Michael Sohn/AP
Bandeira da antiga República Democrática da Alemanha (RDA), conhecida como Alemanha Oriental, é projetada onde ficava o antigo prédio do Palácio da República, próximo da catedral de Berlim   Michael Sohn/AP

Queda do Muro de Berlim: O sombrio aniversário de 30 anos

Alemanha planejou um programa político mínimo para essa comemoração, cujo principal dia será o sábado, aniversário da abertura de uma fronteira que separou os berlinenses do leste e do oeste por mais de 28 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2019 | 16h21
Atualizado 07 de novembro de 2019 | 11h21

BERLIM - A Alemanha deu início, na segunda-feira, 4, às comemorações dos 30 anos da queda do Muro de Berlim, em um ambiente sombrio marcado por um clima semelhante ao da Guerra Fria e uma intensificação dos movimentos nacionalistas pelo mundo.

Longe das esperanças despertadas com o fim da Cortina de Ferro, o prefeito de Berlim, Michael Müller, lançou uma advertência "diante da situação (atual) do mundo".

"É preciso que todos se comprometam juntos pela liberdade, liberdade de imprensa, liberdade de opinião, liberdade de culto", disse o prefeito em um discurso na Alexanderplatz, perto das longas avenidas onde ocorreram as gigantescas manifestações que levaram à queda do muro, em 9 de novembro de 1989.

Müller lembrou que essa "revolução pacífica", que permitiu a união dos alemães, se desenvolveu "sem o derramamento de uma gota de sangue".

A Alemanha planejou um programa político mínimo para essa comemoração, cujo principal dia será o sábado, aniversário da abertura de uma fronteira que separou os berlinenses do leste e do oeste por mais de 28 anos.

Há dez anos, líderes de todo o mundo, incluindo as quatro forças aliadas da 2ª Guerra, se reuniram no Portão de Brandemburgo, em Berlim, epicentro de anos da divisão da cidade e do continente, para derrubar um muro falso, erguido para a ocasião.

A mensagem era clara: os muros e divisões são temas do passado. Há cinco anos, balões luminosos foram lançados ao longo do caminho da antiga muralha para simbolizar o fim das divisões. 

Desta vez, sem grandes comemorações

O ambiente político na Alemanha é rarefeito e mais polarizado do que nunca devido à ascensão da extrema direita que se opõe à imigração e à chanceler Angela Merkel.

O programa desta semana inclui uma série de exposições, encontros com palestrantes e shows nos locais que foram palco da revolução de 1989.

Europa central

Merkel fará um discurso no sábado num local onde ficava parte do Muro de Berlim. Acompanhada pelos líderes poloneses, checos, eslovacos e húngaros, destacará "a contribuição dos Estados da Europa Central na revolução pacífica" de 1989.

No mesmo dia, na parte da tarde, o chefe de Estado, Frank-Walter Steinmeier, vai discursar no Portão de Brandeburgo.

"A unidade alemã é um presente da Europa para a Alemanha, no fim de um século em que os alemães infligiram sofrimentos inimagináveis neste continente ", disse o chefe da diplomacia alemã, Heiko Maas.

Já o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, tem previsto uma viagem à Alemanha, onde em 1989 foi enviado como soldado para a fronteira que dividia o país europeu em dois.

A queda da Cortina de Ferro, que dividiu a Europa do pós-guerra, previa um tempo de distensão e unidade, desarmamento e extensão do modelo democrático liberal, mas a direção do vento parece ter mudado e a perspectiva atual é muito mais sombria.

Nova Guerra Fria?

As fronteiras voltaram. A União Europeia acusa países que saíram do comunismo há 30 anos, como Hungria ou Polônia, de agora questionar o estado de direito, numa época em que a tentação nacionalista ganha força nos discursos.

"Na geopolítica, a Guerra Fria voltou, mas desta vez com uma diferença", alertou no ano passado o secretário-geral da ONU, António Guterres. "Porque os mecanismos e garantias que anteriormente permitiam controlar os riscos de escalada parecem não existir mais", afirmou Guterres.

Em um dos exemplos do atual cenário, os Estados Unidos deixaram o tratado de desarmamento INF assinado com a então União Soviética em 1987 e acusa Moscou de violá-lo, abrindo caminho para uma nova corrida armamentista contra a Rússia

Por sua vez, Moscou coloca suas fichas em todos os lugares dos quais Washington se retira, como o Oriente Médio, assim como a China. 

