Queda de prédio revela máfia ligada a confecções na Ásia

Edifício que desabou em Bangladesh tinha mais do que fábricas têxteis: ali, seu proprietário traficava drogas e poder

JIM YARDLEY, THE NEW YORK TIMES, SAVAR, BANGLADESH, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h03

Situado a 30 quilômetros da capital de Bangladesh, Daca, o subúrbio de Savar é um centro industrial poeirento e caótico, repleto de fábricas que produzem roupas para conhecidas marcas ocidentais. As normas de edificação nem sempre são atendidas, a fiscalização é deficiente e os poderosos dom frequência andam com guardas armados. Neste lugar, talvez ninguém concentre poder da maneira mais descarada do que Mohamed Sohel Rana.

O dono do prédio que desabou dia 24, matando mais de 500 trabalhadores, andava de motocicleta, intocável como um chefão mafioso, acompanhado pela sua própria gangue. Segundo autoridades locais e a imprensa de Bangladesh, estava envolvido no tráfico de drogas e armas.

Nos andares superiores, os trabalhadores ganhavam US$ 40 mensais costurando roupas para lojas como a JC Penney. Nos inferiores, Rana recebia políticos locais, que jogavam bilhar, bebiam e usavam drogas.

Rana, de 35 anos, tornou-se o homem mais odiado em Bangladesh. Na terça-feira, um tribunal de Bangladesh ordenou o confisco de seus bens. A população exigia a sua execução.

Rana é em parte uma criação da era das confecções, em que empresas globais chegaram em busca de mão de obra barata para combinar grandes lucros e custos baixos. Empresas apresentam suas cadeias de produção internacionais como sistemas submetidos a uma rigorosa inspeção, mas fiscais comumente checam fatores de segurança e condições de trabalho, não a solidez do próprio imóvel.

Há muito tempo, criminalidade e política andam de mãos dadas em Bangladesh. O setor do vestuário introduziu o elemento que faltava: dinheiro. O preço dos terrenos na região subiu quando fábricas começaram a ser abertas às pressas para atender à demanda ocidental.

Para construir o Rana Plaza, Rana e seu pai intimidaram proprietários de terrenos vizinhos e se apossaram dos imóveis à força. Seus aliados políticos concederam alvarás de construção, mesmo com um título de propriedade duvidoso. Mais tarde, um segundo alvará foi expedido para a construção dos andares superiores - que devem ter abalado a estrutura do edifício.

Rana atuava sem ser investigado. Canais de TV noticiaram as rachaduras no prédio na noite anterior ao desabamento, mas nenhuma autoridade o impediu de abrir o imóvel na manhã seguinte. "O dinheiro é o poder dele", afirmou Ashraf Uddin Khan, ex-prefeito de Savar que acusa Rana de estar envolvido em tráfico de droga. "Dinheiro ilegal."

Antes de o edifício desabar, Bangladesh já estava tumultuada, com os partidos de oposição em greves nacionais, conhecidas como "hartals", que deixaram donos de fábricas sob forte pressão. A Associação de Fabricantes e Exportadores de Roupas advertiu que essas greves estavam custando ao país US$ 500 milhões em negócios perdidos.

Rana teve foi secretário da ala estudantil local na Liga Awami de Bangladesh, partido majoritário do país. A posição se traduzia em influência. Ele formou um grupo que utilizava como força política, às vezes para estimular as greves, outras vezes para esvaziar os movimentos.

Rana encontrou proprietários de fábricas interessados em alugar os novos andares superiores e tornou-se mais influente. No dia 23, houve um problema. Costureiras no terceiro andar ficaram assustadas com um barulho que parecia uma explosão. Rachaduras surgiram nas paredes. Elas saíram para fora.

Na manhã seguinte, o Rana Plaza desabou. O dono conseguiu escapar do escritório no porão, mas foi descoberto num esconderijo perto da fronteira com a Índia. Foi levado de helicóptero para Daca, desgrenhado. Mesmo com as prisões, muitos em Savar não estão convencidas de que ele será punido ou que suas atividades serão investigadas.

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