Quem é o culpado pela perda do Iraque?

Governo iraquiano foi incompetente, mas os EUA tentam defender o indefensável em sua política para o país

FAREED , ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2014 | 02h02

É cada vez mais provável que o Iraque tenha chegado a uma situação crítica. As forças hostis ao governo ficaram mais fortes, melhor equipadas e mais organizadas. Tendo agora conseguido armas, munição e centenas de milhões de dólares em dinheiro de sua tomada de Mossul - a segunda maior cidade do Iraque -, elas progredirão com essas novas forças acumuladas. A questão inevitável surgiu em Washington: quem perdeu o Iraque?

Sempre que os EUA fizeram essa pergunta - como fizeram sobre a China, nos anos 50, ou sobre o Vietnã, nos 70 -, o ponto mais importante a lembrar é que os líderes locais perderam. Os nacionalistas chineses e o governo sul-vietnamita foram corruptos, ineficientes e fracos, incapazes de serem inclusivos e sem disposição de lutar com a dedicação de seus rivais. O mesmo vale para o Iraque, só que muito mais. A primeira resposta à pergunta é: Nuri al-Maliki perdeu o Iraque.

O primeiro-ministro e seu partido se comportaram como bárbaros, excluindo os sunitas do poder, usando Exército, polícia e milícias para aterrorizar seus adversários. A insurgência que Maliki enfrenta hoje era inteiramente previsível porque, de fato, ela ocorreu antes. De 2003 em diante, o Iraque enfrentou uma insurgência sunita que foi contida pelo general David Petraeus, que disse explicitamente, na época, que o elemento central de sua estratégia era político, trazer tribos e milícias sunitas para o aprisco. O sucesso do reforço militar, ele muitas vezes observou, ganhou tempo para um verdadeiro acordo de divisão de poder no Iraque que traria os sunitas para a estrutura do governo.

Um dirigente de alto escalão estreitamente envolvido com o Iraque no governo de George W. Bush me disse: "Não só Maliki não tentou ampliar a divisão de poder como renegou todos os acordos que foram feitos, parou de pagar as tribos, milícias sunitas e começou a perseguir autoridades sunitas importantes". Entre as autoridades visadas estavam o vice-presidente do Iraque e seu ministro das Finanças.

Como Maliki tornou-se primeiro-ministro do Iraque? Ele foi produto de uma série de decisões momentosas tomadas por Bush. Tendo invadido o Iraque com uma força pequena - o que o especialista Tom Ricks chamou de "o pior plano de guerra da história americana" -, o governo precisava encontrar aliados locais. Ele decidiu destruir o establishment governante sunita do Iraque e dar poder a partidos religiosos xiitas linha-dura que se opunham a Saddam Hussein.

Isto significou a implosão de uma estrutura de poder sunita que existia há séculos na região. Essas medidas - desmobilizar o Exército, desmontar a burocracia e expurgar sunitas - podem ter sido mais consequentes do que a invasão em si.

A agitação no Oriente Médio é chamada, com frequência, de guerra sectária. No entanto, ela é melhor descrita como "a revolta sunita". Por toda a região, do Iraque à Síria, veem-se bandos sunitas armados que decidiram atacar forças não sunitas que, segundo eles, os oprimem. O governo Bush justificou suas ações assinalando que os xiitas eram maioria no Iraque e tinham de governar, mas a verdade é que as fronteiras dessas terras são porosas e, apesar de os xiitas serem numerosos no Iraque - o partido de Maliki realmente ganhou por maioria simples, não absoluta -, são uma pequena minoria no Oriente Médio como um todo. É o apoio externo, de lugares tão variados como Arábia Saudita e Turquia, que sustenta a revolta sunita.

Se o governo Bush merece sua justa porção de culpa por "perder o Iraque", o que dizer do governo de Barack Obama e sua decisão de retirar as forças americanas do país no fim de 2011? Eu preferia ver uma pequena força americana no Iraque para tentar impedir o colapso do país, mas é bom lembrar por que essa força não está lá. Maliki não quis oferecer garantias que qualquer outro país que abriga forças americanas oferece. Alguns comentaristas culparam Obama por negociar mal ou irresolutamente e isto talvez seja verdade.

No entanto, eis o que um veterano político iraquiano me disse nos dias em que a retirada americana estava sendo discutida: "Não acontecerá. Maliki não pode permitir que os soldados americanos permaneçam. O Irã deixou muito claro a Maliki que sua principal demanda é que não permaneçam soldados americanos no Iraque. E Maliki é devedor deles".

Ele me lembrou de que Maliki passou 24 anos no exílio, a maioria deles em Teerã e em Damasco, e seu partido foi financiado pelo Irã durante boa parte de sua existência. De fato, o governo Maliki seguiu políticas que foram pró-iranianas e pró-sírias.

Washington está debatendo o que seria mais eficaz, se ataques aéreos ou o treinamento de forças, mas seu problema real é muito maior e está se construindo há uma década. No Iraque, ele está defendendo o indefensável. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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