Para a visita de Pompeo, o Departamento de Estado americano divulgou que discutirá "a necessidade de maior envolvimento diante das crescentes ameaças da Rússia e da China".

O último presidente soviético, Mikhail Gorbachev, ainda popular na Alemanha por não se opor à queda do muro, não está otimista 30 anos depois. 

O atual confronto entre os países ocidentais e a Rússia coloca o mundo em um "perigo colossal" devido à presença de armas nucleares, concluiu recentemente numa entrevista à emissora britânica BBC . / AFP 

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Da euforia inicial aos transtornos da nova vida

Alemães do lado oriental contam como viveram e como tiveram suas vidas alteradas, três décadas após a queda

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 08h00

BERLIM - Da euforia causada pela queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, até as dificuldades econômicas que se seguiram, três alemães orientais contam como viveram e como tiveram suas vidas alteradas, três décadas depois.

'O momento mais importante da minha vida!'

Thomas Wendt, de 67 anos, cresceu a algumas centenas de metros do Muro de Berlim, erguido quando ele tinha apenas 9 anos. Durante os passeios em família, via seu pai "ficar com raiva" toda vez que eles encontravam aquela construção intransitável.

Na noite de 9 de novembro de 1989, foi direto para o posto fronteiriço mais próximo. "Foi uma loucura!", lembra. Ele conta ter ido para o lado ocidental "apenas alguns minutos depois que os guardas da fronteira suspenderam a barreira".

"(Do outro lado do muro) caí nos braços de todos os que queriam me abraçar. Eram estranhos totais!", conta emocionado. "Foi o momento mais importante da minha vida!", conta esse ex-jornalista de um jornal semanal na Alemanha Oriental, segundo ele, não muito bem-visto pelas autoridades.

À época, o Ocidente "era um mundo agradável e fácil, onde tudo brilhava". Mas as complicações não demoraram a chegar. Acabou em desemprego, porque os jornais da Alemanha Oriental estavam fechando, um depois do outro e, no final, acabou trabalhando para uma política socialdemocrata.

Hoje, aposentado, faz um balanço amargo do que aconteceu. "Três quartos dos alemães orientais perderam o emprego, ou tiveram de mudar de profissão após a queda do muro, algo que os alemães ocidentais subestimaram quando nos disseram para parar de reclamar, não está tão ruim."

'A liberdade'

Stefan Newie, de 37 anos, tinha apenas 7 anos quando o muro caiu, um evento que passou praticamente despercebido em sua casa. "Meus pais não assistiram à televisão naquela noite e perderam a Queda do Muro", relata, sorrindo, esse editor de TV.

Ele soube do que tinha acontecido apenas no dia seguinte, na escola. "A turma estava meio vazia, e a professora perguntou: 'Onde estão os alunos?'. Um dos meus colegas respondeu: 'Todos foram para o Ocidente!'”.

Nesse mesmo dia, ele visitou Berlim Ocidental pela primeira vez com seus pais. O que mais se lembra hoje são as cores da cidade. E também o que sentiu ao entrar em um supermercado cheio de coisas. "Lá dentro tinha um cheiro bom, de café que tinha acabado de ser moído. Nas lojas estatais da RDA, não estávamos acostumados a esse tipo de aroma", comenta.

Depois disso, a família foi visitar os bisavós em uma residência ocidental. "Quando meu pai bateu na porta, eles não o reconheceram. Para eles, era inconcebível que ele pudesse estar lá."

Trinta anos depois, Stefan tira conclusões positivas da Queda do Muro. "A liberdade é o bem mais valioso. Posso dizer o que quero, viajar ao redor do mundo e estou feliz por não ter passado toda minha juventude em uma ditadura", afirma ele.

'Não quero voltar atrás!'

Helga Dreher, de 74 anos, tinha 45 anos quando o Muro de Berlim caiu. Aquele muro de concreto afetou significativamente sua vida por anos. Na década de 70, essa professora teve uma filha com um francês, e a Cortina de Ferro estabeleceu contatos esporádicos e muito complicados.

Na noite de 9 de novembro, Helga acompanhou o anúncio da abertura das fronteiras ao vivo pela televisão. "Não acreditei, desliguei a TV", lembra. Não ficou totalmente ciente até o dia seguinte, quando o pai de sua filha ligou para ela e disse: "Você pode vir até Paris! O muro caiu!".

