AP Photo/Antonio Calanni
AP Photo/Antonio Calanni

Queda de ponte em Gênova, na Itália, completa um ano

Parentes das 43 vítimas e autoridades italianas participam de solenidade no local do desabamento da ponte Morandi

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2019 | 12h12

GÊNOVA - A Itália relembra nesta quarta-feira, 14, o primeiro aniversário da queda da ponte Morandi, em Gênova, que deixou 43 mortos. A cerimônia, no entanto, se viu ofuscada pela crise política aberta desde a ruptura da coalizão de governo.

Na zona onde a tragédia aconteceu, realizou-se uma missa, que começou com a leitura dos nomes das 43 vítimas, na presença de centenas de parentes e também de todos os protagonistas da recente crise que afeta o país.

Participaram da solenidade o presidente Sergio Mattarella, o único que tem competência para dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas; o ministro do Interior, Matteo Salvini, que rompeu com seus sócios e pede desde 8 de agosto novas eleições; seu ex-aliado no governo Luigi Di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas; e o chefe de governo, Giuseppe Conte, assim como vários ministros.

Em 14 de agosto de 2018, às 11h36 (6h36 em Brasília), sob uma intensa chuva, uma parte da ponte Morandi desabou, arrastando veículos e passageiros. Neste mesmo horário, fez-se hoje um minuto de silêncio, e os sinos nas igrejas da cidade ressoaram, enquanto se ouviam as sirenes do porto.

A cerimônia foi realizada praticamente debaixo de onde caiu a infraestrutura. A algumas dezenas de metros, uma nova ponte está sendo construída. A expectativa é que esteja concluída até a próxima primavera, segundo as autoridades.

A nova ponte será construída por um consórcio de várias empresas italianas, com base em um projeto de Renzo Piano, o célebre arquiteto genovês, criador, entre outros, do Centro Pompidou de Paris, ou do arranha-céus The Shard, de Londres.

"São três navios que se erguem para o céu e se unem para formar uma estrutura única de mais de um quilômetro de longitude", explicou Piano, nesta quarta, em entrevista publicada no jornal La Repubblica.

À espera desta nova ponte, indispensável para cruzar rapidamente esta cidade de mais de 580.000 habitantes, a batalha judicial sobre a estrutura que desabou segue seu curso.

De um lado, está o principal acusado, a empresa Autostrade per l'Italia (ASPI), concessionária do viaduto e propriedade da família Benetton; de outro, as famílias das vítimas e vários políticos (sobretudo do M5S), que consideram que a ponte caiu por falta de manutenção e acusam a ASPI de ter privilegiado seus lucros em detrimento da segurança dos usuários.

Os julgamentos se anunciam complicados: a investigação afeta 71 pessoas, incluindo diretores de empresas do grupo Benetton e autoridades de diferentes governos; mais de 100 advogados; 120 especialistas jurídicos; 75 testemunhas; e toneladas de documentos e de provas físicas.

O caso da ponte foi um dos assuntos que estremeceram as relações entre a Liga e o M5S. Esta última sigla queria encerrar, o quanto antes, todas as concessões nas mãos da ASPI. Recuou, porém, diante das possíveis demandas por indenização que o governo poderia enfrentar, em caso de rompimento de contrato. A Liga, por sua vez, próxima dos círculos industriais do norte, mostrou-se mais prudente.

Memória traumática

"Lembrarei dos gritos de baixo dos escombros para sempre", afirmou Federico Romeo, prefeito da região da tragédia. "As pessoas pediam ajuda e nós estávamos por cima, impotentes", completa Romeo, que disse ter se consultado por seis meses com um psiquiatra para superar o trauma.

"Esse dia foi muito difícil. O seguinte, ainda mais. Nunca vou esquecer de uma menina que estava entre os deslocados", lembra ele. "Quando cheguei (...), ela estava nos braços da mãe e perguntou: 'Mãe, vamos morrer também?' A mãe olhou para ela, fez um carinho e todos nos abraçamos e choramos."

Assim como o político, o colombiano Emmanuel Díaz, cujo irmão morreu na tragédia, diz ser impossível esquecer do incidente - ele viajava para seu país natal no dia do incidente. "Ainda não havia chegado ao destino quando vi que a ponte havia caído. Estava em Bogotá esperando meu voo de conexão", conta Emmanuel, que só conseguiu voltar para Gênova três dias depois.

Ele disse que reconheceu o carro do irmão pelas imagens exibidas pelas emissoras italianas. "Vi as imagens ao vivo, quando tiravam o carro dele dos escombros. Fui eu quem deu a notícia para nossa mãe", relembrou.

Hoje, ele lidera uma batalha judicial em memória de seu irmão. "Esse ano todo foi um combate. A ferida não está fechada", indicou Emmanuel. "Isso não me ajuda a superar a dor, mas dá um sentido, me ajuda a atuar para que seja feita justiça, para que a morte de meu irmão não tenha sido inútil." / AFP

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