Yuri KADOBNOV / AFP - arquivo
Yuri KADOBNOV / AFP - arquivo

Quem é Dmitri Muratov, ganhador do Nobel da Paz com Maria Ressa

O jornalista é um dos fundadores do Novaya Gazeta, jornal de maior influência da Rússia para assuntos sociais e políticos

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 08h28

Durante o mandato do presidente Vladimir Putin, seis repórteres do Novaya Gazeta, jornal que Dmitri Muratov co-fundou em 1993, foram mortos por seu trabalho. A mais proeminente foi Anna Politkovskaya, uma jornalista investigativa que foi baleada e morta em 7 de outubro de 2006.

Nesta sexta-feira, 8, ao lado da também jornalista Maria Ressa, das Filipinas, Muratov recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2021 pela "contribuição essencial de ambos para a liberdade de expressão e pelo jornalismo em seus países".

Politkovskaya, uma crítica feroz de Putin e suas políticas na guerra da Chechênia, foi baleada no elevador de seu prédio em Moscou. Um tribunal condenou vários homens pela execução, mas as autoridades deixaram sem resposta a questão de quem foi o mandante. 

Putin, falando logo após a morte da jornalista, negou qualquer papel no crime e disse que “a morte de Politkovskaya havia criado um problema maior para a Rússia por causa das críticas internacionais do que sua vida e trabalho como jornalista investigativa”.

Fundado em 1993, o Novaya Gazeta se tornou o jornal independente de maior influência da Rússia para assuntos sociais e políticos. 

O jornal tem três proprietários principais: o último líder soviético Mikhail Gorbachev, que usou os recursos de seu Prêmio Nobel da Paz para financiar o empreendimento; Aleksandr Lebedev, um ex-agente da KGB que virou banqueiro e crítico do surgimento de um novo estado policial: e a equipe do jornal, representada por Muratov, que possui ações da empresa.

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Em um dos primeiros assassinatos, o repórter investigativo e membro do Parlamento, Yuri Shchekochikhin, morreu de uma doença misteriosa que fez com que a epiderme se desprendesse, em um raro sintoma causado por alergias a medicamentos. O jornal Novaya Gazeta concluiu em sua própria investigação que foi envenenamento.

Shchekochikhin adoeceu dias antes de planejar uma viagem aos Estados Unidos para compartilhar informações com as autoridades americanas sobre a suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro em uma importadora de móveis, a Three Whales, ligada ao Federal Security Service, a agência sucessora do KGB. O jornalista tocava em um ponto delicado das relações entre o serviço secreto russo, o governo e empresários. Os resultados de sua autópsia permanecem confidenciais.

Em 2009, nacionalistas russos mataram a tiros outra jornalista do jornal, Anastasia Boburova, em uma calçada da capital junto com um advogado de direitos humanos.

Em outro assassinato em 2009, a ativista de direitos humanos Natalia Estemirova foi sequestrada na capital chechena, Grozny, e posteriormente morta. Estemirova cooperou com a Novaya Gazeta na catalogação de assassinatos, tortura e sequestros na Chechênia e os vinculou ao líder da região, Ramzan Kadyrov, apoiado por Putin. 

Estemirova continuou este trabalho mesmo após a morte de Politkovskaya em 2006, com quem ela havia iniciado sua colaboração com o jornal Novaya Gazeta.

Nos últimos anos, o jornal ficou sob pressão após publicar uma investigação ligando o diretor da companhia petrolífera estatal Rosneft e um antigo aliado de Putin, Igor Sechin, a um iate de US$ 180 milhões chamado “St. Olga”, provavelmente em homenagem à nova esposa de Sechin, Olga Sechina. Também nos últimos anos, os repórteres do jornal divulgaram histórias investigando as mortes de soldados russos no leste da Ucrânia.

Seu principal repórter de guerra, Pavel Kanygin, foi sequestrado e espancado por separatistas, mas mesmo assim voltou para reportar no local sobre a investigação do jornal sobre o avião civil abatido sobre a Ucrânia em 2014.

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