Fabrizio Bensch / Reuters
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Queda do Muro de Berlim: O escavador de túneis que ajudava quem fugia para o Ocidente

Quando divisão foi criada, guardas tinham ordens de disparar para matar em quem tentasse escapar do leste comunista; conheça a história de Boris Franzke, que sobreviveu graças a um ‘herói’ da polícia política comunista

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 11h17

BERLIM - Quando o Muro de Berlim foi construído, os guardas tinham ordens de disparar para matar naqueles que tentavam escapar do leste comunista. Boris Franzke foi um dos muitos que escavaram túneis para ajudar os fugitivos e sobreviveu graças a um "herói" da polícia política comunista. 

Aos 80 anos, o berlinense é um dos sobreviventes do início dos anos 1960, quando vigorava a Guerra Fria. "No início a política não me interessava. Não me sentia envolvido pelas tensões entre a União Soviética e o Ocidente", diz Franzke.

Tudo mudou na noite de 12 de agosto de 1961 quando, para impedir a fuga em massa dos alemães do leste para o oeste - mais de 2,7 milhões entre 1949 e 1961 -, os soviéticos bloquearam os acessos para Berlim Ocidental.

Em algumas horas, colocaram cercas de arame farpado e logo levantaram o Muro, por um espaço tomado por guardas armados. "Essa famosa noite foi o detonador de tudo", explica.

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De repente, o jovem de 22 anos não podia ver sua namorada, seus amigos e sua família, que viviam todos em Berlim Oriental. Como nasceu meses antes do início da 2ª Guerra, só conheceu "a destruição e, mais tarde, os difíceis anos posteriores ao conflito e a divisão do país".

Traições

"Nos faltava de tudo! Tínhamos sede de liberdade", lembra Franzke. Seu irmão Eduard, cuja mulher e filhos viviam também "do outro lado", propôs a via subterrânea, mas foram traídos na primeira tentativa, e a família que estava no leste foi detida.

"Estávamos destroçados e nos convencemos de que continuaríamos porque cada pessoa que trouxéssemos para o oeste permitiria debilitar um pouco mais a RDA", conta Franzke, com lágrimas nos olhos.

Até 1964, os dois irmãos participaram da construção de sete túneis, sendo dois deles bem-sucedidos. Entre 26 e 28 alemães do leste, segundo Franzke, foram beneficiados.

"À sua maneira, Boris Franzke era um resistente", diz o historiador Sven Felix Kellerhoff. Para ele, "esses homens jovens corajosos (entre os escavadores de túneis não havia mulheres) ofereceram uma ajuda altruísta, com o objetivo de debilitar o regime do partido único da ex-RDA".

No total foram escavados 75 túneis em 28 anos de existência do Muro. Somente 19 permitiram aos fugitivos (cerca de 400) chegar ao lado oeste, segundo a associação Berlin Unterwelten. O número é modesto em comparação aos 800 que fugiram através dos canos da cidade ou dos 10 mil que usaram documentos falsos.

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Armadilha

A lembrança mais impactante para Franzke remonta de 1962, quando os dois irmãos queriam levar para o oeste vários conhecidos de um amigo.

O local era pouco vigiado. Durante cinco semanas os dois Franzke e dois amigos escavaram noite e dia um túnel de 80 centímetros de diâmetro para sair na superfície 80 metros mais longe, em um jardim onde deveriam estar 13 candidatos à fuga. Mas quando chegaram ao destino, se deram conta de que era uma armadilha.

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Em vez dos "passageiros" previstos, detidos dias antes, eram esperados por agentes da Stasi, a polícia política. Três dos escavadores escaparam pelo túnel, mas o amigo Harry Seidel, o primeiro a sair, foi detido.

Condenado à prisão perpétua, esse "inimigo público número 1" do partido único foi "comprado" em 1966 pelo governo da Alemanha Ocidental, uma prática corrente na época.

Exasperadas por Seidel e os irmãos Franzke, as autoridades da Alemanha Oriental queriam explodir o túnel com 5 quilos de explosivos.

Sabotagem

"O dispositivo estava pronto, mas no momento de acender... Nada. O pavio havia sido cortado", conta o sobrevivente.

O autor da sabotagem teria sido, segundo historiadores, o membro da Stasi Richard Schmeing, que morreu em 1984. "Por mais estranho que pareça, ele é meu herói. Colocou sua vida em perigo para salvar outras quatro", diz Franzke.

Schmeing foi preso durante o nazismo por fazer parte do partido comunista e foi um sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald. De 1949 a 1968 trabalhou para a Stasi.

Não se sabe o motivo, se por coragem ou dor na consciência. É provável que a presença de um casal jovem próximo dos explosivos tenha influenciado, diz Kellerhoff.

"Cerca de 80% dos túneis foram escavados entre a construção do Muro, o verão de 1961, e outubro de 1964, quando um fugitivo matou supostamente com um tiro um guarda de fronteira, explica Marc Boucher, da Berlin Unterwelten. 

O caso mudou a opinião pública no Ocidente, até então mais favorável a esses métodos de fuga. Não se sabia até a reunificação da Alemanha que esse homem, na realidade, morreu de forma acidental pelas mãos de um de seus camaradas. / AFP

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