Helga continuou, porém, a suspeitar. "Estávamos imaginando se a RDA não fecharia as fronteiras depois de atravessarmos para o Ocidente", explica.

Seu primeiro contato com o Ocidente, em 10 de novembro, não é uma boa lembrança. Os berlinenses ocidentais, disse, jogaram bananas como os macacos no zoológico. "Foi horrível. Voltei com minha filha para Berlim Oriental depois de meia hora", completa.

Relembre: Muro iluminado de Berlim

Depois disso, as coisas melhoraram. Helga passou o fim do ano em Paris, feliz por ver a filha junto com o pai.

Além disso, conseguiu manter seu emprego após a reunificação. Nem todos tiveram essa sorte, sobretudo, as mulheres, acostumadas a trabalhar e desfrutar de um sistema de cuidado de crianças na Alemanha Oriental.

"No meu círculo de amigas, muitas perderam o emprego e poucas conseguiram seguir adiante depois disso", lamenta.

Mesmo assim, apesar dos problemas, as mudanças são positivas, avalia. "Não quero voltar atrás!". / AFP 

 

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Saiba mais sobre a Cortina de Ferro, fronteira e símbolo da Guerra Fria

A fronteira entre a Europa comunista e o Ocidente, concebida pelos dirigentes soviéticos para bloquear a ideologia ocidental, se materializou de forma gradual para conter a fuga de cidadãos para o oeste

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 10h00

PARIS - A Cortina de Ferro designa a separação, primeiro ideológica e depois física, estabelecida na Europa após a 2ª Guerra entre a zona de influência soviética no leste e os países do oeste.  A barreira, emblema e fronteira da Guerra Fria, caiu em 1989 com o Muro de Berlim.

Qual a origem da expressão?

​A metáfora foi popularizada pelo britânico Winston Churchill. "De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente", declarou em 5 de março de 1946 em um discurso nos Estados Unidos

A autoria é atribuída ao escritor russo Vasili Rozanov, que a utilizou em 1918 a propósito da Revolução Bolchevique em seu livro O apocalipse de nosso tempo: "Com um ruído, um clique e um grunhido, uma cortina de ferro desceu sobre a história da Rússia".

Fronteira ideológica, depois física

A fronteira entre a Europa comunista e o Ocidente, concebida pelos dirigentes soviéticos para bloquear a ideologia ocidental, se materializou de forma gradual para conter a fuga de cidadãos para o oeste.

A barreira, construída a partir de 1949 pela Hungria, e depois pelos demais países comunistas, era formada por cercas de arame farpado, valas, construções de concreto, alarmes elétricos, instalações automáticas de tiro ou minas, que seguiam por milhares de quilômetros.

O Muro de Berlim

Na Alemanha Oriental, os dirigentes comunistas decretaram em 1952 uma zona de proibição de 10 metros de largura ao longo da fronteira com a Alemanha Ocidental, com cercas de arame farpado e postos de vigilância.

Mas o dispositivo tinha uma falha: Berlim ficou dividida em duas partes - uma sob controle soviético e outra ocidental - entre as quais era possível circular sem grande dificuldade. Quase 3 milhões de pessoas encontraram refúgio na República Federal da Alemanha (RFA, Ocidental) pela Berlim Oriental entre 1952 e 1961, após a fuga da República Democrática de Alemanha (RDA, Oriental), o que privou este país de seus principais profissionais.

O regime da Alemanha Oriental obteve a aprovação de Moscou para construir o Muro de Berlim em 1961, apresentado como um "escudo antifascista".

O muro, limitado ao leste por uma terra de ninguém, media 155 quilômetros (43 km dividiam Berlim em duas partes, de norte a sul, e 112 isolavam Berlim Ocidental do território da RDA). Era composto essencialmente de concreto armado e em algumas partes por cercas de metal.

Passagem arriscada para o Ocidente

As viagens à parte Ocidental de cidadãos do leste europeu eram autorizadas sob condições rígidas. Os candidatos ao exílio corriam muitos riscos. Entre 600 e 700 pessoas, de acordo com os historiadores, morreram em tentativas de fuga do regime da Alemanha Oriental.

Apenas o Muro de Berlim provocou ao menos 136 mortes. Quase 5 mil pessoas conseguiram superar a barreira, em alguns casos usando estratégias criativas. 

