AFP/JUNG YEON-JE
AFP/JUNG YEON-JE

Queda de presidente sul-coreana ameaça escudo antimísseis

Sistema instalado pelos EUA contra Pyongyang é alvo de opositores em ascensão

O Estado de S.Paulo

11 de março de 2017 | 05h00

SEUL - A deposição da presidente sul-coreana pelo Tribunal Constitucional na madrugada desta sexta-feira muda o delicado equilíbrio das relações na região asiática. A destituição de Park Geun-hye ocorre depois de meses de agitações, quando centenas de milhares de sul-coreanos foram semanalmente para as ruas para protestar contra um escândalo de corrupção que envolveu a alta cúpula governamental e empresarial do país.

 Park, a primeira mulher presidente da Coreia do Sul, filha do ex-ditador Park Chung-hee que governou durante a Guerra Fria, era um ícone do poder conservador no país que se juntou a Washington pressionando por uma linha mais dura contra as provocações nucleares da Coreia do Norte.

A saída de Park deve conduzir a política sul-coreana para as mãos da oposição, cujos líderes preconizam um maior diálogo com a Pyongyang e temem um grande confronto na região. Eles também pretendem reexaminar a estratégia conjunta dos Estados Unidos e Seul no tocante à Coreia do Norte e reduzir as tensões com a China, que já vem soando o alarme contra o crescente envolvimento militar americano na região.

Os poderes de Park foram suspensos em dezembro, quando seu impeachment foi votado no Congresso, apesar de ela continuar a viver na Casa Azul presidencial, só e longe dos olhos do público, aguardando a decisão do Tribunal Constitucional. Os oito juízes decidiram por unanimidade destituir Park pela prática de “atos que violaram a Constituição e as leis durante o tempo em que esteve no cargo”.

Quando o veredicto foi anunciado, os milhares de partidários da ex-presidente, reunidos em local próximo do tribunal portando bandeiras, silenciaram. Depois seguiram na direção da Corte para “destruí-la”. Quando a polícia os impediu, alguns atacaram os policiais com os mastros das bandeiras, atirando garrafas de águas e pedras. Dois manifestantes, um de 60 anos e outro de 72, morreram na manifestação.

De acordo com a lei, a Coreia do Sul deve eleger um novo presidente dentro de 60 dias. O presidente interino, Hwang Kyo-ahn, aliado de Park, permanecerá no cargo provisoriamente. O governo americano iniciou nesta semana a instalação de um sistema antimísseis na Coreia do Sul. Os EUA afirmaram ontem que o plano irá adiante, mesmo com a turbulência política em Seul. Os equipamentos devem estar totalmente operacionais antes da nova eleição. 

Depois de o tribunal comunicar sua decisão, Hwang convocou o gabinete e colocou a nação em regime de prontidão militar, qualificando a falta de um presidente como uma “situação de emergência” nacional. E alertou a Coreia do Norte contra “provocações adicionais”.

Ciclo. Park foi eleita em 2012 com o apoio dos sul-coreanos conservadores mais idosos que reverenciavam seu pai pelo crescimento econômico do país no período da ditadura. As conexões da indústria com o poder político deram lugar a vínculos fraudulentos, enfatizados pelo escândalo que conduziu à queda de Park. O caso atingiu em cheio o vice-presidente e herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong, acusado de pagar propina à ex-presidente e sua amiga Choi Soon-sil.

Com os conservadores agora desacreditados e sem candidato influente para suceder a Park, a esquerda poderá assumir o governo pela primeira vez em uma década. Os temas de campanha dominantes provavelmente serão o programa nuclear da Coreia do Norte e as relações com os EUA e China.

Se a oposição assumir o governo, talvez tente reavivar a tática de criar vínculos com a Coreia do Norte por meio de assistência e intercâmbios, um enfoque defendido pela China. Moon Jae-in, o líder do Partido Democrático que lidera as pesquisas de opinião, disse que uma década inteira aplicando sanções contra a Coreia do Norte não freou o programa nuclear.

Segundo Moon, a decisão de Park de autorizar a instalação do sistema de defesa contra mísseis pelos americanos deve ser revertida por ter envolvido o país na disputa perigosa e crescente entre Washington e Pequim. A China diz que o sistema é uma ameaça. Os conservadores sul-coreanos consideram o sistema de defesa como um guardião contra o Norte e uma reafirmação simbólica da aliança com os EUA. / NYT 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.