AFP PHOTO / BULENT KILIC
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Queda de Raqqa mudará estratégia do Estado Islâmico

Após queda de Raqqa, jihadistas não controlam mais nenhum grande centro urbano; derrota não elimina capacidade do grupo de recrutar membros, mas deve alterar sua estratégia e obrigar terroristas a realizar ações clandestinas

O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2017 | 21h39

BEIRUTE - Forças curdas e árabes apoiadas pelos EUA na Síria anunciaram nesta terça-feira, 17, ter tomado a cidade de Raqqa, a capital de facto do autoproclamado califado do Estado Islâmico (EI). O grupo radical sofreu uma derrota que não termina com a capacidade de recrutar jihadistas e praticar atentados, mas deve alterar profundamente suas estratégias. 

+Para entender: As Forças Democráticas Sírias (FDS), grupo árabe-curdo que combate o EI

A queda de Raqqa é o principal sinal de desmantelamento do califado, cuja área avançou por territórios na Síria e no Iraque, em regiões conquistadas desde 2014. As Forças Democráticas Sírias (FDS) declararam que os terroristas foram totalmente expulsos e houve celebração com tiros para o alto. O Comando Central dos EUA foi mais cauteloso, dizendo que “mais de 90% de Raqqa estava sob poder das FDS”. 

A retomada da cidade está carregada de simbolismo. No seu auge, em 2014, o grupo controlava a segunda maior cidade do Iraque, Mossul, assim como Raqqa e grandes pedaços de territórios dos dois lados da fronteira. Os terroristas pretendiam dobrar o tamanho da área sob seu poder. 

O líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, que esteve na prisão no Iraque durante a ocupação das tropas americanas, alegou ser o sucessor do califa, o imperador islâmico que governou a região séculos atrás. Ele convenceu dezenas de milhares de muçulmanos de todo mundo, alguns novatos ou pouco conhecedores da fé islâmica, a viajar para a região e lutar contra os infiéis. 

Desde então, o grupo cercou e tomou as ruínas de Palmyra, na Síria, e de Hatra, no Iraque, destruindo importantes monumentos históricos em nome de sua interpretação do Islã. Com a queda de Raqqa, o grupo não controla mais nenhum grande centro urbano. 

Analistas afirmam que o EI se prepara para uma nova fase, voltando para um tipo de “insurgência na clandestinidade”, como no início de sua história, fixando-se entre populações sunitas descontentes e dispostas a tolerar, e até abraçar de corpo e alma, a vertente ultraconservadora do Islã. 

Raqqa foi a primeira grande cidade capturada pelo EI e nela eram elaboradas e aprovadas as leis do califado, emitidos passaportes e dinheiro dos jihadistas. O Estado Islâmico usou a cidade como um centro de planejamento e operações para sua campanha militar no Oriente Médio e sua sequência de ataques em outros países. Raqqa também foi usada para a prisão de reféns ocidentais antes de ele serem executados, com suas mortes registradas em vídeos com alta produção e distribuídos online.

O avanço das milícias, desde domingo, tomou a praça central da cidade, que o Estado Islâmico utilizou como palco para as várias decapitações de seus inimigos. O local tornou-se a última linha de defesa do grupo à medida que a batalha progrediu. 

Estrangeiros. Uma das preocupações agora que o território do EI foi tão reduzido é o que ocorrerá com os milhares de combatentes estrangeiros que se juntaram ao grupo. O temor é de que eles retornem para seus países com planos de conduzir ataques em casa. Alguns combatentes de países árabes, europeus e asiáticos se escondem em pequenas cidades nas áreas desérticas da Síria e já não estão dispostos a lutar ao lado dos sírios. 

A vitória em Raqqa veio com um alto custo. A maior parte da cidade foi devastada por ataques aéreos da coalizão liderada pelos americanos, que mataram mais de mil civis, de acordo com ativistas locais e monitores internacionais. Cerca de 270 mil pessoas foram deslocadas pelo conflito e milhares de casas foram destruídas. / NYT e REUTERS

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