Uma família escapou do telhado de um prédio, graças a uma tirolesa conectada a parentes que esperavam por eles do outro lado do muro. Outros fugiram a nado pelo Spree, o rio que atravessa Berlim, ou por túneis ou escondidos em veículos.

1989, o desmantelamento  

Em maio de 1989, a Hungria decidiu abrir sua fronteira com a Áustria, o que significou a primeira brecha na Cortina de Ferro.

Em 19 de agosto, mais de 600 alemães do leste, de férias na Hungria, aproveitaram a abertura de um posto de fronteira com a Áustria por ocasião de um piquenique pan-europeu para fugir em direção ao Ocidente, o primeiro êxodo em massa do tipo desde 1961.

Os regimes comunistas do leste da Europa começaram a cair e a URSS, então governada por Mikhail Gorbachev, decidiu não intervir. A RDA registrou manifestações sem precedentes.

Em 9 de novembro, um alto funcionário do governo da Alemanha Oriental foi surpreendido ao ser questionado sobre a data de entrada em vigor dos novos direitos de circulação para os alemães do leste. "Que eu saiba, imediatamente", balbuciou diante da imprensa. 

A resposta provocou o deslocamento de milhares de berlineses do leste em direção aos postos de controle, onde os guardas, confusos, terminaram por levantar as barreiras.

Durante a noite, os moradores da cidade, eufóricos, celebraram o acontecimento em cima do muro, que começou a ser destruído. Dois anos depois aconteceu o colapso da URSS. / AFP 

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    O contraste entre leste e oeste 30 anos depois

    Apesar das três décadas de mudanças, a maioria dos alemães considera que ainda há muitas diferenças entre as duas partes do país

    Redação, O Estado de S.Paulo

    06 de novembro de 2019 | 10h34

    BERLIM - Trinta anos após a queda do Muro de Berlim, o contraste entre o leste e o oeste da Alemanha vai se apagando pouco a pouco. 

    Economia: o leste ainda distante

    "A situação no leste é muito melhor do que sua reputação", declarou satisfeito no fim de setembro o governo de Angela Merkel, quando apresentou um relatório anual sobre a unidade alemã. 

    Mesmo assim, o PIB per capita das cinco regiões da antiga RDA só representava 74,7% do oeste da Alemanha em 2018. Desde 2010, essa diferença diminuiu 3,1 pontos, graças a pequenas e médias empresas e ao dinamismo de Berlim, Leipzig e Dresden. A ex-RDA começou longe em 1990, com um setor industrial falido, herdeiro do coletivismo comunista. 

    A melhora não compensa a ausência de grandes empresas como Volkswagen, Siemens e Bayer, cujas sedes estão no lado oeste, onde empregam milhares de pessoas. Nenhuma empresa do Dax, índice dos principais valores da Bolsa de Frankfurt, tem sede no leste.

    Os Estados federados da antiga RDA continuam trabalhando a reboque do oeste em termos de salário médio: em 2018, um funcionário do oeste ganhava em média € 3.339 brutos por mês, enquanto no leste eram € 2.600, segundo a agência federal para o emprego. 

    No leste a produtividade também é menor, cerca de 82% da registrada no oeste.

    Emprego: uma brecha que vai se preenchendo

    Acostumados ao pleno emprego estatal da ex-RDA, os alemães do leste viveram nos anos 1990 e 2000 o "choque" do desemprego, com taxas que superavam 30% em algumas cidades. 

    Mas após ter alcançado o topo em 2005, o desemprego caiu desde então, em parte graças à diminuição demográfica e ao aumento do emprego de meio período - 30,5% no leste contra 27,6% no oeste. 

    Em agosto de 2019, o nível de desemprego era de 4,8% no oeste e 6,4% no leste. As cidades com taxa de desemprego mais alta estão na antiga RDA: Gelsenkirchen (13,8% em abril), Bremerhaven e Duisburg (12%). 

    A ex-RDA se caracteriza, além disso, por uma taxa de emprego feminino um pouco maior que no oeste - 73,9% contra 71,6%.

    Diminuição demográfica preocupante

    Em uma Alemanha globalmente envelhecida, em que a idade média passou de 40 anos em 1990 para 45 anos em 2018, a situação demográfica da antiga RDA continua sendo problemática.

