REUTERS/Erin Scott
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Quem é o marido de Kamala Harris, Douglas Emhoff, o primeiro segundo-cavalheiro da história dos EUA

Marido da primeira mulher, negra e asiático-americano a ocupar o cargo de vice-presidente, Emhoff também é pioneiro ao ser o primeiro homem e primeiro judeu no cargo

Hailey Fuchs, The New York Times

21 de janeiro de 2021 | 13h00

WASHINGTON - Douglas Emhoff, marido da vice-presidente Kamala Harris e o primeiro segundo-cavalheiro da história dos Estados Unidos, visitou a Biblioteca do Congresso neste mês para o que chamou de "lição de casa" sobre sua nova função. Ele se informou sobre a história de um século atrás de Lois Marshall, então a segunda-dama do governo democrata que deixava o poder, e Grace Coolidge, a segunda-dama do governo republicano que estava por começar.

Grace Coolidge estava nervosa no caminho para Washington, não familiarizada com a cidade e sua cultura. Mas Lois Marshall estava lá para recebê-la na estação de trem quando ela chegou, disse Meg McAleer, uma especialista em história na divisão de manuscritos da Biblioteca do Congresso.

"É apenas o contato mais empático de uma mulher que já desempenhou esse papel para com a mulher que estava prestes a assumir o cargo", disse McAleer. "E não importou para nenhuma das duas a mudança de uma administração democrata para uma republicana."

A atmosfera na capital 100 anos depois é profundamente diferente após os esforços do presidente Donald Trump para subverter o resultado das eleições de 2020. Emhoff não teve nenhum contato direto com Karen Pence, sua antecessora como cônjuge de um vice-presidente, até que eles se encontraram durante as cerimônias do Dia da Posse no Capitólio na quarta-feira, 20.

Mas eles e seus parceiros aparentaram ter, pelo menos externamente, uma interação amigável na escada do Capitólio, após Kamala Harris e seu marido cumprimentarem os Pences. Mesmo que não tenha sido nada de mais, este é o tipo de momento de extrema exposição em que os cônjuges de políticos costumam ser examinados e, por isso, tem que aprender a lidar com elegância. O que era incomum na cena é que Emhoff é o primeiro de seu gênero a ocupar tal papel.

Com a posse de Harris como vice-presidente, tornando-se a primeira mulher, primeira pessoa negra e primeira asiático-americana a ocupar o cargo, Douglas Emhoff, de 56 anos, também acabou virando um pioneiro: o primeiro homem e o primeiro judeu a ocupar o "posto" de cônjuge de um presidente ou vice-presidente. Embora os detalhes sobre o que Emhoff possa fazer com tal plataforma não sejam claros - ele discutiu se concentrar no "acesso à justiça" - sua presença indica uma mudança lenta de papéis de gênero na política e além.

A mudança  deixa o segundo-cavalheiro com a responsabilidade de ajudar a definir o papel dos homens que virão depois dele e alterar as percepções tradicionais sobre os papéis.

"Duvido que as pessoas tomem tanto cuidado ao examinar o que ele está vestindo ou se ele decidiu ou não colocar um novo carpete na residência da vice-presidente", disse Katherine Jellison, professora de história da Universidade de Ohio que estuda mulheres históricas e primeiras-damas.

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Kamala e Emhoff se casaram em 2014, enquanto ela era procuradora-geral da Califórnia. Emhoff, que atuava como advogado, tornou-se um ávido substituto de sua esposa durante a campanha. Após a eleição, ele deixou seu emprego no escritório de advocacia DLA Piper em meio a dúvidas sobre se seu trabalho poderia gerar conflitos para a chapa Biden-Harris.

O papel de cônjuge do vice-presidente varia para cada pessoa, disseram ex-chefes de gabinete de esposas de vice-presidentes, com muitos usando a plataforma para realizar projetos diferentes.

Como Emhoff, Marilyn Quayle, esposa do ex-vice-presidente Dan Quayle, também abandonou a advocacia na época em que seu marido entrou para o governo. Ela estava procurando um emprego em um escritório antes de Quayle ingressar na chapa presidencial com George Bush em 1988, mas mais tarde foi informada de que os conflitos seriam grandes demais para ela exercer a advocacia e que seu novo cargo proporcionaria uma plataforma melhor.

Lynne Cheney, esposa do ex-vice-presidente Dick Cheney, continuou a trabalhar no American Enterprise Institute, um think tank conservador, enquanto seu marido servia no governo George W. Bush, disse Debra Dunn, sua ex-chefe de gabinete.

Emhoff ingressou no corpo docente do Georgetown University Law Center e está ministrando um curso denominado Entertainment Law Disputes neste semestre. Assim, segue o mesmo caminho de suas antecessoras, Karen Pence, que dava aulas de arte em uma escola primária na Virgínia do Norte, e de Jill Biden, que lecionava no Northern Virginia Community College, o que diz pretender continuar fazendo - o que a tornaria a única primeira-dama a continuar trabalhando fora da Casa Branca.

John Bessler, marido da senadora Amy Klobuchar, democrata de Minnesota, passou um tempo com Emhoff durante a campanha e o chamou de "grande embaixador" de Harris. Durante as primárias democratas, sem muita segurança para os candidatos, um manifestante caminhou pelo palco e pegou o microfone de Harris. Emhoff podia ser visto subindo no palco e tentando arrancar o microfone das mãos do homem.

Posteriormente, Bessler, cuja esposa também era candidata presidencial, enviou um e-mail para Emhoff aplaudindo seu esforço. "Ele agora era oficialmente o chefe da segurança da campanha de Kamala", lembrou Bessler.

Chasten Buttigieg, ex-professor de teatro e marido de Pete Buttigieg, candidato democrata à presidência em 2020 e escolhido por Biden para secretário de transportes, relembrou um momento da campanha com Emhoff. "Eu não sou um cara de teatro", Chasten Buttigieg disse que Emhoff disse a ele. "Eu sou apenas, você sabe, um marido, e estou aqui para dizer às pessoas por que amo Kamala."

Com a nova função de Emhoff, os homens nos Estados Unidos puderam ver que podiam recuar "e deixar as mulheres liderarem", disse Chasten Buttigieg em uma entrevista. "E as mulheres podem ser as que detêm o poder em um relacionamento e também gostam do que significa ser uma esposa amorosa e solidária, e às vezes isso significa ficar em segundo plano ou encorajar seu cônjuge a voar."

Discutindo sua visita à Biblioteca do Congresso em uma entrevista postada em sua conta no Twitter na terça-feira, Emhoff refletiu sobre o legado que pode deixar para os futuros cônjuges vice-presidenciais.

"Vou realmente pegar o que aprendi ao passar para esta função, mas também vou fazer do meu próprio jeito", disse ele. "Eu entendo que sou o primeiro cavalheiro a ocupar este cargo e certamente não quero ser o último."

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