Queda do petróleo agrava crise venezuelana

Barril mais barato faz governo cogitar demedidas impopulares para evitar colapso

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2014 | 02h02

A queda no preço mundial do petróleo tornou-se uma ameaça para a combalida economia venezuelana. A cesta da commodity produzida no país, que em janeiro estava cotada a US$ 95,07, era vendida na sexta-feira no mercado internacional a US$ 72,80, uma queda de 23,42%. Estima-se que para fechar as contas públicas no azul, o governo do presidente Nicolás Maduro precisaria do barril a US$ 121, quase o dobro do valor atual.

A desvalorização tem duas razões principais, segundo economistas. A primeira é o aumento da oferta de energia no mercado mundial, provocado principalmente pela exploração do gás de xisto pelo método do fracking nos EUA. A segunda é uma redução da demanda, com uma desaceleração econômica na União Europeia e na China.

Em uma ação paralela, para diminuir a concorrência americana, os países do Golfo, liderados pela Arábia Saudita, decidiram aumentar a produção e baixar o preço do barril da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em uma tentativa de tornar o gás natural americano menos rentável e, portanto, inviável economicamente.

"Essas condições criaram uma tempestade perfeita para a queda no preço do petróleo", diz o analista sênior de mercado da consultoria Price Futures Group, Phil Flynn.

"Os sauditas estão tentando repetir o que a Opep fez nos anos 80 e baixar o preço para eliminar a competitividade dos rivais de fora do cartel. No entanto, essa é uma aposta grande, que nem todos os membros do grupo estão dispostos a pagar."

Segundo o analista, com economias mais estáveis e ricos fundos soberanos, os países do Golfo têm uma vantagem maior em relação a Venezuela, Equador e Argélia - que dependem dessas receitas para fechar as contas - para aguentar uma queda prolongada no preço do petróleo.

Desde 2013, os venezuelanos têm enfrentado uma crise de escassez e inflação provocada pela falta de dólares causada por uma queda na produção petroleira e pelo aumento dos gastos do governo. Em poucos meses, o país - que tem na venda do petróleo 96% de sua receita de moeda forte -, viu seu fluxo de caixa esvaziar ainda mais.

"O modelo do socialismo do século 21 tinha como base os altos preços do petróleo, que duraram por um tempo recorde. Com a baixa dos preços e a crise de escassez, não sobrará muito espaço para os ajustes que precisam ser feitos", afirma o ex-diretor da PDVSA, Jose Toro Hardy, crítico ao chavismo.

O déficit fiscal, que em 2012 era equivalente a 5,09% do PIB, deve encerrar 2014 perto dos 15%. A inflação saltou de 20,1% no último ano do governo do presidente Hugo Chávez para, segundo estimativa do FMI, 60% até o fim deste ano.

Refinaria. Para mitigar os efeitos da crise de escassez e da baixa do petróleo, o governo optou por fazer caixa. Apesar de diversas negativas dos ministros venezuelanos, a Reuters e o Wall Street Journal informaram, na semana passada, que a PDVSA prepara a venda da refinaria Citgo, um dos principais ativos da companhia, avaliada em US$ 10 bilhões. Fontes ouvidas pela agência, no entanto, dizem que o negócio pode sair por um terço do valor.

Outra saída estudada pelo governo bolivariano é aumentar o preço da gasolina. A medida, altamente impopular e historicamente traumática no país, poderia, na avaliação de Luis Vicente León, um dos principais analistas políticos do país e presidente do Instituo Datanalisis, equivaler a um acréscimo de US$ 10 no preço do barril de petróleo por dia. "É absurdo manter o preço da gasolina nos níveis atuais. O país joga no lixo o equivalente a US$ 10 por barril", avalia León.

O refinanciamento da dívida e o aumento da massa monetária também são medidas adotadas recentemente, porém, vistas com ressalvas por analistas. A taxa de risco da dívida venezuelana já chega a 19% e o volume de dinheiro no mercado duplicou no último ano. "O governo simplesmente passou a imprimir dinheiro sem lastro para cobrir o rombo", diz Toro Hardy.

No horizonte, a consolidação da independência energética americana com a exploração do fracking e os acordos de crédito em troca de petróleo com a China também dificultam a saúde da indústria petroleira venezuelana, que necessita de investimentos para aumentar a produção. "É muito triste que a indústria do petróleo na Venezuela tenha perdido a oportunidade para reinvestir e crescer", avalia Flynn.

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