    Desde 1991, a população do leste passou de 14,6 para 12,6 milhões de habitantes, enquanto no oeste (incluindo Berlim), subiu de 65,3 para 69,6 milhões. 

    O dinamismo de cidades como Dresden, Jena e Leipzig não consegue superar o êxodo e o envelhecimento que castigam essas regiões. Os centros das cidades mostram a tristeza de lojas e edifícios à venda. 

    Em algumas localidades, como Suhl (Turíngia) e Frankfurt an der Oder (Brandemburgo), a população caiu mais de 30% em três décadas, o que teve repercussões no serviço público e na infraestrutura. 

    A emigração em massa para o oeste ou para o exterior de jovens adultos no início dos anos 1990 fez com que caísse a taxa de natalidade no leste, o que terá consequências durante várias décadas, segundo especialistas. 

    A acolhida de milhares de refugiados na Alemanha desde 2015 não bastou para inverter essa tendência, principalmente considerando que a maioria deles escolheu ficar no oeste. 

    Reduto da extrema direita no leste

    Criado em 2013, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) conseguiu seus melhores resultados no leste, onde já tinha entre 20% e 30% dos votos, enquanto no oeste conseguiu, em média, cerca de 10%. 

    Em junho, uma frente comum de todos os partidos fez falta para impedir que o AfD conquistasse em Görltiz sua primeira cidade importante. 

    O leste, onde os partidos tradicionais e a antiga esquerda comunista estão em queda, também é um celeiro para o movimento islamofóbico Pegida, que reuniu nos últimos anos milhares de manifestantes em Dresden.

    Essa situação está relacionada, segundo cientistas políticos, ao fato de muitos alemães do leste continuarem nutrindo o sentimento de serem "cidadãos de segunda classe". 

    Assim, 74% considera, de acordo com uma pesquisa recente, que continuam existindo "diferenças muito grandes" entre as duas partes do país. / AFP

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      Alemanha [Europa]Muro de Berlim

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      Veja como era a cidade antes e como está hoje

      As diferenças e os contrastes em pontos emblemáticos da capital alemã, como o Portão de Brandemburgo e o Checkpoint Charlie

      Redação, O Estado de S.Paulo

      06 de novembro de 2019 | 11h29

      Alemanha e Europa celebrem no sábado os 30 anos da queda do Muro de Berlim, um aniversário que coincide com o aumento dos nacionalismos e do sabor de Guerra Fria, sentimentos muito distantes das esperanças nascidas com o final da Cortina de Ferro.

      Veja abaixo como eram e como ficaram alguns pontos da capital alemã após o fim da divisão do país.

       
       
       
       
       
       

       

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        Comer ostras no Ocidente, ir aos EUA e ver Bruce Springsteen: sonhos de Merkel na Alemanha dividida

        No início da noite de 9 de novembro de 1989, ninguém acreditava que o Muro de Berlim realmente iria cair; a hoje chanceler prometeu à mãe que se isso acontecesse, levaria ela para provar a iguaria em Kempinski

        Redação, O Estado de S.Paulo

        07 de novembro de 2019 | 08h43

        BERLIM - Na noite da queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, Angela Merkel, a atual chanceler da Alemanha, estava em uma sauna em Berlim Oriental e sonhava em comer ostras no Ocidente.

        Chefe de governo há 14 anos, ela desfrutava, na ocasião, de uma das atividades prediletas dos alemães no inverno. "Nas quintas-feiras, sempre ia à sauna com uma amiga", contou há alguns anos.

        Na época, Merkel - que nasceu em Hamburgo, mas cresceu na Alemanha Oriental - era física na Academia de Ciências de Berlim Oriental. Com 35 anos e divorciada de seu primeiro marido, Ulrich Merkel, ela morava em um apartamento de dois quartos no bairro de Prenzlauer Berg.

        Antes de comparecer à sauna naquela noite, ela ligou para a mãe, que morava a 80 km de Berlim. Merkel havia acabado de ouvir que os alemães do leste estavam livres para viajar. 

        Ostras em Kempinski

        O Muro de Berlim estava começando a cair, mas nas primeiras horas, ainda muito confusas, ninguém acreditava que isso iria mesmo acontecer. "Realmente não compreendi o que estava acontecendo", admitiu a líder conservadora.

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        Uma brincadeira começou a circular entre a família. Se o Muro caísse um dia, Merkel levaria a mãe para comer ostras no Kempinski, um hotel luxuoso de Berlim Ocidental. 

