Queda do Muro de Berlim completa 25 anos

Alemanha, que precisou da permissão de outros países para se reunificar, tornou-se a maior liderança da Europa

Melina Costa, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2014 | 16h30

BERLIM - Há 25 anos, multidões tomavam as ruas de Berlim para derrubar o muro que marcou a separação do país entre socialismo e capitalismo. O episódio, apesar de ter se tornado o símbolo emocional do fim da divisão do país, foi mais o resultado de uma confusão burocrática que de uma decisão política.

Desinformado, um oficial anunciou prematuramente que alemães orientais poderiam visitar, sem restrições, o lado ocidental. Como milhares de pessoas tomaram a fronteira, os guardas se viram abrigados a liberar a passagem em massa. Mas o que aconteceu depois do dia 9 de novembro de 1989, aí sim, está entre as mais delicadas negociações diplomáticas do século XX.

Derrubado o muro, o objetivo era reunificar a Alemanha. Por ter saído derrotado da Segunda Guerra Mundial, o país não poderia tomar decisões sobre suas fronteiras sem o consentimento das nações aliadas. Mas nem a União Soviética e muito menos a França e a Inglaterra eram favoráveis à ideia. Foram necessários meses de intensas negociações e pressão por parte do povo alemão - que, a essa altura, tomava as ruas - para acabar, de vez, com a divisão do país.

Passados 25 anos, a Alemanha não só concluiu seu processo de reunificação, como tornou-se a mais poderosa economia da Europa. Ironicamente, o país fragilizado e dependente politicamente de outrora é hoje a principal força integradora da Europa e começa a ser cobrado internacionalmente para exercer um papel mais assertivo de liderança global. “Nossos desafios não são mais domésticos, o que precisamos é encontrar um papel para a Alemanha em um mundo globalizado”, diz Klaus Schroeder, professor de ciência política da Universidade Livre de Berlim. “Apesar de ainda não haver um alinhamento completo (entre a antiga Alemanha Oriental e a Ocidental), pode-se dizer que o processo de unificação foi bem sucedido.”

União. Ao longo das últimas décadas, foram estabelecidos uma série de esquemas para o repasse de recursos de modo a ajudar na integração do leste socialista. Apenas um deles, o Pacto de Solidariedade, terá transferido 156 bilhões de euros em sua segunda fase, entre 2005 e 2019. Hoje, os cinco Estados do leste apresentam expectativa de vida, qualidade da infraestrutura e até da pesquisa científica semelhantes ao restante do país. Já o nível de atividade econômica dos dois lados se aproximou, mas ainda não é o mesmo. O PIB per capita gerado no leste é 67% da produção no lado ocidental e o processo de convergência entre os Estados empacou.

Há problemas estruturais difíceis de serem resolvidos no leste: faltam empresas de grande porte e centros econômicos dinâmicos comparáveis a Frankfurt, Munique e Hamburgo, por exemplo. Além disso, o problema do decréscimo populacional alemão é ainda mais grave na antiga Alemanha Oriental. Ocorre que, com a queda do muro de Berlim, muitos jovens da região mudaram-se para o oeste em busca de empregos.

A desigualdade persistente, porém, pode ser interpretada como uma característica da economia regional alemã - e não necessariamente uma falha no processo de reunificação. Antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, Estados do leste apresentavam uma atividade econômica mais modesta.

Politicamente, ainda há uma divisão na preferência do eleitorado alemão. O partido de esquerda é mais popular no leste e, pela primeira vez desde a queda do muro, deverá comandar um Estado (uma coalizão ainda está sendo negociada). No entanto, a reunificação moveu o país como um todo para a esquerda. A chanceler Angela Merkel e seus colegas democratas-cristãos, por exemplo, foram transferidos para a categoria de “centro-esquerda”. No parlamento nacional, ainda há proporcionalmente mais alemães ocidentais ocupando altos cargos ministeriais, mas tanto Merkel como o presidente Joachim Gauck vieram do leste.

Status. Apesar das dificuldades econômicas e de representação ainda enfrentadas no leste, assim como o custo social da reunificação, o êxito do projeto fez com que a Alemanha assumisse um papel consolidador também na Europa. O país foi um dos principais atores para o estabelecimento e expansão da União Europeia. Mais recentemente, com a crise na zona do euro, a Alemanha foi alçada a uma involuntária posição de liderança. Diante da ambivalência da Inglaterra (que discute se ficará ou não na União Europeia) e do enfraquecimento econômico da França, coube à Alemanha, mais que qualquer outro país, a tarefa de encontrar uma saída para os vizinhos endividados no sul.

Seu modelo de gerenciamento da crise, porém, têm sido amplamente criticado. A campanha da Alemanha para a adoção de políticas fiscais austeras por parte dos países endividados é vista, por muitos, como um obstáculo ao crescimento da região. “O problema é que a liderança da Alemanha dificultou a recuperação da Europa, ao invés de apoiá-la”, diz Johannes Linn, pesquisador sênior do Brookings Institution, um dos mais influentes think tanks do mundo. Ainda é cedo, porém, para avaliar o legado do país durante a crise, que ainda está em andamento. Para economistas mais conservadores, a austeridade da Alemanha foi acertada. “Não havia outra alternativa, no auge da crise, para restabelecer a confiança dos mercados financeiros na sustentabilidade da dívida”, diz Michael Hüther, diretor do Instituto de Economia Alemã em Colônia.

Global. Além de manter a Europa engajada em meio à crise econômica, a Alemanha começa a ser cobrada também para estender sua área de influência. Nas últimas décadas, o país tem adotado uma postura discreta em questões internacionais, concentrando-se na negociação e na busca do consenso. “Mas se você olhar para os tomadores de decisões políticas hoje, eles acham que a Alemanha deveria ter uma atitude mais pró ativa em questões internacionais. Não uma Alemanha unilateral, mas uma Alemanha menos reativa”, diz Michael Bauer, pesquisador sênior do Centro para Pesquisa Aplicada de Políticas Públicas da Universidade Ludwig-Maximilian. “Ainda mais agora, que a Europa ocidental é confrontada por várias crises em sua vizinhança, seja no Oriente Médio, seja no leste europeu.”

A mensagem foi recebida pelos líderes alemães. Na última reunião da Conferência de Segurança de Munique, no início deste ano, o presidente Gauck chamou o país para assumir uma maior responsabilidade no cenário internacional. Em seu discurso, ele afirmou que, se forem esgotados os demais recursos e o envio de tropas alemãs para áreas de conflito entrar em pauta, “a Alemanha não deve dizer ‘não’ por princípio.”

Está exatamente aí o grande desafio do país. A agressividade militar alemã foi deixada para trás depois de duas guerras catastróficas e mais de 40 anos de divisão. Reverter a atual postura não é bem vista pela população, que ainda lida com traumas do passado. Como diz o cientista político William Paterson, da Universidade de Birmingham, a Alemanha é hoje uma “hegemonia relutante”. Diante dos desafios do século XXI, porém, resta saber por quanto tempo essa postura será possível.

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