Jim Huylebroek/The New York Times
Jim Huylebroek/The New York Times

Quem é o braço do Estado Islâmico no Afeganistão, maior ameaça à retirada de Cabul 

Grupo afiliado do Estado Islâmico que é inimigo jurado do Taleban e dos Estados Unidos ameaça ataques em grande escala contra a missão no aeroporto

Eric Schmitt, The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 13h25
Atualizado 27 de agosto de 2021 | 09h56

WASHINGTON - Os Estados Unidos lutam contra o Taleban e seus parceiros militantes no Afeganistão, da Al-Qaeda e da rede Haqqani, há 20 anos.

Mas a maior ameaça imediata para os americanos e para o Taleban à medida que os Estados Unidos escalam sua operação de retirada do aeroporto de Cabul antes do prazo de retirada em 31 de agosto é um rival comum menos conhecido: o Estado Islâmico Khorasan, ou ISIS-K, o grupo terrorista afiliado do EI no Afeganistão.

Criado há seis anos pelo descontente taleban paquistanês, o ISIS-K realizou dezenas de ataques no Afeganistão este ano. Analistas militares e de inteligência americanos dizem que as ameaças do grupo incluem um caminhão carregado de bomba, homens-bomba se infiltrando na multidão do lado de fora do Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em Cabul, e ataques com morteiros contra o campo de aviação.

Essas ameaças, juntamente com as novas demandas do Taleban para que os Estados Unidos saiam até 31 de agosto, provavelmente influenciaram a decisão do presidente americano, Joe Biden, na terça-feira de cumprir esse prazo. "Cada dia que estamos no terreno é mais um dia em que sabemos que o ISIS-K está tentando atingir o aeroporto e atacar as forças dos EUA e aliadas e civis inocentes", disse.

As ameaças revelam uma dinâmica complicada entre o Taleban, a Al Qaeda e a rede Haqqani, e seu rival, o ISIS-K, no que analistas dizem que prenuncia uma luta sangrenta envolvendo milhares de combatentes estrangeiros de ambos os lados.

Um relatório das Nações Unidas em junho concluiu que 8.000 a 10.000 combatentes da Ásia Central, região do Cáucaso, do Norte da Rússia, Paquistão e região de Xinjiang, no oeste da China, foram para o Afeganistão nos últimos meses. A maioria está associada ao Taleban ou à Al-Qaeda, disse o relatório, mas outros são aliados do ISIS-K.

"O Afeganistão agora se tornou a Las Vegas dos terroristas, dos radicais e dos extremistas", disse Ali Mohammad Ali, um ex-oficial de segurança afegão. "Pessoas em todo o mundo, radicais e extremistas, estão cantando, celebrando a vitória do Taleban. Isso está abrindo caminho para que outros extremistas venham ao Afeganistão".

As autoridades americanas dizem que estão se preparando para combater os desafios terroristas imediatos e de longo prazo no Afeganistão. Em primeiro lugar, está a ameaça no aeroporto de Cabul.

Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional de Biden, disse no domingo que a ameaça do ISIS-K era "aguda" e "persistente" e que os comandantes americanos e outros oficiais estavam tomando todas as medidas possíveis para impedir quaisquer ataques.

Isso inclui conseguir um acordo improvável com o Taleban, pelo menos temporariamente, não apenas para permitir a passagem segura de cidadãos americanos e aliados afegãos ao aeroporto para voos para fora do país, mas também para se defender ativamente contra um ataque dos membros do ISIS-K.

Os líderes do Estado Islâmico no Afeganistão denunciaram a tomada do país pelo Taleban, criticando sua versão do governo islâmico como “insuficientemente dura”, e os dois grupos lutaram nos últimos anos.

Um ataque ao aeroporto, disseram as atuais e ex-autoridades americanas, seria um golpe estratégico tanto para os Estados Unidos quanto para a liderança do Taleban, que tenta demonstrar que pode controlar o país. Tal ataque aumentaria a estatura do ISIS-K no mundo jihadista.

O Taleban e a rede Haqqani, um grupo militante com base no Paquistão, são essencialmente o mesmo, dizem especialistas em terrorismo. Siraj Haqqani é vice-emir do Taleban desde 2015. Por sua vez, os Haqqanis são próximos, operacional e ideologicamente, da Al-Qaeda.

Na longa história do envolvimento dos EUA no Afeganistão, poucos grupos desempenharam um papel tão importante quanto a rede Haqqani. Fundada pelo célebre comandante mujahedin Jalaluddin Haqqani, no final dos anos 70, ela lutou contra a ocupação soviética, de 1979 a 1989, e se uniu ao Taleban, nos anos 90. Khalil é irmão de Jalaluddin Haqqani, e tio do atual vice-líder do Taleban, Sirajuddin Haqqani. Após a invasão americana, o clã Haqqani executou operações que complicaram a estabilização do Afeganistão. Serviços de inteligência ocidentais estimam que o grupo tenha cerca de 10 mil combatentes. 

As relações entre Taleban e Al-Qaeda são muito próximas. Os pais de Sirajuddin Haqqani e do mulá Mohammad Yaqoob, ambos altos dirigentes do Taleban, eram ligados a Bin Laden. O líder religioso taleban Haibatullah Akhundzada foi elogiado como "emir dos fiéis" pelo líder da Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri quando foi nomeado em 2016. Edmund Fitton-Brown, coordenador da equipe da ONU responsável por monitorar o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e os taleban, afirmou em fevereiro, em uma entrevista ao canal americano NBC, acreditar que a cúpula da Al-Qaeda seguia "sob a proteção" dos Taleban.

