PTI / Reuters
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Quem é Imran Khan, o mito paquistanês que declarou vitória na eleição

O jogador de críquete considerado herói nacional diz ter vencido eleição, mas governo denuncia fraude

O Estado de S.Paulo

26 Julho 2018 | 20h23

ISLAMABAD - Imran Khan é mais que uma celebridade no Paquistão – é um mito. Um dos oito melhores jogadores de críquete da história, multimilionário, voltou ao Paquistão depois de vencer tudo e de viver como bon vivant por 20 anos na Inglaterra. Virou filantropo, criou um partido político “para acabar com a corrupção no país” e disputou eleições nos últimos 22 anos para tentar governar o Paquistão. 

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Aparentemente, conseguiu. Nesta quinta-feira, 26, Imran Khan reivindicou a vitória de seu partido nas eleições legislativas. Falta combinar com a justiça eleitoral e com a oposição. A contagem de votos seguia com um grande atraso na quinta-feira, 26: cerca de 20 horas depois de encerrada a votação haviam sido apurados menos da metade dos votos. O partido governista, Liga Muçulmana do Paquistão (PML-N), rejeitou os resultados e diz que a votação foi “manipulada”. Mesmo assim, milhares foram as ruas comemorar a “vitoria” de Khan.

O mito de Imran Khan começou a ser construído em 1992, quando Khan conduziu a seleção paquistanesa de críquete ao único título de campeã mundial de sua história, em uma vitória incontestável sobre a Inglaterra. Ele havia se aposentado, mas voltou apenas para levar a ex-colônia à vitória sobre a ex-metrópole. O título causou um tsunami nacionalista que envaideceu ainda mais Khan. 

Nascido em 25 de novembro de 1952, Imran Ahmad Khan Niazi é um pashtun de Lahore, no Punjab, e a sua família fazia parte da elite educada e altamente anglicizada. Aos 20 anos foi estudar na Inglaterra e jogou pela equipe da universidade de Oxford até se formar, com honras, em Filosofia, Política e Economia, em 1975. Passou os 17 anos seguintes jogando e morando na Inglaterra. 

Virou celebridade. Acostumado à vida boêmia, flanava pelos clubes noturnos de Londres sempre acompanhado de belas mulheres e de outras celebridades. Em 1995 casou-se com Jemina Marcelle Goldsmith, filha de um  financista multimilionário e de uma lady britânica.

No ano seguinte, Khan decidiu voltar para o Paquistão e fundar seu próprio partido, o Movimento para a Justiça (PTI, na sigla original). Seu objetivo era travar uma guerra feroz à corrupção, uma doença endêmica no Paquistão, e instituir um verdadeiro Estado social muçulmano.

Muitos analistas políticos afirmam que a religião e o nacionalismo tiveram papel preponderante na decisão de Khan de se envolver com a política. "O intenso nacionalismo de Imran Khan surgiu nos campos, no final dos anos 70, quando os jogadores de pele escura do antigo império britânico começaram a derrotar regularmente as equipas de brancos", escreveu Pankaj Mishra, que é o autor do livro From the Ruins of Empire: the intellectuals who remade Asia.

Em sua autobiografia, Pakistan: a personal history, Khan fala muito de religião, ligando a crise de valores à decadência do Paquistão. "Em Lahore e Carachi, as mulheres abastadas são levadas a festas por homens com costumes diferentes dos e usam roupas ocidentais", disse Khan. Aos críticos que o chamam de hipócrita, Khan responde que fez um regresso ao que interessa - à terra pobre onde nasceu. Com fortuna estimada em US$ 360 milhões (R$ 960 milhões), se tornou um filantropo (fundou uma universidade e um hospital) e entrou para a política para “revolucionar o país”, numa cruzada contra a corrupção e com o sonho de negociar com os taliban com as tribos mais radicais para fazer “ressurgir a política tradicional”.

Muitos não duvidam de suas intenções, mas desconfiam de seus métodos. As doses de populismo, a religiosidade exacerbada e o conservadorismo latente não seriam bons indícios de pendores republicanos. O escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie o chama de “Taliban Khan” e “ditador em formação”. A resposta aos críticos tende a ser sempre a mesma. “Sou acusado pelos liberais de ser um extremista. E sou acusado pelos extremistas de ser marionete dos americanos. Deve ser um bom sinal”, afirmou em recente entrevista ao Daily Mail.

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