RONALDO SCHEMIDT / AFP
RONALDO SCHEMIDT / AFP

Quem é Arce, candidato de Evo apontado como vencedor da eleição na Bolívia

Ex-ministro de Evo Morales teve pouco mais de 50% dos votos, indicam pesquisas de boca de urna; resultado oficial sai nos próximos dias

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 09h47
Atualizado 19 de outubro de 2020 | 20h09

LA PAZ - O economista de esquerda Luis Arce, que surpreendeu ao conquistar a presidência da Bolívia no primeiro turno no domingo, de acordo com as projeções de institutos privados, se beneficiou do capital político construído durante décadas pelo ex-presidente Evo Morales. 

Sua vitória no primeiro turno, não antecipada pelas pesquisas, abre caminho para Evo voltar à Bolívia do exílio na Argentina e favorecerá a legitimação política do líder do Movimento Ao Socialismo (MAS) 11 meses após sua renúncia em meio à convulsão social. 

Para ser eleito no primeiro turno no país, é preciso que o candidato obtenha 50% dos votos ou que alcance 40%, com 10% de diferença para o segundo colocado. O resultado oficial deve ser divulgado nos próximos dias. A contagem de votos pode ser acompanhada no site do Supremo Tribunal Eleitoral boliviano.

"O MAS ganhou as eleições amplamente, incluindo a Câmara de Senadores e Deputados. A Bolívia tem Arce como presidente", disse Evo em Buenos Aires. "Lucho (apelido do candidato do MAS) será nosso presidente, ele vai devolver à nossa pátria o caminho do crescimento econômico", acrescentou. 

Arce liderou as eleições erguendo a bandeira do boom econômico do governo Evo (2006-2019), quando era ministro das Finanças. Economista de 57 anos, estudou na Universidad Mayor de San Andrés, em La Paz, e fez mestrado na Universidade Britânica de Warwick.

Trabalhou 18 anos no Banco Central, onde ocupou diversos cargos, e foi ministro da Economia e Finanças durante a maior parte do mandato de Evo, com um hiato de 18 meses. Tem um perfil mais de tecnocrata do que político. 

No governo Evo, a Bolívia aumentou seu Produto Interno Bruto (PIB) de US$  9,5 bilhões para US$ 40,8 bilhões e reduziu a pobreza de 60% para 37%, de acordo com dados oficiais. A bonança possibilitou o pagamento de auxílios a milhares de gestantes, estudantes e idosos, e investimentos milionários para tentar industrializar a exploração do lítio e do gás natural. 

"Tomamos as decisões apropriadas que levaram nosso país a liderar vários indicadores econômicos e sociais na região", disse Arce após ser designado candidato do MAS. Em campanha durante o governo de transição de Jeanine Áñez, da direita, Arce afirmou que "a economia não é um jogo", apresentando-se como um conhecedor da economia boliviana. 

Pai de três filhos, Arce nasceu em 28 de setembro de 1963 em La Paz em uma família de classe média. Seus pais eram professores. Sua origem e formação são diferentes das de Evo, que nasceu em uma família de modestos camponeses e pastores de lhamas, trabalhou durante toda a infância e por isso foi à escola por um curto período e tem como língua materna o aimará. 

Caixa do desperdício

Arce sempre liderou as pesquisas, favorecido pelo capital político de Evo, mas também pelas questionamentos de sua disputada vitória em outubro de 2019, em uma eleição que depois foi anulada. 

As denúncias de fraude a favor da reeleição de Evo geraram protestos que o levaram à renúncia três semanas depois. Ele pediu asilo no México e mais tarde na Argentina, onde atuou como gerente de campanha virtual da Arce. 

O governo de direita e os outros candidatos dirigiram toda a sua artilharia contra o representante do MAS durante a campanha. Além disso, a Procuradoria-Geral, ligada ao governo, o acusou de "enriquecimento ilícito" enquanto era ministro, o que Arce negou. 

O candidato de direita Luis Fernando Camacho afirmou que "Luis Arce não é um candidato, é um fantoche do ditador Evo Morales". O ex-presidente de direita Jorge Quiroga, que disputava a eleição, mas retirou sua candidatura no último minuto, chamou-o de "caixa do desperdício", pelo gasto milionário com obras públicas durante 14 anos. 

Mesa, por sua vez, assegurou que as conquistas econômicas de Arce e Evo não foram "por mérito próprio", mas graças aos altos preços das matérias-primas "que nenhum governo jamais recebeu" na Bolívia. 

"Os resultados foram palácios, aviões, luxos, desperdícios, corrupção. Obviamente, o responsável foi o presidente Evo, mas em particular seu ministro da Fazenda", disse Mesa. / AFP

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