Quem é terrorista e quem é demente?

Especialistas alertam que, cada vez mais, se há um massacre e um muçulmano envolvido, os governantes tratam caso como terrorismo

Mark Mazetti e Erik Schmitt, The New York Times

23 Julho 2016 | 05h00

Em dezembro de 2014, um homem de meia idade que estava dirigindo um carro em Dijon, na França, atropelou mais de dez pedestres em 30 minutos, enquanto gritava slogans islâmicos da janela do veículo. A promotora de Dijon descreveu os ataques, que deixaram 13 feridos, mas nenhum morto, como ação de uma pessoa mentalmente desequilibrada com motivações vagas e incoerentes. 

Um ano e meio mais tarde, depois que Mohamed Bouhlel massacrou dezenas de pessoas com um caminhão de 19 toneladas na comemoração do Dia Nacional, em Nice, as autoridades não hesitaram em defini-lo um ato de terrorismo islâmico. O autor do massacre tinha antecedentes policiais por pequenos delitos, mas nenhum vínculo evidente com um grupo terrorista, mas o premiê francês, Manuel Valls, afirmou que Bouhlel era um “terrorista provavelmente ligado, de uma maneira ou de outra, ao Islã radical”. 

A era do Estado Islâmico, no qual os instrumentos do terrorismo parecem cada vez mais grosseiros e casuais, leva a sociedade a redefinir o conceito comum de quem é terrorista e de quem não é. 

Exemplos de uma violência desumana usada por pessoas desequilibradas - seja em Nice ou em Orlando, na Flórida - são imediatamente rotulados como obra de terroristas. Emitem-se juízos deste tipo embora existam poucas provas imediatas de que os autores tenham vínculos diretos com grupos terroristas, e quando eles não se enquadram numa definição clássica de terrorismo, são considerados indivíduos que utilizam a violência para promover um programa político. 

“Em grande parte, estes eventos são marginais em relação ao que consideraríamos terrorismo em termos históricos”, afirmou Daniel Benjamin, ex-coordenador de contraterrorismo do Departamento de Estado e professor do Dartmouth College. Mas o Estado Islâmico e o jihadismo tornaram-se uma espécie de refúgio para alguns indivíduos instáveis que se encontram no fim de sua capacidade de resistência e resolvem redimir suas vidas destroçadas” morrendo por uma causa. 

Benjamin disse que isso também leva a mídia e os governantes a tratar a violência, como o atentado de Nice, de modo diferente de outros ataques, como os cometidos em escolas e igrejas por não muçulmanos. “Se há um massacre e há um muçulmano envolvido, isso por definição será terrorismo”, disse. 

O espectro do terrorismo está se agigantando e passou a incluir ataques vagamente inspirados pelo EI, os de grupos afiliados e os dirigidos pela liderança do grupo. No sábado, um boletim da Amaq, agência de notícias do EI, descreveu Bouhlel como um “soldado do Estado Islâmico” que atendeu à ordem de atacar as nações envolvidas na campanha militar contra o grupo. Mas não deu detalhes sobre os vínculos do autor do massacre com o grupo. 

A ideologia do EI, amplamente divulgada pela mídia social e em vídeos de propaganda, teria inspirado uma onda de violência que incluiu o massacre de dezembro em San Bernardino, na Califórnia, o do mês passado numa boate gay em Orlando, e o ataque do início do mês num café em Bangladesh. 

Estes atos se somaram aos diretamente planejados, ao que tudo indica, pelo alto escalão do EI, como os de Paris em novembro e os de Bruxelas, em março. Em setembro de 2014, um porta-voz do EI ordenou a seus seguidores que atacassem cidadãos ocidentais com todos os meios possíveis, e o fizessem sem esperar novas instruções dos líderes. 

“Esmague sua cabeça com uma pedra, ou mate-o a facadas, com o seu carro, ou jogue-o de algum lugar alto, use a asfixia ou o veneno”, disse o porta-voz, Abu Mohamed al-Adnani. Ao mesmo tempo, os governos percebem também um benefício na vinculação do EI a atos de violência por vezes aleatórios. É uma maneira de projetar ordem no caos, e de tentar assegurar aos cidadãos preocupados de que há uma estratégia para pôr fim à violência. 

Por exemplo, após o ataque de Nice, as autoridades francesas prometeram aumentar os recursos destinados aos bombardeios contra o EI na Síria e no Iraque. “Mesmo que o EI não seja o organizador, ele inspira este espírito terrorista contra o qual vocês estão lutando”, disse no sábado, o ministro da Defesa francês, Jean-Yves Le Drian. Do mesmo modo, funcionários americanos referiram-se ao progresso da campanha militar como um parâmetro do sucesso nos esforços para privar o Estado Islâmico do seu poder, dos recursos e de sua influência.

Brett McGurk, enviado especial do presidente Obama na luta contra o EI, disse ao Congresso que o grupo perdeu 47% do seu território no Iraque e 20% na Síria. As nações que participam dos bombardeios se reunirão esta semana em Washington para avaliar o progresso da luta. Mas os especialistas aconselham a ter cautela, pois enquanto o EI parece exercer um enorme apelo entre os desequilibrados e os que se encontram à margem da sociedade, a campanha militar na Síria e no Iraque tem limites no que se refere à redução da violência que é cometida em outros países em nome do grupo. 

William McCants, estudioso ligado à Brookings Institution e autor do livro The ISIS Apocalypse, disse que há um amplo quadro de “homens e mulheres que não têm vínculos com o EI, mas matam em nome dele”. Estes criminosos e desajustados sociais sem religião são “rebeldes em busca de uma causa”. 

Durante uma sabatina do Congresso, na semana passada, Nicholas J. Rasmussen, diretor do Centro Nacional do Contraterrorismo, fez uma rápida avaliação da ampla campanha contra o EI. “Na nossa avaliação, a capacidade do EI de realizar ataques terroristas na Síria, Iraque e no exterior até o momento não diminuiu de maneira significativa”, afirmou. 

“Indivíduos sozinhos ou pequenos grupos isolados continuam gravitando em torno de táticas simples que não exigem habilidades especiais nem treinamento no exterior”, disse. Tais ameaças sobre o uso da violência indiscriminada criam desafios formidáveis para os líderes mundiais, que precisam encontrar um equilíbrio entre a consciência cada vez maior da ameaça terrorista sem atiçar gratuitamente temores. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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