Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Quem é  Aung San Suu Kyi, a matriarca da democracia em Mianmar

Perseguida pela junta militar que governou o país por anos, a prêmio Nobel da Paz em 1991 chegou ao poder nos anos 2000, mas teve imagem manchada por não conter repressão à minoria muçulmana nos últimos anos

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2021 | 09h00
Atualizado 01 de fevereiro de 2021 | 17h59

A ativista Aung San Suu Kyi, de 76 anos, passou quase 21 anos sob alguma forma de detenção, em consequência de sua campanha de décadas para restaurar a democracia em Mianmar, país governado por cerca de 50 anos por juntas militares.

Em 1991, um ano depois de seu partido, a Liga Nacional pela Democracia (LND), ter obtido uma vitória esmagadora nas urnas, em uma eleição anulada pela junta, ela foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz.

Por causa da pressão internacional, em 2008 os militares aceitaram uma nova Constituição que limitava o poder junta e criava o que eles chamaram de “democracia disciplinada”: um regime civil, mas com forte presença militar, com reserva de 25% das cadeiras legislativas para a junta militar.

San Suu Kyi foi impedida de participar das primeiras eleições de Mianmar em duas décadas, realizadas em novembro de 2010, mas virou um símbolo de esperança para muitos em Mianmar.

Em novembro de 2010, ela foi libertada da prisão domiciliar após 15 anos, e liderou seu partido em uma vitória esmagadora nas urnas em 2015, quando a junta militar que governa o país permitiu eleições livres, mas manteve sua presença no governo.

Sua luta pela democracia em Mianmar a transformou em um ícone internacional, mas sua projeção global foi prejudicada depois que centenas de milhares de muçulmanos da minoria rohingya fugiram, em 2017, e denunciaram operações do Exército.

Desde 2017, cerca de 740 mil rohingyas fugiram dos abusos cometidos pelo Exército birmanês para Bangladesh, onde vivem precariamente em enormes acampamentos para refugiados. A crise levou Mianmar a ser acusada de genocídio perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ), o órgão judicial mais importante da ONU.

Quem é Aung San Suu Kyi

Aung San Suu Kyi é filha do herói da independência do país, general Aung San. Ele foi assassinado durante o período de transição, em julho de 1947, seis meses após a independência.

Aung San Suu Kyi tinha apenas 2 anos à época. Em 1960, ela foi para a Índia com sua mãe, Daw Khin Kyi, que havia sido nomeada embaixadora em Nova Délhi.

Quatro anos depois, foi cursar a Universidade de Oxford, no Reino Unido, onde estudou filosofia, política e economia. Lá, conheceu seu futuro marido, o acadêmico Michael Aris.

Após períodos vivendo e trabalhando no Japão e no Butão, passou a viver na Inglaterra, onde criou seus dois filhos, Alexander e Kim.

Mas Mianmar nunca esteve longe de seus planos. Quando ela voltou a Yangun, em 1988 - para cuidar da mãe doente - Mianmar passava por um período político turbulento.

Milhares de estudantes, trabalhadores e monges saíam às ruas para pedir reformas democráticas. "Eu não poderia, como filha de meu pai, ficar indiferente a tudo que acontecia", disse ela, em discurso em Yangun no dia 26 de agosto de 1988.

Suu Kyi foi rapidamente alçada à categoria de líder de uma revolta contra o então ditador general Ne Win.

Inspirada pelas campanhas dos líderes de defesa dos direitos civis Martin Luther King, nos EUA, e Mahatma Gandhi, na Índia, ela organizou comícios e viajou pelo país, pedindo reforma democrática pacífica e eleições livres.

Mas as manifestações foram brutalmente reprimidas pelo Exército, que tomou o poder em um golpe no dia 18 de setembro de 1988. O governo militar convocou eleições nacionais em maio de 1990.

O LND, partido de Aung San Suu Kyi, venceu o pleito, apesar do fato de ela estar sob prisão domiciliar, e ter sido impedida de participar da votação.

Prisão domiciliar

Suu Kyi permaneceu sob prisão domiciliar em Yangun por seis anos, até ser libertada em julho de 1995.

Ela foi posta sob prisão domiciliar novamente em setembro de 2000, quando tentou viajar para a cidade de Mandalay, desafiando restrições a viagens impostas a ela pela junta.

Foi libertada incondicionalmente em maio de 2002, mas após um ano, foi novamente detida, após um choque entre seus partidários e uma multidão apoiada pelo governo.

Ela obteve permissão para voltar para casa - mas foi posta, novamente, sob prisão domiciliar, onde permanecia desde então.

Durante períodos de confinamento, Suu Kyi revelou ocupar seu tempo estudando e se exercitando. Ela pratica meditação, estuda francês e japonês, e relaxa tocando Bach ao piano.

Nos últimos anos de sua prisão, graças ao apelo internacional, Kyi conseguiu encontrar outros integrantes da LND e diplomatas aprovados pelo governo.

Mas nos seus primeiros anos de detenção, ela esteve quase sempre submetida a um confinamento solitário. Não tinha permissão para ver seus dois filhos ou seu marido, que morreu de câncer em março de 1999.

As autoridades militares do país permitiram que ela viajasse para o Reino Unido quando ele estava gravemente doente, mas ela se sentiu obrigada a recusar a oferta, porque temia não obter autorização para voltar ao país. Até ser libertada, em 2010, ela nunca havia conhecido seus netos.

Em 2015, com a vitória de seu partido nas eleições gerais, ela se tornou a figura mais poderosa do governo, ocupando os cargos de 1ª Conselheira de Estado e chanceler, mas não exerce controle sobre o comando militar.

Polêmica com os Rohingya

Apesar de reconhecida internacionalmente por sua luta pela democracia em Mianmar, sendo agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 1991, San Suu Kyi enfrentou polêmicas nos últimos anos pela perseguição promovida, durante seu governo, à minoria muçulmana rohingya.

Mais de 740 mil rohingyas fugiram do país, desde 2017, em direção a Bangladesh para escapar de abusos cometidos pelo Exército de Mianmar e de milícias budistas no estado de Rakhine. A perseguição foi comandada diretamente pelo general Min Aung Hlaing, principal líder do golpe militar desta segunda-feira, 1º.

A perseguição aos rohingya foi descrita pelas Nações Unidas como uma "limpeza étnica", mas, em 2019, quando esteve na Corte Internacional de Justiça (CIJ), a líder de Mianmar negou qualquer "tentativa de genocídio" durante os excessos cometidos contra a minoria muçulmana.

À época, San Suu Kyi admitiu aos juízes do tribunal com sede em Haia que o Exército podia ter feito um "uso desproporcional da força", mas afirmou que isso não é prova de que tentava aniquilar o grupo.

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