Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Quem está fazendo as máscaras onipresentes de Hong Kong?

Para garantir que os trabalhadores da cidade tenham máscaras suficientes, um exército de prisioneiros trabalha 24 horas por dia

Elaine Yu, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 14h42

HONG KONG - Quando chegou a notícia de que um novo vírus perigoso estava matando pessoas na China continental, o povo de Hong Kong entrou em ação. Praticamente da noite para o dia, escolas foram fechadas, cartazes apareceram pela cidade lembrando os moradores a lavar as mãos e, aparentemente, todos na rua estavam usando uma máscara facial.

Enquanto o Ocidente debatia a eficácia das máscaras, os moradores de Hong Kong, atingidos pelo surto mortal de SARS há 17 anos, depositaram sua confiança nelas. Desde o início da pandemia, apenas quatro pessoas em Hong Kong, uma cidade de 7,5 milhões de habitantes, morreram em decorrência da covid-19.  

Mas por trás das máscaras onipresentes existe uma verdade que nem todos aqui sabem: milhões de máscaras cirúrgicas de Hong Kong são produzidas por prisioneiros, alguns dos quais trabalham até tarde da noite por meros centavos. 

A prisão de segurança média de Lo Wu, localizada perto da fronteira com a China continental, produz máscaras 24 horas por dia desde fevereiro, quando o governo de Hong Kong aumentou a produção para abastecer o exército de trabalhadores médicos, de saúde pública e saneamento da cidade.

Trabalhando dia e noite, os presos, juntamente com agentes aposentados e de folga que oferecem seu tempo, agora produzem 2,5 milhões de máscaras por mês, contra 1,1 milhão antes do surto.

O trabalho nas prisões 

Uma presa, Yannis, foi designada para colocar argolas elásticas nas frentes das máscaras, seis dias por semana, da meia-noite até o nascer do sol. Libertada no mês passado depois de completar uma sentença de dois anos por roubo, pediu para ser identificada apenas pelo seu primeiro nome, por medo de represálias. 

O trabalho nas prisões em Hong Kong é oficialmente anunciado como uma oportunidade para os reclusos realizarem um "trabalho útil" que ajuda a reabilitá-los e "reduz sua ociosidade e tensão". Mais de 4 mil internos produzem sinais de trânsito, uniformes da polícia, roupas de hospital e material de escritório para o governo todos os anos.

Tais bens foram avaliados em US$ 57 milhões em 2018, segundo as autoridades, que disseram que o programa tinha o "benefício incidental de economizar dinheiro público". O Departamento de Serviços Correcionais da cidade disse que os presos que trabalhavam durante a noite ou em turnos adicionais o faziam "voluntariamente" e recebiam salários mais altos.

Yannis disse que ganhava US$ 4,30 por dia, ou US$ 0,61 por hora - o equivalente a cerca de um oitavo do salário mínimo legal de Hong Kong. Quem trabalha à noite também tem uma hora de pausa. Yannis disse que seus poucos salários voltaram à prisão. Os presos costumam gastar sua renda em necessidades como condicionador de cabelo, absorventes menstruais e papelaria.

'Problemático'

Law Yuk-kai, diretor do Monitor de Direitos Humanos de Hong Kong, que monitora as condições das prisões da cidade, disse que é "problemático" contar com esse trabalho para atender às necessidades urgentes da sociedade.

"As pessoas devem ser obrigadas a trabalhar ou receber treinamento na prisão somente se estiver relacionado à reabilitação", disse Law. Ele acrescentou que as autoridades não devem pagar aos presos salários "desprezíveis" quando estiverem "acelerando a produção para atender às nossas necessidades".

Law disse que sua organização recebeu um relatório sobre um preso que se sentiu obrigado a trabalhar apesar de se sentir mal. "Isso é exploração por natureza, especialmente quando a distribuição de renda e trabalho é tão extrema", disse Shiu, um parlamentar que representa o setor de bem-estar social da cidade. 

Shiu, que ficou preso oito meses no ano passado por seu papel nos protestos pró-democracia de 2014, disse que trabalhava em uma fábrica de roupas de uma prisão ganhando até US$ 0,57 por hora. "O que os trabalhadores recebem é muito, muito pouco. É humilhante", disse ele.

Tudo o que sabemos sobre:
Hong Kong

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.