbio onde se encontra comida típica do Japão,Taiwan, Paquistão e Coreia, Mahnuash Jannesar, coproprietária do Persia Palace, restaurante e mercado, disse que quando as fotos das vítimas da queda do avião surgiram nos jornais, ela reconheceu metade deles, todos clientes seus. Embora não soubesse os nomes de muitos antes do acidente, ela conhecia Pedram Mousavi e Moigan Daneshmand, professores de engenharia que morreram no acidente com os dois filhos.

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Foi a morte dos estudantes que frequentavam sua loja que mais a entristeceu.“Eles vieram para o Canadá em busca de um futuro; não existe futuro no Irã”. Reza Akbari, atual presidente da Heritage Society, fez uma pausa quando dizia como algumas vítimas eram como ele próprio há 15 anos: adolescentes ou pessoas nos seus 20 anos deixando o Irã para estudar no Canadá e começar uma nova vida. Irritado, ele lembrou ter visto as primeiras listas de passageiros e encontrar nomes de amigos seus.

Chorando pelo que afirmou ser a primeira vez desde a notícia da queda do avião, ele comparou a ausência de qualquer comunicado ou simpatia para com as vítimas da parte do Irã com a efusão de manifestações de consolo da parte dos canadenses. “Não houve uma mensagem de condolência de nenhuma autoridade do governo do Irã”, disse Akbari, que trabalha como representante de vendas da Diageo, conglomerado de cerveja e bebidas alcoólicas.

“Depois desse acidente, o apoio que recebemos do Canadá em comparação com nosso país natal é alguma coisa que, coletivamente, como canadenses, nos orgulhamos. E como iraniano, fico triste”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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