Mauricio Lima/The New York Times
Mauricio Lima/The New York Times

Queda no fluxo de imigrantes na Europa é visível

Grande redução de chegadas não impede líderes de partidos de extrema direita de denunciar uma ‘invasão’

THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2018 | 05h00

Milhares de migrantes chegavam a cada dia às praias da Grécia. Aos portos da Itália, eram milhares por semana. Pelas fronteiras da Alemanha, Áustria e Hungria, mensalmente passavam milhares. Isso foi em 2015. 

Três anos após o auge da crise migratória, as praias gregas estão comparativamente calmas. Desde o último agosto, os portos da Sicília têm estado meio vazios.

E, na remota Ilha de Lampedusa – o ponto mais meridional da Itália, antes a linha de frente da crise –, o centro de detenção de migrantes está silencioso há muito tempo. “Está mais quieto que nunca desde 2011”, disse o prefeito da ilha, Salvatore Martello. 

É o paradoxo da crise migratória da Europa: o número atual de migrantes voltou a níveis pré-2015, mesmo com as políticas de migração que agitam o continente. 

A acentuada queda na chegada de migrantes não significa que a Europa não enfrente desafios reais. Os países ainda lutam para absorver 1,8 milhão de migrantes que chegaram desde 2014. A ansiedade da população aumentou em países como a Alemanha, com a ocorrência de ataques mortíferos envolvendo migrantes, entre eles o assassinato de uma estudante alemã de 19 anos e o ataque terrorista a uma feira natalina que deixou 12 mortos.

É chocante que muitos líderes europeus, particularmente os pertencentes a partidos de extrema direita, continuem a criar, com sucesso, a impressão de que a Europa é um continente sitiado por migrantes, mesmo com os números mostrando um quadro muito diferente.

“Falhamos na defesa contra a invasão migrante”, disse num discurso recente o primeiro-ministro húngaro de extrema direita, Viktor Orban. Húngaros que ajudem migrantes não autorizados estão sujeitos a prisão.

Orban não está sozinho nessa linha. Desde o início do mês, Matteo Salvini, ministro do Interior da Itália, fechou os portos italianos para barcos de resgate fretados por organizações humanitárias. Horst Seehofer, ministro do Interior da Alemanha, ameaçou mandar de volta refugiados que cheguem à fronteira sul de seu país. E, do outro lado do Atlântico, o presidente Donald Trump afirmou, erroneamente, que a migração está provocando uma onda de crimes na Alemanha.

Mais de 850 mil pessoas em busca de refúgio chegaram à Grécia em 2015, a maioria delas tentando seguir para países do norte da Europa, como a Alemanha. Neste ano, até agora 13 mil fizeram a mesma jornada. Mais de 150 mil chegaram à Itália em 2015. Neste ano, até agora foram menos de 17 mil. Em 2016, quando o número de pedidos de asilo chegou ao auge, mais de 62 mil por mês, em média, tentaram se asilar na Alemanha. Neste ano, a média mensal caiu para pouco mais de 15 mil – a mais baixa desde 2013. 

Ao mesmo tempo, vários governos europeus fizeram acordos de deportação com o Sudão, cujo líder, Omar al-Bashir, é acusado de crimes de guerra. Um acordo com o Níger ajudou a interromper uma rota de contrabando humano através do Saara. E, numa controvérsia ainda maior, os governos da Alemanha e da Holanda intermediaram um acordo da União Europeia em 2016 com o governo autoritário da Turquia, que levou a uma drástica queda na migração para a Grécia. 

 Autoridades europeias tentam resolver a situação de cerca de 30 mil pessoas nos precários campos de migrantes da Grécia, ou dos 500 mil migrantes não autorizados que são explorados pela economia marginal na Itália. 

No momento, os maiores desafios para a Europa decorrem principalmente de processos judiciais. Como abrigar solicitantes de asilo que aguardam decisão de seus casos, integrá-los à economia e à sociedade se suas solicitações forem aprovadas, e como deportá-los se os pedidos forem rejeitados. 

 

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