REUTERS/Jonathan Ernst
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Quem é Volodmir Zelenski, presidente ucraniano que pode motivar impeachment de Trump

Novato na política, ex-humorista chegou ao cargo mais alto do país com uma campanha que imitava seu antigo programa de TV e o apresentava com um paladino anticorrupção

Andrew Kramer / The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 15h33

WASHINGTON - Quando era ator na Ucrânia, Volodmir Zelenski interpretou um professor idealista cujo discurso contra a corrupção foi filmado por seus alunos e publicado na internet. Após se tornar viral, o personagem acaba sendo eleito para a presidência do país.

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O quadro fez parte de um programa de comédia no país, mas a mensagem de luta contra as negociações feitas nos bastidores se mostrou tão popular que Zelenski criou um partido político com o nome do seu programa de TV - Servo do Povo - e tornou-se presidente ucraniano de verdade, com uma campanha que imitava seu antigo programa e que foi construída em cima de sua imagem de paladino anticorrupção.

Agora, Zelenski, um novato político de 41 anos que assumiu o país em maio, está no meio de um possível processo de impeachment nos Estados Unidos que gira em torno da hipótese de o presidente americano, Donald Trump, tê-lo pressionado para que traísse os princípios que o levaram até o posto mais alto de seu país.

Trump e seu advogado pessoal, Rudy Giuliani, disseram publicamente que o ex-vice-presidente americano Joe Biden deveria ser investigado pelas conexões de seu filho com uma empresa ucraniana de energia. 

Recentemente, o presidente americano reconheceu ter mencionado as acusações de corrupção em um telefonema com Zelenski em 25 de julho, intensificando as alegações dos democratas no Congresso de que o presidente americano pressionou inadequadamente um governo estrangeiro para minar um de seus principais opositores na corrida presidencial de 2020.

E a confusão cresceu depois que altos funcionários do governo disseram que Trump ordenou pessoalmente a suspensão de US$ 391 milhões em ajuda à Ucrânia nos dias anteriores à ligação entre os dois. Uma das grandes questões é se Trump usou fundos vitais para a Ucrânia - um país que luta contra separatistas pró-Rússia - para tentar encontrar irregularidades de seu rival político nos Estados Unidos.

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O presidente americano descreveu sua conversa com o presidente ucraniano como "totalmente apropriada" e disse que não há "um quiprocó" envolvendo a ajuda americana para a Ucrânia e a investigação sobre os Biden. Mas, embora a questão tenha colocado Zelenski em uma situação desconfortável, ele não anunciou novas investigações sobre Biden ou seu filho.

Na verdade, durante seu telefonema com Trump em julho, Zelenski disse que o novo governo ucraniano tinha uma política de não intervir no sistema de justiça criminal do país, segundo um assessor presidencial, Andri Yermak.

Yermak, que discutiu a ligação durante uma entrevista em agosto - antes da conversa se tornar um foco de investigações do Congresso nos Estados Unidos - disse que já havia transmitido a mesma mensagem a Giuliani, que pressionava abertamente as autoridades ucranianas a investigar Biden.

"Eu sei que Zelenski, em conversa com Trump, disse o mesmo: que o princípio do novo governo da Ucrânia é a abertura, o respeito à lei e nenhum tipo interferência do governo no sistema judicial", disse Yermak sobre o telefonema entre os dois presidentes.

A polêmica colocou Zelenski - que deve se reunir com Trump nesta quarta-feira à margem da Assembleia-Geral das Nações Unidas - no centro da polêmica que se tornou o impasse entre Trump e os democratas do Congresso querem tira-lo do cargo.

Em interações anteriores entre autoridades ucranianas e americanas, Washington havia dado instruções para seus colegas de Kiev sobre a importância de acabar com a influência política nos tribunais do país, um problema na maioria das ex-repúblicas soviéticas. Essa prática tem até um nome - "justiça telefônica" -, que se refere às ligações clandestinas feitas por políticos a promotores e juízes.

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Neste caso, porém, os papéis foram trocados, mas o novo governo ucraniano não cedeu às pressões de Trump, segundo um diplomata ocidental de alto escalão com base em Kiev que tem conhecimento das iniciativas de Trump e Giuliani em relação ao governo europeu.

Ainda segundo essa fonte, os encontros com Trump e Giuliani deixaram Zelenski e seus assessores um pouco chocados.

A pressão de Giuliani por uma investigação sobre Biden começou antes da posse de Zelenski em maio, colocando o novo governo em uma posição difícil, disse Serhi Marchenko, vice-chefe de gabinete do ex-presidente da Ucrânia.

"Se ajudarmos o governo Trump em algum processo que prejudique Biden, a longo prazo prejudicaremos as relações com os democratas", disse Marchenko. "Se ajudamos os democratas, irritaremos Trump."

Giuliani pressionou os ucranianos a investigar o filho mais novo de Biden, Hunter, que fazia parte do conselho de uma empresa de energia ucraniana, Burisma, e também as ações do ex-vice-presidente.

Os aliados de Trump argumentam que Biden tentou proteger a empresa quando pediu que o principal promotor da Ucrânia - que havia investigado a companhia - fosse demitido em 2016.

Pessoas familiarizadas com o telefonema de Trump com Zelenski em julho disseram que o presidente dos EUA insistiu várias vezes para que ele conversasse também com Giuliani.

Zelenski inicialmente rejeitou os apelos de Giuliani por uma reunião sobre uma investigação de Biden.

Depois disso, o principal assessor do ucraniano, Yermak, disse que ligou para Giuliani para transmitir a resposta do governo, que era essencialmente a sua promessa da campanha de não interferir no sistema de justiça do país.

Após o telefonema em 25 de julho entre Zelenski e Trump, Yermak disse que se encontrou com Giuliani em Madri. Na entrevista de agosto, Yermak disse a Giuliani que o novo governo em Kiev "garantiria a todos dentro do país e aos cidadãos e empresas estrangeiros uma justiça aberta e honesta".

Yermak disse que explicou que, sob o novo governo, o sistema de justiça seria justo e aberto para investigar possíveis crimes, mas que o governo não iria intervir.

Giuliani, no entanto, disse deixou de falar com Yermak "bastante confiante de que eles iriam investigar" Biden.

Agora que esses contatos se tornaram um ponto no debate no Congresso americano sobre a conduta de Trump, Zelenski e os membros de seu governo deixaram de falar sobre o caso. Yermak e outras autoridades recusam dar entrevistas, aparentemente para não serem envolvidos na batalha política cáustica americana.

É provável que a questão da corrupção volte à tona na reunião com Trump nesta quarta. Como se quisesse ressaltar o tema, Zelenski postou um vídeo na internet antes de partir para as Nações Unidas que pedia aos ucranianos que ligassem para um telefone especial do governo se algum funcionário público solicitasse propina.

"A Ucrânia é uma democracia muito jovem, como uma criança", disse Daria Kaleniuk, diretora do Centro de Ação Anticorrupção. “Os Estados Unidos são adultos. Mas às vezes as crianças se comportam como adultos e os adultos como crianças. ”

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