Quem lucra com a paz no Oriente Médio

EUA já não têm tanto interesse na região, que passou a abastecer China e Sudeste Asiático com seus insumos

É ECONOMISTA, ESCRITOR, DANIEL, ALTMAN, FOREIGN POLICY , É ECONOMISTA, ESCRITOR, DANIEL, ALTMAN, FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2013 | 02h03

Houve um período em que o conflito entre israelenses e palestinos produzia manchetes diárias nos jornais e os Estados Unidos travavam guerras para proteger o petróleo e o gás no Oriente Médio. Naquela época, os problemas políticos da região eram de crucial importância econômica para os americanos. Mas hoje, com a perspectiva de uma independência energética do país, o Oriente Médio realmente é importante para quem? Numa análise superficial, os interesses americanos continuam em jogo.

Treze anos depois do fracasso da reunião de cúpula de Camp David, as negociações entre Israel e a Autoridade Palestina são retomadas novamente em Washington. No entanto, muita coisa mudou desde 2000.

As importações mensais de petróleo bruto e outros produtos derivados do petróleo do Golfo Pérsico pelos EUA atingiram um pico de 96,7 milhões de barris em abril de 2001. Este ano, estão em torno de 50 e 60 milhões de barris. As importações de gás natural do Oriente Médio também são muito menores hoje do que em 2000, mas sempre foram superadas pelas importações de gás do Canadá. Mesmo o gás natural liquefeito - o mais importante produto de exportação do Catar e do Iêmen - é importado principalmente de Trinidad e Tobago. E, no geral, o volume das importações de gás natural vem caindo desde 2007.

Também no caso da União Europeia, as importações de petróleo do Oriente Médio não são hoje tão essenciais quanto já foram. Em 2001, cerca de 25% do petróleo importado pela UE vinha do Oriente Médio. No ano passado, somente 15% do produto foi comprado da região: Rússia e outros países da antiga União Soviética fornecem muito mais petróleo para a Europa atualmente.

Então, para onde vai o petróleo do Oriente Médio? São os países do Extremo Oriente que dependem dele. Por exemplo, a metade do petróleo importado pela China em 2011 foi proveniente do Oriente Médio. Mas, ainda assim, é uma cifra pequena em relação ao Japão, cujas importações de petróleo do Oriente Médio cobriram 87% das suas necessidades.

Naturalmente, o petróleo e o gás não são as únicas razões econômicas para os EUA se preocuparem com o Oriente Médio. O Canal de Suez, no Egito, ainda é uma passagem crítica para o comércio e a quantidade de carga que passa pelo local mais do que dobrou entre 2001 e 2002. Mas grande parte do tráfego não foi de viagens na direção dos Estados Unidos. Os maiores usuários foram navios de transporte do Sudeste da Ásia, da região do Mar Vermelho e norte da Europa.

A União Europeia recebeu 4,4% das importações vindas dos países do Golfo em 2012. Acrescentando Egito, Israel, Jordânia, Líbano, Síria e Turquia, o total chega a 8,3%, porcentagens que aumentaram nos últimos anos. Por outro lado, o comércio total da China com o Oriente Médio cresceu drasticamente: as importações chinesas triplicaram entre 2007 e 2011.

O intercâmbio comercial entre Estados Unidos e Oriente Médio é muito menor, embora tenha aumentado desde o colapso das negociações de Camp David. Em virtude, parcialmente, de novos acordos comerciais, a fatia das importações americanas de bens e serviços vindos da região subiu cerca de dois terços, de 3% em 2000 para 4,9% em 2012. A mudança está no fato de os novos acordos comerciais - e o comércio com o Oriente Médio, em geral - com frequência serem buscados por razões políticas.

Bahrein, Jordânia e Omã jamais foram parceiros comerciais decisivos para os Estados Unidos. E também não são necessariamente as fontes de importações mais economicamente rentáveis; outros países podem oferecer aos americanos produtos mais baratos com base nas mesmas regras comerciais favoráveis.

Mas o fortalecimento dos vínculos econômicos com o Oriente Médio sempre foi visto como um suporte útil das metas estratégicas, como proteger Israel, isolar o Irã e manter uma presença militar local. Assim, a importância do relacionamento econômico americano com o Oriente Médio tem sido mantido artificialmente.

O interesse americano dos EUA no Oriente Médio, porém, é ainda muito menor do que o da Europa ou da Ásia. Isso não impede os Estados Unidos de assumirem a maior parte do trabalho em campo na região, pelo menos publicamente. Mais uma vez, o mundo presencia o ritual do presidente americano e do seu secretário de Estado organizando uma conferência de paz entre israelenses e palestinos como se fosse uma nova estação da cruz a caminho do Gólgota. Nas Nações Unidas, autoridades americanas lamentam semanalmente a contínua carnificina na Síria. E os americanos lideram os esforços para pôr fim ao programa nuclear iraniano e tentam controlar os excessos do Exército do Egito.

Então, onde estão os europeus, chineses e japoneses? Eles podem estar ativos por trás dos bastidores, mas em público parecem mais oportunistas clássicos. Talvez considerem que têm pouco a ganhar com o envolvimento em conflitos cujas consequências econômicas têm sido amplamente restringidas. E podem também, como regra geral, assumir uma posição intervencionista menor do que os Estados Unidos. Mas, em termos econômicos, eles têm mais a perder no Oriente Médio do que os americanos - e o hiato entre esses interesses provavelmente vai aumentar.

Se essa última tentativa de Washington para unir palestinos e israelenses fracassar, poderá se passar muito tempo até um presidente americano tomar novamente a iniciativa. Guerra e frustração terão consequências nefastas e o imperativo econômico não está absolutamente claro. Para preencher o vazio, China, Japão e União Europeia poderiam formar uma nova coalizão de parceiros pela paz. Pode parecer demais imaginar esses três pesos pesados trabalhando juntos no Egito, na Síria ou em Jerusalém. Mas eles podem se permitir não agir nesse sentido? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.