“O Taleban, a rede Haqqani e a Al Qaeda funcionam como um triunvirato, que faz parte da mesma rede militante, eles trabalham juntos em conjunto”, disse Colin P. Clarke, analista de contraterrorismo do Soufan Group, uma empresa de consultoria de segurança com sede em Nova York.

Essas três entidades estão interligadas, disse Clarke, e de fato, ficaram mais próximas na última década, uma tendência que provavelmente continuará após a retirada dos EUA, especialmente à medida que cerram fileiras contra adversários como o ISIS-K e o crescimento movimento de resistência no norte do Afeganistão.

Do outro lado da jihad está o ISIS-K. O grupo é um dos muitos afiliados que o Estado Islâmico estabeleceu depois que varreu o norte do Iraque e da Síria em 2014 e criou um estado religioso, ou califado, do tamanho do Reino Unido. Uma campanha liderada pelos americanos esmagou o califado, mas mais de 10.000 combatentes do EI permanecem no Iraque e na Síria, e afiliados do EI no Sahel ou na Península do Sinai estão prosperando.

Mas o ISIS-K nunca foi uma força importante no Afeganistão, muito menos globalmente, dizem os analistas. As fileiras do grupo caíram para cerca de 1.500 a 2.000 combatentes, cerca da metade de seus níveis máximos em 2016 antes que os ataques aéreos americanos e os ataques de comandos afegãos cobrassem seu preço.

Desde junho de 2020, no entanto, sob um novo líder ambicioso, Shahab al-Muhajir, a afiliada "permanece ativa e perigosa" e está tentando aumentar suas fileiras com combatentes taleban insatisfeitos e outros militantes, concluiu o relatório da ONU.

“Eles não eram afiliados de primeiro nível do EI, mas com os comandos afegãos e os militares americanos mortos, isso lhes dá espaço para respirar? Poderia”, disse Seth G. Jones, um especialista em Afeganistão do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington.

O que sua vitória significa para grupos terroristas? Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão há 20 anos em resposta ao terrorismo, e muitos temem que a Al-Qaeda e outros grupos radicais encontrem novamente um refúgio seguro lá.

Mesmo com o declínio geral do grupo nos últimos anos, disse Jones, o ISIS-K manteve células de combatentes clandestinos que realizaram ataques terroristas.

Oficiais de contraterrorismo das Nações Unidas disseram no relatório de junho que o Estado Islâmico realizou 77 ataques no Afeganistão nos primeiros quatro meses deste ano, contra 21 no mesmo período em 2020. Os ataques do ano passado incluíram um ataque contra a Universidade de Cabul em novembro e uma barragem de foguetes contra o aeroporto de Cabul um mês depois. Acredita-se que o ISIS-K tenha sido o responsável pelo atentado a bomba em uma escola na capital, que matou 80 meninas em maio.

“Cabul foi o alvo da maioria dos ataques mais sofisticados e complexos do ISIS-K no passado”, disse Abdul Sayed, um especialista em grupos jihadistas no Afeganistão e Paquistão que mora em Lund, na Suécia.

Alguns analistas acreditam que o ISIS-K pode ter ligações com a rede Haqqani. Na verdade, Shahab al-Muhajir, o líder do ISIS-K, teria sido um ex-comandante do Haqqani de nível médio antes de desertar.

“Visto que muitos comandantes e combatentes do EI já fizeram parte da Al-Qaeda ou de uma franquia da Al-Qaeda, não é surpreendente que deva haver esse contato”, disse Bruce Hoffman, estudioso de terrorismo do Council on Foreign Relations, um centro de estudos de Relações Internacionais. “Na maioria dos casos, esse contato não produziu nenhuma reconciliação duradoura.”

A rivalidade entre o Taleban e seus parceiros e o ISIS-K continuará após a partida das últimas tropas americanas, dizem analistas. E a frágil cooperação entre os comandantes americanos e do Taleban já está diminuindo, e os dois poderiam facilmente voltar às suas posições adversárias.

Os militares americanos estão tratando seriamente o prazo final dado pelo Taleban de 31 de agosto. As recentes retiradas foram possíveis devido à cooperação do Taleban - permitindo que a maioria das pessoas chegassem ao aeroporto ilesas e trabalhando contra a ameaça de ataques do ISIS-K, dizem os comandantes.

Depois de 31 de agosto, disseram oficiais militares, há uma preocupação real de que, na melhor das hipóteses, a cooperação com o Taleban acabará. Na pior das hipóteses, isso poderia levar a ataques às forças dos EUA, cidadãos estrangeiros e aliados afegãos, seja por elementos do Taleban ou por fecharem os olhos às ameaças do Estado Islâmico.

Biden prometeu evitar que o Afeganistão se torne novamente um santuário para a Al-Qaeda e outros grupos terroristas que querem atacar os EUA. Comandantes militares dizem que será uma tarefa difícil, sem tropas e poucos espiões no solo, e os drones armados a milhares de quilômetros de distância em bases no Golfo Pérsico.

No acordo de fevereiro de 2020 com o governo Trump, o Taleban prometeu não permitir que a Al-Qaeda usasse o território afegão para atacar os Estados Unidos. Mas os analistas temem que isso não esteja acontecendo e que a Al-Qaeda continue sendo a ameaça do terrorismo de longo prazo.

Como afirma o relatório da ONU: “O Taleban e a Al Qaeda permanecem estreitamente alinhados e não mostram nenhuma indicação de rompimento de laços”.

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