Quem matou a esquerda israelense?

Guerra na Faixa de Gaza despertou sentimento de união nacionalista no país e deixou os pacifistas marginalizados

SHMUEL, ROSNER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2014 | 02h02

Quando meu pai nasceu na Palestina antes de o Estado de Israel ser estabelecido, menos de meio milhão de judeus vivia nesse território. Em 1949, um ano após o nascimento de Israel, o patamar de um milhão foi transposto e celebrado com um poema de uma importante personalidade literária da época. "É bom ser um milhão", escreveu Natan Alterman. Duas décadas depois, quando eu estava crescendo, o número mágico era "3 milhões". Em 2014, a contagem atingia mais de 6 milhões de judeus. Dez vezes o número de judeus na inauguração de Israel.

É curioso, portanto, acompanhar o mais recente e acalorado debate provocado por algumas ameaças de israelenses de abandonar o barco e deixar o país. O número de judeus israelenses cresceu, mas os israelenses ainda não superaram seu senso de apreensão demográfica.

Para israelenses educados, liberais, é fácil expressar sua frustração com o país e ganhar manchetes ao declarar sua intenção de partir. No ano passado, o público tagarelava sobre jovens israelenses que estavam se mudando para Berlim, de todos os lugares, em razão dos altos preços dos alugueis em Tel-Aviv. Agora, Israel é ameaçado de ser abandonado porque "é um lugar perigoso, que tira mais do que dá, por motivos que eu não aceito", como escreveu o colunista Rogel Alpher no jornal Haaretz na semana passada.

Essa ameaça é um cão que nunca morde. Alguns israelenses de esquerda se sentem ignorados e impotentes e, portanto, ameaçam partir, o que torna o restante dos israelenses ainda menos atentos a seus pontos de vista. (Por que escutaríamos os que nem sequer querem viver aqui?) Isso, por sua vez, faz os esquerdistas se sentirem ainda mais isolados.

A esquerda israelense enfrenta dificuldades, como a maioria dos esquerdistas admitiria - e a guerra em Gaza que terminou duas semanas atrás colocou ainda mais pressão sobre ela.

Durante a guerra, o sentimento israelense de unidade e propósito se intensificou, deixando os poucos adversários domésticos da guerra se sentindo marginalizados.

Depois da guerra, as coisas pioraram para a esquerda. Os eleitores agora parecem ainda mais obstinados em seu apoio às propostas políticas de direita. Segundo sondagens de opinião recentes, os partidos de direita estão se fortalecendo e o número de cadeiras da Knesset (o Parlamento) previsto para a atual coalizão de centro-direita disparou. Não menos significativo é o fato de que alguns conhecidos meus de esquerda admitiram em privado que ficaram abalados com a guerra e tiveram de reconsiderar algumas posições antigas. Sua discordância das políticas de direita continua, mas sua crença nas soluções propostas pela esquerda minguou.

Este é, sobretudo, um subproduto da região onde vivemos. Os israelenses olham para a vizinhança e instintivamente se aferram às suas armas. Mas há uma segunda razão, com frequência negligenciada, para a morte da esquerda israelense.

Durante muitos anos, a "comunidade internacional" foi a aliada mais importante da esquerda israelense. Quando israelenses estavam perdendo a fé no chamado processo de paz, uma esquerda minguante encontrava consolo no apoio constante de europeus e americanos liberais (americanos judeus inclusive). E quanto menos a esquerda conseguia convencer seus concidadãos israelenses a aderir a suas soluções, libertar prisioneiros palestinos ou congelar assentamentos, mais ela tendia a encontrar consolo no apoio internacional para pedir intervenção e pressão internacional sobre o governo de Israel.

E quanto mais a esquerda pedia uma pressão estrangeira sobre Israel, menos legítimas suas ações se tornavam aos olhos de israelenses não esquerdistas. A comunidade internacional, por sua vez, também estava interpretando erroneamente a situação. Líderes e formadores de opinião estrangeiros não perceberam que, ao apoiar uma esquerda marginalizada, eles estavam tornando a esquerda ainda menos influente.

Eles não perceberam que apoiar um campo político em declínio só diminuiria sua capacidade de influenciar as políticas israelenses.

Atores internacionais, em particular o presidente Barack Obama, pressionaram Israel, em parte por encorajamento da esquerda israelense.

O resultado foi desastroso para a Casa Branca: Israel perdeu a fé em Obama (e na maioria dos outros atores internacionais) e por isso ficou menos propenso a considerar suas recomendações ou testar suas propostas políticas.

A decepção foi a etapa lógica seguinte. No mês passado, o ex-diplomata Alon Liel escreveu: "Enquanto eu e meus amigos, os restos despedaçados do campo da paz israelense, depositávamos nossa confiança no presidente Barack Obama, agora ocorre que ele está confiando em nós para uma solução".

Liel e seus amigos cometeram o erro de pensar que forças externas obrigariam Israel a agir como eles queriam - em vez de perceber que numa democracia como Israel a principal missão de qualquer campo político é mobilizar concidadãos para sua causa.

Obama e líderes mundiais com igual mentalidade cometeram o erro de pensar que a melhor maneira de influenciar israelenses era pressionar seu governo - sem perceber que os israelenses respondem melhor a propostas políticas de líderes externos se eles tiverem uma dose de confiança naqueles líderes (as relações próximas e respeitosas de Israel com os ex-presidentes Bill Clinton e George W. Bush são a melhor prova de que os israelenses só escutam aqueles em quem confiam).

O encorajamento internacional à esquerda israelense foi fundamental para matá-la. O mundo exterior promoveu as visões impopulares de uma minoria política israelense, dando à esquerda um sentimento inflado de sua própria importância doméstica. Esta ilusão levou ao desespero e, depois, à alienação da sociedade tradicional israelense - resultando numa redução ainda maior do ímpeto político da esquerda.

Os israelenses podem ouvir opiniões de dissidentes. Estão acostumados a isso. Mas também querem confiar que seus dissidentes ainda fazem parte da família. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EDITOR DE POLÍTICA EM 'THE JEWISH JOURNAL' E PESQUISADOR EM THE JEWISH PEOPLE POLICY INSTITUTE

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