AP Photo/Aaron Favila, File
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Quem é Maria Ressa, ganhadora do Nobel da Paz: ‘Um mundo sem fatos é um mundo sem verdade’

A jornalista filipina de 58 anos atraiu a ira do presidente Rodrigo Duterte e se tornou a 18ª mulher a ganhar o prêmio em 126 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 07h30
Atualizado 08 de outubro de 2021 | 10h33

No início da tarde de 7 de maio, Maria Ressa sentou-se diante de algumas centenas de pessoas no pátio do Palma Hall, o dilapidado edifício de ciências sociais e filosofia da Universidade das Filipinas, em Quezon City, ao norte de Manila. Os participantes, muitos deles estudantes, apertavam-se ombro a ombro em cadeiras amarelas; ventiladores de mão agitavam o ar tórrido enquanto um chuvisco caía sobre as palmeiras. Faltavam seis dias para as eleições nas Filipinas, e a habitual mistura de política de novela e teorias da conspiração melodramática tinha atingido um novo patamar no país.

"Na batalha dos fatos, isso mostra que o comitê do Prêmio Nobel da Paz percebe que um mundo sem fatos é um mundo sem verdade e confiança. Se você não tem nenhuma dessas coisas, certamente não pode vencer o coronavírus, a mudança climática", disse Maria Ressa, nesta sexta-feira, 8, após se tornar a 18ª mulher a ganhar a honraria em 126 anos.

Em abril, duas semanas antes da cena retratada no inícion deste texto, The Manila Times, o jornal de língua inglesa mais antigo do país, publicou uma lista de escritores, editores e advogados que, afirmava o periódico, estavam conspirando contra o presidente Rodrigo Duterte. O jornal a chamou de "Matrix" e colocou Ressa - a ex-chefe do escritório da CNN no Sudeste Asiático e editora de um site de notícias online chamado Rappler - no centro da trama.

Além de Maria Ressa, de 56 anos, o também jornalista Dmitri Muratov, da Rússia, recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2021 pela "contribuição essencial de ambos para a liberdade de expressão e pelo jornalismo em seus países".

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Jornalista há mais de 35 anos, a filipina é conhecida por ser co-fundadora do Rappler, principal site de notícias que lidera a luta pela liberdade de imprensa nas Filipinas e combate à desinformação. Desde que entrou em funcionamento, em janeiro de 2012, o portal tornou-se uma das plataformas de comunicação social mais populares e influentes do país, misturando reportagens com apelos ao ativismo social. 

“Desde 2016 eu digo que estamos lutando pelos fatos. Quando vivemos em um mundo onde os fatos são discutíveis, onde o maior distribuidor de notícias do mundo prioriza a disseminação de mentiras misturadas com raiva e ódio, e os espalha mais rápido e mais longe do que os fatos, então o jornalismo se torna ativismo”, disse a ganhadora do Nobel da Paz de 2021, em diálogo com outra mulher da equipe do Rappler  em live no YouTube. 

“Essa é a transformação pela qual passamos no Rappler", seguiu a Maria. "Como fazemos o que fazemos? Como os jornalistas podem continuar a missão do jornalismo? Por que é tão difícil continuar contando à comunidade, ao mundo, quais são os fatos?", questionou.

Rappler

À frente da Rappler, Maria Ressa tem enfrentado constante assédio político e detenções pelo governo autoritário de Duterte. Os repórteres do site, a maioria dos quais na casa dos 20 anos, têm sido especialmente críticos em relação ao presidente filipino, investigando sua campanha de assassinatos extrajudiciais contra pessoas suspeitas de tráfico ou uso de drogas, documentando a disseminação da desinformação governamental no Facebook e reportando sobre atos ilícitos entre os seus principais conselheiros do governo. Como resultado, o site atraiu a ira de Duterte e foi alvo de seus seguidores. Maria Ressa foi forçada a aumentar sua segurança pessoal.

O poder das plataformas digitais no mundo contemporâneo, sobretudo como canal de disseminação de desinformação, é foco de críticas da jornalista. "O mundo deve se unir como fez após a 2ª Guerra para resolver esse problema. O que eles fizeram? Eles criaram as Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este é o tipo de momento que requer isso, e não sei como nós, nas Filipinas, teremos integridade nas eleições se não forem colocadas grades de proteção em torno das plataformas de mídia social."

"Nada é possível sem fatos. Mesmo que os fatos sejam realmente enfadonhos, tudo começa com uma realidade compartilhada que é definida pelos fatos. O que vimos é que, à medida que os jornalistas perdiam seus poderes para as plataformas de tecnologia, tudo isso foi embora quando a tecnologia assumiu a função de guardiã das informações. Essa é uma crise existencial não apenas para jornalistas ou a democracia filipina, mas globalmente", aponta Maria Ressa.

"O que aconteceu em nosso ecossistema de informação, esse vírus da mentira que foi introduzido por algoritmos de plataformas de mídia social, infecta pessoas reais e as muda, é como a explosão de uma bomba atômica", critica a Nobel da Paz de 2021.

A jornalista esteve dividida entre dois mundos, sua terra natal e os Estados Unidos, durante a maior parte da vida. Essa dupla identidade, tanto quanto qualquer outra coisa, a levou a enxergar o mundo como ela o vê, e essas visões a colocaram em uma posição perigosa.

Depois de se formar, em 1986, ela recebeu uma bolsa Fulbright para estudar teatro político em Manila.

O retorno de Maria Ressa ao país natal ocorreu durante a transição do autoritarismo e a adoção de ideias liberais e democráticas dos Estados Unidos. Na época, a CNN estava procurando alguém que fosse fluente em inglês para relatar a transformação e contratou a jornalista. Ela se tornou uma figura central na cobertura da rede na Ásia, na linha de frente da luta entre as ideias democráticas e o autoritarismo.

Maria Ressa estava interessada não só em como os ideais democráticos floresciam, mas também em como morriam, e como a ideologia extremista se espalhava como uma toxina por meio de uma sociedade.

Antes de fundar o Rappler, Maria tem no currículo quase uma década dedicada ao trabalho de repórter investigativa da CNN, com ênfase no terrorismo no Sudeste Asiático. Ela ainda fundou e dirigiu o escritório de Manila da CNN durante quase uma década antes de abrir o escritório em Jacarta da rede, que dirigiu de 1995 a 2005. 

Outros reconhecimentos a Maria Ressa

Em 2018, Maria Ressa foi nomeada a Personalidade do Ano de 2018 pela revista Time Magazine, esteve entre as 100 Pessoas Mais Influentes de 2019, pela mesma revista, e foi também nomeada uma das Mulheres Mais Influentes do Século do Time, entre outros.

Entre os prêmios, Maria Ressa já recebeu o “Caneta de Ouro da Liberdade da Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias”, o Prêmio Internacional de Jornalismo Knight do Centro Internacional de Jornalistas e o Prêmio Sergei Magnitsky de Jornalismo Investigativo. / Com informações do New York Times

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