Queda de líder não é surpresa, protestos sim

A surpresa para quem acompanha a política no Egito não foi a queda de Hosni Mubarak, mas as enormes manifestações com centenas de milhares de pessoas das ruas do Cairo, Alexandria e Suez. O fim da era do ditador era antecipado por consultorias de risco político, bancos de Wall Street, CIA e governo de Israel.

, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Dois eram os fatores para apostar no fim das três décadas de Mubarak - o primeiro, a sua saúde. Nos últimos anos, o ex-líder egípcio precisou se submeter tratamentos na Alemanha e passava a maior parte do tempo em sua residência em Sharm el-Sheikh, no Sinai, raramente aparecendo no Cairo. Até seu "vício" por partidas de squash precisou ser abandonado.

Quando o presidente dos EUA, Barack Obama, visitou o Egito para discursar ao mundo islâmico, em junho de 2009, Mubarak não teve condições de comparecer ao evento na Universidade do Cairo. No fim, recebeu uma visita privada do líder americano em seu palácio.

O segundo fator foi o sinal de que Mubarak indicaria seu filho Gamal para sua sucessão. Por um lado, ele era considerado moderno, ligado à elite econômica egípcia e com planos de transformar o país em uma China do Oriente Médio, mantendo o regime fechado, mas abrindo a economia ao comércio.

Ao mesmo tempo, porém, conforme alertavam analistas desde julho de 2010, a indicação de Gamal era inaceitável para as Forças Armadas. Ao contrário de outros jovens líderes da região, ele não passou por treinamento militar. Desde essa época, os militares começaram a elaborar estratégias para evitar essa possibilidade, segundo apurou o Estado.

Figuras como Ahmed Shafik, que comandou a Força Aérea, e Mohamed Tantawi, que assumiu o comando do conselho militar, não concordavam com essa possibilidade.

Holger Albrecht, professor da Universidade Americana do Cairo que no início de 2009 alertava para o fim da era Mubarak, mas sem prever as manifestações, diz que "há muito tempo" os militares haviam decidido que não aceitariam Gamal no poder. "Gamal Abdel Nasser não passou poder para seu filho. Anwar Sadat também não. O Egito é um regime militar, não uma monarquia hereditária", afirma. Os militares não teriam derrubado Mubarak apenas por considerar mais simples esperar que ele morresse.

Antigos agentes das forças de segurança de Hosni Mubarak e parte da elite econômica ligada a seu filho Gamal devem ser os principais insatisfeitos com o novo cenário político egípcio e podem agir para sabotar o processo de transição. "Não está claro ainda como o processo lidará com as forças de segurança ligadas ao Ministério do Interior e também com a oligarquia econômica que fez fortuna através de suas relações com Mubarak", afirma Hani Sabra, do Eurasia Group.

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