Federico Parra / AFP
Federico Parra / AFP
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

É preciso levar o interino Guaidó a sério

A longa entrevista que ele deu ao jornal 'Le Monde' serviu como atestado de nascimento e de declaração de intenção

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2019 | 05h00

Na Europa, as pessoas nem mesmo sabiam que ele existia. E, um belo dia, no turbilhão da crise venezuelana, ele apareceu. Quem era esse jovem de 35 anos, bonito e elegante, que saiu do nada e pretende ser o futuro da Venezuela?

Juan Guaidó assegurou ser o verdadeiro presidente que lançaria Maduro nas trevas. Mais um fanfarrão? No entanto, dias depois, percebemos que era uma pessoa séria. Mas continuávamos a não saber muita coisa a seu respeito. Por isto, a longa entrevista que ele deu ao jornal Le Monde serviu como atestado de nascimento e de declaração de intenção. E concluímos que é preciso levar Juan Guaidó a sério.

Foi pedido, em primeiro lugar, para ele se situar no cenário político. Guaidó respondeu secamente à demanda ideológica. “É muito cedo. No momento, o que importa é estabelecer uma política de assistência social e igualdade dos sexos. Apoio o livre mercado, a autonomia do empresariado e a competitividade”, respondeu.

Então, ele é de direita? Sua resposta: “Sou de centro-esquerda nas questões sociais. Compartilho, em grande parte, os valores da social-democracia. Mas debater sobre a Venezuela em termos de direita e de esquerda é errado. A triste realidade é que a história do país foi de pilhagem e corrupção. A palavra ‘povo’ foi utilizada para se roubar os recursos de nosso território. Aí, não existe ideologia.” 

Outra pergunta delicada: “O senhor obteve o apoio de Donald Trump. Por que Trump continua a fazer ameaças de uma intervenção militar?” Resposta: “Toda essa história de intervenção foi deformada e recuperada. Ela mascara o nosso desejo de construir uma real maioria no país com uma Assembleia Nacional soberana e eleita. Sessenta países nos reconheceram. Então, reduzir tudo isto a um único minimiza os anos de sacrifícios e de combates dos venezuelanos para recuperarmos nossa liberdade e nossa democracia.” 

Pelo menos 20 países europeus reconheceram Guiadó, observou o jornal Le Monde. “O que o senhor espera mais?” “Muita coisa”, respondeu o venezuelano. “Primeiramente, o pleno reconhecimento das minhas funções de presidente interino. Em segundo lugar, necessitamos de apoio para fornecer ajuda humanitária, abrir corredores de transporte. E, em terceiro, é preciso uma pressão diplomática forte para estabelecer um governo de transição estável e permanente.”

Para terminar foram feitas perguntas sobre os antigos “chavistas”. “Hoje, os chavistas são menos numerosos. Eles abrigaram muitas contradições, dando as costas ao mundo democrático. Acho que são necessários para garantir a estabilidade do país. Eu reconheci a importância dos militares e apresentei propostas. Todos são importantes aos meus olhos.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.