        Por telefone, ela advertiu a mãe: "Mamãe, tenha cuidado, hoje está acontecendo alguma coisa". Depois de desligar, seguiu para a sauna.

        E enquanto Merkel aproveitava o banho a vapor, a história acontecia. O primeiro ponto de passagem entre a parte leste e oeste do país, próximo ao apartamento da futura chanceler, foi aberto. 

        As pessoas abriam garrafas de bebida para celebrar o fim de um mundo que estava dividido desde o final da 2.ª Guerra.

        ‘De repente estávamos do lado ocidental’

        Ao voltar para casa, Merkel observou as pessoas caminhando em direção ao ponto de passagem. "Nunca vou esquecer. Deviam ser 22h30, 23h00, talvez um pouco mais tarde", disse ela. "Estava sozinha, mas segui a multidão (...) e de repente estávamos do lado ocidental de Berlim.” 

        A então anônima Angela Merkel bebeu sua primeira lata de cerveja da Alemanha Ocidental em um apartamento no qual não conhecia os moradores. Mas naquela noite histórica, ela pensava no despertador que tocaria cedo no dia seguinte e retornou para casa, para não chegar atrasada no trabalho.

        Pouco depois, Merkel abandonou para sempre a física e iniciou a carreira política. Em 1990 foi eleita deputada pela União Democrata Cristã (CDU), então liderada pelo chanceler da Reunificação, Helmut Kohl. Em janeiro de 1991, assumiu o primeiro cargo ministerial.

        Mas ela não conseguiu cumprir o sonho. "Nunca fui comer ostras no Kempinski com minha mãe", disse.

        Sonho de Merkel: ir aos EUA e ver Bruce Springsteen

        Merkel revelou recentemente que seu sonho como cidadã da Alemanha Oriental era visitar as Montanhas Rochosas, nos Estados Unidos, e ver o cantor Bruce Springsteen.

        Para Entender

        Queda do Muro de Berlim: O contraste entre leste e oeste 30 anos depois

        Apesar das três décadas de mudanças, a maioria dos alemães considera que ainda há muitas diferenças entre as duas partes do país

        Se o Muro não tivesse caído há 30 anos e a RDA comemorasse seu 70.º aniversário, “o que seria da senhora?”, perguntou a revista Der Spiegel à chanceler. 

        “Você e eu não teríamos nos encontrado, é claro”, respondeu Merkel, que cresceu na região de Brandemburgo, na antiga RDA. “Afinal, eu ainda poderia ter realizado meu sonho: na RDA, as mulheres se aposentavam aos 60 anos”, contou ela, que tem 65 anos. 

        “Então, há cinco anos, eu pegaria meu passaporte e viajaria para os EUA”, disse Merkel. “Na RDA, os aposentados eram livres para viajar, pois aqueles que não eram mais úteis como trabalhadores socialistas podiam sair do país.”

        Sonho realizado

        Os EUA a atraía? “É claro que eu teria visitado a República Federal da Alemanha. Mas queria fazer minha primeira longa viagem aos EUA por causa de seu tamanho, diversidade e cultura”, explicou Merkel, que teve a oportunidade fazer várias viagens a esse país após a queda do Muro, inclusive com seu marido, um cientista de renome, que trabalhou por um ano em San Diego, na Califórnia.

        “Ver as Montanhas Rochosas, andar de carro e ouvir Bruce Springsteen, era o meu sonho”, afirmou a chanceler.

        O cantor e compositor americano era admirado pela juventude da Alemanha Oriental e foi um dos poucos ocidentais a realizar um show em Berlim Oriental, em 1988. / AFP

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          12 meses de turbulência e mudanças na Alemanha

          Da queda do muro até o ato solene de reunificação, Alemanha passou por muitas mudanças

          Redação, O Estado de S.Paulo

          07 de novembro de 2019 | 09h00

          BERLIM - Da queda do Muro de Berlim, na noite de 9 de novembro de 1989, até o ato solene da reunificação, em 3 de outubro de 1990, a Alemanha viveu 12 meses de turbulência e mudanças:

          Cai o Muro

          Milhares de alemães orientais fogem do país pela Hungria, que os deixa passar livremente, e a República Democrática Alemã (RDA) decide, em 9 de novembro, derrubar o Muro de Berlim e abrir a fronteira entre as duas Alemanhas.

