Queda de Livni fragiliza frente Kadima em Israel

Partido opositor de centro perde metade do eleitorado e sua força diante do direitista Likud; analistas questionam sua capacidade de coesão

JERUSALÉM, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2012 | 03h02

Tzipi Livni, que ainda há pouco era uma política popular de considerável força em Israel, perdeu a liderança do Partido Kadima na terça-feira. Seu arquirrival a derrotou por uma diferença substancial nas eleições primárias.

A vitória de Shaul Mofaz, ex-líder do Exército e ministro da Defesa que há muito é tido como o número 2 dentro do Kadima, pôs em dúvida o futuro político de Livni. Trouxe também à tona a perspectiva de uma mudança política mais ampla, com analistas e comentaristas prevendo que Mofaz se mostrará mais inclinado do que Livni à possibilidade de participar de um governo de coalizão liderado pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e seu partido, o Likud, de direita.

Mofaz está herdando um partido que ainda não completou uma década de existência e já se vê muito enfraquecido em decorrência do período em que governou o país, de 2006 a 2009. Deste então, a atuação do Kadima como partido de oposição sob a liderança de Livni foi de pouco brilho. Embora ainda seja o maior partido no Parlamento, pesquisas mostram que o Kadima já perdeu cerca de metade do seu eleitorado, o que faz do grupo apenas mais um concorrente entre os tantos que participam da política israelense.

Com as atenções em Israel e Washington voltadas para a melhor forma de lidar com as ambições nucleares do Irã, a principal plataforma de Livni à frente do Kadima - a negociação de uma paz com os palestinos com base na solução de dois Estados - ficou cada vez mais irrelevante.

Abraham Diskin, cientista político da Universidade Hebraica de Jerusalém, acredita que o governo de Netanyahu tem se mostrado muito mais aberto à esquerda do que o esperado por muitos israelenses, apoiando os princípios de uma solução de dois Estados e concordando com um congelamento de dez meses na construção de assentamentos. O congelamento chegou ao fim em setembro de 2010 e os palestinos se recusaram a retomar as negociações sem uma nova moratória nos assentamentos.

"A maioria dos israelenses acredita que os palestinos são responsáveis pela falta de progresso", disse Diskin. "Só isso já aumenta a popularidade do governo e diminui a do Kadima." Mofaz havia prometido seu própria plano para um Estado palestino provisório em 60% a 65% da Cisjordânia, além de Gaza, sem remover inicialmente qualquer assentamento israelense.

Tanto Mofaz, de 63 anos, quanto Livni, de 53, foram ministros do Likud no passado. Livni entrou no Kadima na sua fundação, em novembro de 2005,pelo antigo líder israelense Ariel Sharon, pouco antes de ele sofrer um derrame que o deixou em coma. Mofaz ingressou semanas depois.

Analistas têm questionado a capacidade de coesão do partido, que se inclina ora para a direita ora para a esquerda. Alguns até especularam que, após as primárias, o Kadima poderia se dividir. Mofaz, que nasceu no Irã e imigrou para Israel com sua família quando tinha 9 anos, obteve 61,7% dos votos e Livni, 37,2%. Cerca de 45% dos 95 mil membros do Kadima participaram da votação.

Críticos de dentro e de fora do Kadima culparam Livni pelo que dizem ser sua ineficácia como líder da oposição. Ela foi incapaz de formar um governo de coalizão em 2008 após seu antecessor na liderança do Kadima, Ehud Olmert, renunciar do cargo de premiê em meio ao aprofundamento de uma investigação de corrupção. / NYT

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