Quem é vítima na Colômbia?

Comissões de negociação tentam determinar quem poderá ser indenizado em caso de acordo

Sibylla Brodzinsky/Christian Science Monitor, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2014 | 02h04

Desde que os rebeldes de esquerda das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e os negociadores do governo iniciaram as conversações de paz em Havana, em 2012, para pôr fim ao conflito que dura meio século, eles afirmam que a questão central do processo são as vítimas. Como as negociações também discutem sobre a indenização aos que sofreram pelas mãos dos guerrilheiros, a Colômbia se pergunta quem deve ser considerado vítima.

As Farc e o governo colombiano, que começaram as conversações, em novembro de 2012, em Oslo, já concluíram acordos a respeito de três pontos da agenda de seis: reforma agrária, participação política dos rebeldes e narcotráfico. Nenhuma questão produziu um debate tão acalorado quanto a indenização e o reconhecimento das vítimas.

No sábado, os negociadores começaram a ouvir as testemunhas de um grupo de vítimas do conflito, escolhidas por uma comissão de delegados das Nações Unidas, da Igreja Católica e da Universidade Nacional da Colômbia, depois de uma série de fóruns públicos. Entre os que já foram ouvidos e os que ainda serão, não estão apenas vítimas das Farc, mas também outras partes que participaram do conflito - como os paramilitares de direita que combateram os guerrilheiros e representantes do Estado.

Muitas pessoas sequestradas, forçadas a abandonar suas casas após ataques das Farc queixam-se de que suas vozes não estão sendo ouvidas. Outras, como soldados mantidos prisioneiros por mais de dez anos pelos rebeldes, foram informadas de que não poderiam participar. "A questão das vítimas num conflito de natureza política inevitavelmente também será política", afirma María Camila Moreno, diretora do escritório colombiano da Comissão Internacional de Justiça de Transição.

Disputa. Os negociadores das Farc rejeitam a ideia de que membros do Exército e da polícia devam ser considerados vítimas do conflito, porque eles eram combatentes e, portanto, teriam de ser considerados como tais.

Se soldados e policiais sequestrados pelas Farc forem aceitos como vítimas, os "guerrilheiros que estão na cadeia e têm problemas de saúde também deverão ser tratados como vítimas", afirmou a comissão de negociação dos rebeldes em um comunicado divulgado no final da semana passada.

María Camila afirma que todo indivíduo - independentemente de sua situação, seja civil ou combatente - é vítima se sofreu crimes de guerra. Isso inclui soldados mantidos em condições desumanas e rebeldes que podem ter sido torturados nas mãos de agentes do Estado. "Mas, do ponto de vista político, é difícil para muitas pessoas aceitar isso", afirma.

O general Luis Mendieta, resgatado pelo governo em 2010, passou cerca de 12 anos como refém, acorrentado em acampamentos rebeldes na selva. "Pedimos que nos reconhecessem como vítimas das Farc, mas eles querem nos manter invisíveis", disse Mendieta num fórum de vítimas dos rebeldes, falando perante o Congresso colombiano, na quinta-feira.

E, embora as Farc tentem impedir a participação de alguns dos seus prisioneiros mais importantes, muitos dos que estiveram em Havana na primeira rodada de audiências das testemunhas, no fim de semana, foram vitimados não pelos guerrilheiros, mas por outras partes do conflito. Para muitos colombianos, essa é uma maneira de confundir o processo.

"O que uma vítima dos paramilitares tem a dizer às Farc?", questionou Amparo Bustos, que nunca teve notícias de seu pai, sequestrado pelo guerrilheiros em 2000, aos 72 anos.

"Eu esperava que nesse ponto (das negociações), tivesse chegado a nossa hora. No entanto, estamos lutando para sermos ouvidos", declarou Amparo ao Congresso colombiano. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Sibylla Brodzinsky é jornalista.

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