          O SED, Partido Comunista na Alemanha Oriental, liderado por Egon Krenz após a queda de Erich Honecker em 18 de outubro, aceita o princípio de eleições livres.

          Ao assumir o governo da RDA, o comunista reformador Hans Modrow propõe, em discurso em 17 de novembro, diante da Câmara do Povo (Parlamento), uma "comunidade contratual" entre a RDA e a República Federal da Alemanha (RFA). Seu governo de coalizão inclui um terço de não-comunistas.

          O plano de Kohl

          O chanceler da RFA, Helmut Kohl, apresenta em 28 de novembro um plano de reunificação da Alemanha sem especificar as datas.

          No início de dezembro, Krenz renuncia às suas funções de chefe de Estado e de líder do SED. Kohl e Modrow concordam, então, em formar uma "comunidade contratual" alemã, no dia 19 daquele mês, em Dresden.

          Milhares de alemães orientais comemoram e pedem uma unificação pura e simples.

          Negociações '2+4'

          Em 10 de fevereiro de 1990, o então presidente soviético, Mikhail Gorbachev, declara em Moscou que os alemães têm liberdade para decidir seu futuro. Três dias depois, Kohl propõe a Modrow negociar uma união econômica e monetária alemã.

          Em 14 de fevereiro, em Ottawa, os outrora quatro vencedores do nazismo (Estados Unidos, URSS, França e Reino Unido), que desde 1945 controlam a Alemanha, decidem se comprometer com a RFA e a RDA em negociações conhecidas como "2+4" sobre os aspectos externos de uma reunificação.

          Eleições livres

          A RDA organiza, em 18 de março, as primeiras eleições legislativas livres de sua história. Os conservadores favoráveis a uma rápida reunificação ganham com folga.

          O democrata cristão Lothar de Maizière se torna chefe do governo de coalizão em 12 de abril e defende a adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e à CEE (Comunidade Econômica Europeia, antecessora da União Europeia).

          União econômica e monetária

          Um tratado entre os dois Estados, assinado em 18 de maio em Bonn, instaura a partir de 1º de julho uma união econômica, monetária e social entre a RFA e a RDA.

          Nesta data, o marco alemão é introduzido na RDA, substituindo a moeda da Alemanha Oriental. Todos os controles na fronteira entre as duas Alemanhas são abolidos.

          Sinal verde de Gorbachev

          Em 6 de julho, os dois Estados alemães iniciam negociações sobre as condições de sua unificação. Gorbachev dá sinal verde em 16 de julho para uma Alemanha unificada, soberana e livre para se incorporar à Otan.

          A URSS se compromete em retirar seus 380 mil soldados da RDA até 1994, e Kohl concorda em limitar as tropas da Alemanha unificada a 370 mil homens.

          Federalismo no Leste

          Em 22 de julho, o Parlamento da Alemanha Oriental reconstrói uma estrutura federal na RDA para harmonizar os dois estados antes de sua reunificação.

          Em 3 de agosto, RFA e RDA assinam um tratado que estabelece as modalidades das primeiras eleições gerais livres da Alemanha desde 1932, agendadas para 2 de dezembro.

          Dissolução da RDA

          Em 23 de agosto, a Câmara do Povo da Alemanha Oriental estabelece o dia 3 de outubro como data de unificação alemã por meio da dissolução da RDA na RFA.

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          O escavador de túneis que ajudava quem fugia para o Ocidente

          Quando divisão foi criada, guardas tinham ordens de disparar para matar em quem tentasse escapar do leste comunista; conheça a história de Boris Franzke, que sobreviveu graças a um ‘herói’ da polícia política comunista

          Redação, O Estado de S.Paulo

          07 de novembro de 2019 | 11h17

          BERLIM - Quando o Muro de Berlim foi construído, os guardas tinham ordens de disparar para matar naqueles que tentavam escapar do leste comunista. Boris Franzke foi um dos muitos que escavaram túneis para ajudar os fugitivos e sobreviveu graças a um "herói" da polícia política comunista. 

          Aos 80 anos, o berlinense é um dos sobreviventes do início dos anos 1960, quando vigorava a Guerra Fria. "No início a política não me interessava. Não me sentia envolvido pelas tensões entre a União Soviética e o Ocidente", diz Franzke.

