Presidência do Peru / Reuters
Presidência do Peru / Reuters

Quem é Martín Vizcarra, presidente peruano que enfrenta impeachment

Pregando a verdade e a transparência, ele está contra a parede por induzir dois colaboradores a mentirem em investigações por questionamentos sobre um contrato; apesar disso, popularidade segue alta

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 13h48

LIMA - O presidente peruano, Martín Vizcarra, fez do combate à corrupção sua principal bandeira, navegando contra a corrente da classe política, mas agora corre o risco de naufragar por um escândalo à sua volta.

Pregando a verdade e a transparência, ele criou um perfil que foi desvalorizado na última semana e está contra a parede por induzir dois colaboradores a mentirem em investigações do Parlamento e do Ministério Público por questionamentos sobre o contrato de um cantor.

Sua imagem foi manchada, e seu poder, enfraquecido. Se sobreviver ao julgamento de impeachment desta sexta-feira, terá dez meses difíceis pela frente no comando do país. Sem partido político e sem bancada, em um Congresso controlado por uma oposição populista, Vizcarra será forçado a construir pontes e evitar novos embates com o Parlamento, caso consiga se salvar.

"O presidente fará ajustes no gabinete, mantendo seu primeiro-ministro (o general aposentado Walter Martos), porque esta crise mostrou que o necessário é ter alguém vinculado às Forças Armadas no gabinete", disse o analista político Augusto Alvarez Rodrich.

Se vencer o julgamento político, seu único ponto de apoio será o das pessoas comuns, conforme demonstrado por uma pesquisa do Ipsos, na qual "oito em cada dez peruanos acreditam que Martín Vizcarra deve continuar como presidente".

Em 30 meses de gestão, Vizcarra sempre obteve taxas de aprovação acima dos 50%, impulsionado por suas reformas para prevenir a corrupção em um país onde os quatro presidentes anteriores estão envolvidos nas contribuições e subornos da construtora brasileira Odebrecht.

'Firmes contra a corrupção'

"Seremos muito firmes no combate à corrupção e contra todas aquelas ações contestadas pela lei", disse Vizcarra diante do Congresso ao assumir o mandato, em 23 de março de 2018. Essas palavras seriam uma espécie de declaração de princípios, convertidas em seu principal suporte para escolher suas batalhas, apelando aos "indignados" das ruas.

De 57 anos, o engenheiro sem laços com a elite de Lima assumiu para governar até julho de 2021, completando o mandato de cinco anos do renunciado Pedro Pablo Kuczynski, de quem era vice.

Simples e meticuloso

"Ele é muito mais cuidadoso na gestão de sua imagem" e "muito mais localizado politicamente", disse o analista Fernando Tuesta, ao compará-lo com Kuczynski.  Quem conhece Vizcarra destaca sua simplicidade e afirma que é um governante meticuloso, cuidadoso com o gasto público e convencido de que o desenvolvimento começa pela educação. 

É casado com Maribel Díaz, uma professora de escola com quem teve quatro filhos.

'Sensibilidade social' 

Em 2008, liderou em Moquegua (no sul) um protesto durante dez dias contra a mineradora Southern, exigindo melhor distribuição dos fundos sociais gerados pela mineração para essa região marcada pelas desigualdades. Três anos depois, aventura-se na política e foi eleito governador de Moquegua (2011-2014).

Uma de suas principais conquistas foi transformá-la em uma das regiões com maior investimento do PIB em educação. Em 2016, Kuczynski o convidou para ser candidato à vice-presidência, para atrair o voto do sul peruano.

Vizcarra também foi ministro de Transportes entre julho de 2016 e maio de 2017. Nasceu em Lima em 22 de março de 1963, mas cresceu em Moquegua.

Aprendeu sobre política vendo seu pai, prefeito da cidade de Moquegua pelo APRA, partido do ex-presidente Alan García. "Meu pai influenciou bastante minha sensibilidade social. Se a tenho, devo a meu pai", disse Vizcarra em uma entrevista. / AFP 

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