Ivan Alvarado/Reuters
Ivan Alvarado/Reuters

Quem é José Antonio Kast, o 'Bolsonaro chileno', favorito na eleição do Chile

Filho de um ex-oficial do Exército nazista, Kast é fã do presidente brasileiro, promete acabar com o Instituto Nacional de Direitos Humanos do Chile, 'que só protege manifestantes', e retirar o país da ONU

Rafael Carneiro / Especial para o Estadão, de Santiago, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00
Atualizado 24 de novembro de 2021 | 08h29

SANTIAGO - “As autoridades políticas não têm sido capazes de manter a ordem pública e os dirigentes políticos de esquerda relativizam sistematicamente a violência (...) Se nós não mudarmos os rumos das coisas, vamos direto para o precipício e para o subdesenvolvimento”. Esse trecho faz parte de uma das peças publicitárias de José Antonio Kast (Partido Republicano), líder na disputa presidencial do Chile. Caso a sua vantagem nas pesquisas seja confirmada neste domingo, o país terá um candidato de extrema direita no segundo turno pela primeira vez.

Advogado e filho de um ex-oficial do exército nazista que imigrou para o Chile, José Antonio Kast foi deputado federal por quatro mandatos seguidos. Esta é a segunda tentativa dele de chegar à presidência da República.

Com o slogan “se atreva”, um dos itens do seu programa é a recuperação da paz social. Nele, duas propostas chamam a atenção: uma delas é eliminar o atual INDH (Instituto Nacional de Direitos Humanos), pois este não estaria cumprindo com as suas finalidades.

Ele argumenta que, após o início dos protestos massivos em 2019, o INDH tem protegido apenas os manifestantes vítimas de violência e não tem dado proteção à polícia, também violentada. A outra é retirar o Chile da ONU (Organização das Nações Unidas), já que países com regimes autoritários como Nicarágua, Venezuela e Coreia do Norte fazem parte da organização. Ele não cita nações como Bielorrússia e Hungria, que possuem governos antidemocráticos de direita.

Kast começou a crescer nas pesquisas eleitorais no início de outubro. Antes em terceiro lugar, deixou para trás Sebastián Sichel (Chile Vamos), candidato da situação, e ultrapassou Gabriel Boric (Frente Ampla), até então o favorito, há cerca de um mês.

Em entrevista para uma rádio, Roberto Izikson, gerente de Assuntos Públicos do instituto de pesquisas Cadem, afirmou que o perfil do eleitorado de Kast é composto principalmente de pessoas mais velhas, com poder aquisitivo maior e que votaram pela rejeição à nova Constituição no plebiscito ocorrido no ano passado. Segundo ele, também se nota um aumento de apoiadores nas classes D e E.

“A razão para o crescimento de Kast é o seu discurso voltado a uma ação mais enérgica por parte das forças de segurança. Ele se sobrepõe ao seu discurso de ódio também presente em suas falas homofóbicas, sexistas, xenófobas...”, afirma a cientista política Danae Mlynarz.

Em relação à imigração, por exemplo, o candidato pretende construir uma vala em pontos da fronteira do Chile com Peru e Bolívia. Vale ressaltar que o combate à imigração ilegal tem sido um dos grandes desafios da gestão atual de Sebastián Piñera.

Para o cientista político da Universidade Diego Portales, Cristóbal Rovira, Kast consegue mobilizar vários setores do seu eleitorado porque trabalha com “diferentes agendas”, algo característico da direita populista radical.

Um desses setores é a “família militar”, da qual fazem parte aquelas pessoas que ou estiveram vinculadas ao regime militar de Augusto Pinochet, ou têm saudades de um combate mais rígido, principalmente em relação à delinquência. “Ele nunca criticou completamente a ditadura e coloca em dúvida se o julgamento feito contra os militares foi justo”, comenta.

“Kast também se conecta muito bem com um segmento da população, muitas vezes ligado à religião, que não é a favor de uma agenda progressista no que diz respeito aos costumes, sendo contra o casamento de pessoas do mesmo sexo e o aborto em qualquer circunstância.

Ele propõe transformar o Ministério da Mulher e da Igualdade de Gênero em Ministério da Família. Simultaneamente, o candidato defende uma agenda mais dura de livre mercado”. Ainda segundo o cientista político, esses três grupos não necessariamente se conectam entre si, mas no fim acabam apoiando o candidato.

Bolsonaro chileno

Uma camisa da seleção chilena de futebol e uma cópia do livro “El Ladrillo”, que aborda as mudanças econômicas realizadas pelos chamados “Chicago Boys” durante os anos de ditadura militar do Chile, de presente, e o desejo de sucesso nas eleições presidenciais brasileiras daquele ano. Esse foi o clima amistoso que marcou o encontro entre José Antonio Kast e Jair Bolsonaro em 2018, quando o ex-deputado chileno esteve no Rio de Janeiro.

“Que a gente siga fortalecendo a relação entre os dois países e juntos possamos construir uma aliança que derrote definitivamente a esquerda na América Latina”, disse Kast na ocasião por meio da sua conta no Twitter. Hoje candidato à presidência do seu país, ele é chamado pela imprensa e por analistas de “Bolsonaro chileno” devido às semelhanças ideológicas com o atual presidente do Brasil.

Admirador do brasileiro, nas últimas semanas Kast tem tentado descolar a sua imagem de Bolsonaro como estratégia para angariar mais votos. Durante um debate no final de setembro, Sebastián Sichel questionou o candidato do Partido Republicano sobre o seu apoio a Bolsonaro. Kast respondeu que não apoia completamente o mandatário brasileiro. “Ele fez coisas importantes como diminuir a criminalidade e a corrupção no Brasil e isso eu apoio”, assegurou.

 

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