          Tudo mudou na noite de 12 de agosto de 1961 quando, para impedir a fuga em massa dos alemães do leste para o oeste - mais de 2,7 milhões entre 1949 e 1961 -, os soviéticos bloquearam os acessos para Berlim Ocidental.

          Em algumas horas, colocaram cercas de arame farpado e logo levantaram o Muro, por um espaço tomado por guardas armados. "Essa famosa noite foi o detonador de tudo", explica.

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          De repente, o jovem de 22 anos não podia ver sua namorada, seus amigos e sua família, que viviam todos em Berlim Oriental. Como nasceu meses antes do início da 2ª Guerra, só conheceu "a destruição e, mais tarde, os difíceis anos posteriores ao conflito e a divisão do país".

          Traições

          "Nos faltava de tudo! Tínhamos sede de liberdade", lembra Franzke. Seu irmão Eduard, cuja mulher e filhos viviam também "do outro lado", propôs a via subterrânea, mas foram traídos na primeira tentativa, e a família que estava no leste foi detida.

          "Estávamos destroçados e nos convencemos de que continuaríamos porque cada pessoa que trouxéssemos para o oeste permitiria debilitar um pouco mais a RDA", conta Franzke, com lágrimas nos olhos.

          Até 1964, os dois irmãos participaram da construção de sete túneis, sendo dois deles bem-sucedidos. Entre 26 e 28 alemães do leste, segundo Franzke, foram beneficiados.

          "À sua maneira, Boris Franzke era um resistente", diz o historiador Sven Felix Kellerhoff. Para ele, "esses homens jovens corajosos (entre os escavadores de túneis não havia mulheres) ofereceram uma ajuda altruísta, com o objetivo de debilitar o regime do partido único da ex-RDA".

          No total foram escavados 75 túneis em 28 anos de existência do Muro. Somente 19 permitiram aos fugitivos (cerca de 400) chegar ao lado oeste, segundo a associação Berlin Unterwelten. O número é modesto em comparação aos 800 que fugiram através dos canos da cidade ou dos 10 mil que usaram documentos falsos.

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          Armadilha

          A lembrança mais impactante para Franzke remonta de 1962, quando os dois irmãos queriam levar para o oeste vários conhecidos de um amigo.

          O local era pouco vigiado. Durante cinco semanas os dois Franzke e dois amigos escavaram noite e dia um túnel de 80 centímetros de diâmetro para sair na superfície 80 metros mais longe, em um jardim onde deveriam estar 13 candidatos à fuga. Mas quando chegaram ao destino, se deram conta de que era uma armadilha.

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          Em vez dos "passageiros" previstos, detidos dias antes, eram esperados por agentes da Stasi, a polícia política. Três dos escavadores escaparam pelo túnel, mas o amigo Harry Seidel, o primeiro a sair, foi detido.

          Condenado à prisão perpétua, esse "inimigo público número 1" do partido único foi "comprado" em 1966 pelo governo da Alemanha Ocidental, uma prática corrente na época.

          Exasperadas por Seidel e os irmãos Franzke, as autoridades da Alemanha Oriental queriam explodir o túnel com 5 quilos de explosivos.

          Sabotagem

          "O dispositivo estava pronto, mas no momento de acender... Nada. O pavio havia sido cortado", conta o sobrevivente.

          O autor da sabotagem teria sido, segundo historiadores, o membro da Stasi Richard Schmeing, que morreu em 1984. "Por mais estranho que pareça, ele é meu herói. Colocou sua vida em perigo para salvar outras quatro", diz Franzke.

          Schmeing foi preso durante o nazismo por fazer parte do partido comunista e foi um sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald. De 1949 a 1968 trabalhou para a Stasi.

          Não se sabe o motivo, se por coragem ou dor na consciência. É provável que a presença de um casal jovem próximo dos explosivos tenha influenciado, diz Kellerhoff.

          "Cerca de 80% dos túneis foram escavados entre a construção do Muro, o verão de 1961, e outubro de 1964, quando um fugitivo matou supostamente com um tiro um guarda de fronteira, explica Marc Boucher, da Berlin Unterwelten. 

          O caso mudou a opinião pública no Ocidente, até então mais favorável a esses métodos de fuga. Não se sabia até a reunificação da Alemanha que esse homem, na realidade, morreu de forma acidental pelas mãos de um de seus camaradas. / AFP

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