Queda do petróleo traz riscos geopolíticos

Alguns dos maiores países produtores, como Iraque e Venezuela, enfrentam a pior situação financeira em décadas

FAREED ZAKARIA , THE WASHINGTON POST

24 de agosto de 2015 | 05h00

Enquanto vigiamos o Estado Islâmico e discutimos a situação do Irã, algo muito mais importante vem ocorrendo no mundo. Presenciamos uma queda histórica dos preços do petróleo que chegou a 50% em menos de um ano. Quando desvalorização similar ocorreu nos anos 80, a União Soviética desmoronou. O que isso significará desta vez?

Nick Butler, ex-diretor de estratégias da British Petroleum, diz que “estamos preparados para um período mais longo e mais persistente de preços inferiores aos registrados na década de 80”. Por quê? Segundo ele, vivemos o que pode ser chamado de “tempestade perfeita”.

A oferta aumentou substancialmente, porque os preços altos do produto durante uma década impeliram os produtores de todo o mundo a investir enormes recursos na descoberta de novas fontes. Esses investimentos foram sendo feitos e manterão a oferta fluindo por anos.

Segundo Leonardo Maugeri, que chefiou a área estratégica da ENI, gigante italiana do setor energético, “não existe nenhuma maneira de conter esse fenômeno”. Ele prevê que os preços podem, na verdade, cair para US$ 35 o barril no próximo ano - no ano passado, chegaram a US$ 105.

Uma razão fundamental para a aceleração dessa queda é que a Arábia Saudita, país produtor que influi decisivamente no mercado e pode mais facilmente diminuir ou aumentar a produção, decidiu continuar produzindo. “Os sauditas sabem que essa decisão os prejudica, mas esperam, assim, prejudicar todos os demais”, diz Maugeri, hoje em Harvard.

Um dos principais objetivos dos sauditas é tornar inoperantes os produtores americanos de petróleo de xisto betuminoso. Até agora, não funcionou. Embora enfrentando dificuldades por causa da queda vertiginosa dos preços, as empresas americanas vêm recorrendo a tecnologias e práticas comerciais inteligentes para continuar em atividade. O iminente retorno do petróleo iraniano que os mercados imaginam que ocorrerá, mas lentamente, é um outro fator empurrando os preços para baixo. Como também a crescente eficiência energética de carros e caminhões. Os maiores produtores de petróleo enfrentam problemas financeiros jamais vistos em décadas, talvez nunca. Façamos um rápido giro por esse mundo.

Venezuela. A popularidade de Hugo Chávez, o seu “socialismo do século 21” e a péssima administração da economia do país foram possíveis por causa de um prolongado boom do petróleo. Seu sucessor, Nicolás Maduro, herdou uma nação falida, sem capacidade de pagar os juros da dívida.

O petróleo constitui 96% das exportações da Venezuela. A economia deve encolher 7% este ano, tendo já registrado uma contração de 4% no ano passado. Uma das razões pelas quais Cuba vem retomando seus laços com os Estados Unidos é porque sabe que seu padrinho em Caracas se defronta com sérios problemas financeiros.

Rússia. Assim como ocorreu com Chávez, a popularidade de Vladimir Putin coincidiu perfeitamente com o exorbitante aumento dos preços do petróleo, o que significou um PIB mais alto, receitas maiores do governo e, portanto, subsídios para a população. Tudo isso foi revertido. A projeção para a economia russa este ano é de uma contração de 3,4%. Os resultados das vendas de petróleo e gás representam metade da receita do governo. E os ganhos da Gazprom, a maior empresa de gás do país, devem cair quase 30% este ano. “Lembre-se, a Gazprom é a máquina que financia a camarilha de Putin, que governa o país”, afirmou Butler, que hoje está no King’s College de Londres.

Iraque. O petróleo representa 90% das receitas do governo de Bagdá e, não obstante o fato de o país estar produzindo o máximo possível, os recursos financeiros à disposição sofreram uma forte queda. Essa é a situação que explica a fragilidade do governo e também o intenso conflito sectário que abriu caminho para o Estado Islâmico. Com recursos limitados, o governo xiita em Bagdá vê-se pressionado a pagar pela fidelidade dos sunitas. E, em seguida, desenha-se um grande confronto entre os curdos e o governo central sobre a divisão das receitas do petróleo.

Irã. Apesar dos ganhos inesperados decorrentes da suspensão das sanções internacionais, o Irã, como muitos países produtores de petróleo, é um Estado disfuncional. Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional, é necessário que o preço do petróleo chegue a US$ 100 por barril para o Irã conseguir equilibrar seu orçamento. A médio prazo, os iranianos se verão pressionados como os demais.

Muitos especialistas e comentaristas americanos esperavam que os preços baixos do petróleo fossem uma maneira de privar regimes corruptos em todo o globo do dinheiro fácil. É o que vem ocorrendo, mas a uma tal velocidade que poderá provocar enormes agitações e incertezas num mundo já bastante tenso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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