(Ivor Prickett/The New York Times)
(Ivor Prickett/The New York Times)

Quem são os curdos e por que a Turquia quer atacá-los?

Os curdos são o maior grupo étnico sem pátria do mundo, e vivem no Iraque, no Irã, na Turquia e na Síria; turcos enxergam 'ameaça terrorista' em grupo na fronteira com a Síria

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2019 | 12h20

Turquia prepara um ataque no norte da Síria para “limpar” a região dos “terroristas” que ameaçam sua segurança, afirmou nesta segunda-feira, 7, o ministro turco das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu. A informação foi divulgada após o anúncio dos Estados Unidos de que não iriam se opor a uma operação de Ancara contra uma milícia curda

Quem são os curdos?

Os curdos são o maior grupo étnico sem pátria do mundo. É um povo sem Estado que vive no Iraque, no Irã, na Turquia e na Síria. De origem indo-europeia, eles descendem dos medos da Pérsia antiga, que fundaram um império no século VII a.C.

Em sua maioria muçulmanos sunitas, com minorias não-muçulmanas e muitas vezes formações políticas e laicas, os curdos estão estabelecidos em uma área de cerca de meio milhão de quilômetros quadrados.

O número total de curdos varia dependendo da fonte, de 25 a 35 milhões de pessoas. A maioria vive na Turquia (12 a 15 milhões, 20% da população do país), à frente de Irã (cerca de 6 milhões, menos de 10%), Iraque (4,69 milhões, entre 15% e 20%) e Síria (mais de dois milhões, 15%).

Situados em zonas do interior, o povo curdo conseguiu preservar seus diferentes dialetos, suas tradições e um modo de organização baseado em clãs. Existem também importantes comunidades curdas no Azerbaijão, Armênia e Líbano, bem como na Europa, principalmente na Alemanha.

Por que a turquia quer fazer uma ofensiva contra os curdos?

Na Turquia, os curdos são a maior minoria étnica, mas enfrentam uma longa repressão estatal, incluindo proibição do idioma curdo. Em resposta, um forte movimento separatista ainda briga com as tropas turcas. Durante o conflito curdo-turco entre 1984 e 1999, mais de 40 mil pessoas – a maioria de civis curdos – foram mortas.

A luta da Turquia para conter os rebeldes curdos chegou até a Síria, onde os curdos são a maior minoria étnica. O povo curdo também enfrentou repressão estatal lá, mas dominou uma grande parte do norte da Síria durante sua guerra civil. Recentemente, a Turquia ameaçou atacar os separatistas curdos dentro da fronteira da Síria, mas os Estados Unidos intervieram, estabelecendo uma zona segura dentro da fronteira que empurra efetivamente os rebeldes curdos de volta à Síria.

Por que a Turquia se sente ameaçada?

As Unidades de Proteção do Povo (YPG, na sigla em árabe), é uma milícia curda apoiada pelos EUA na Síria, e o braço armado do PYD (Partido de União Democrática), um partido curdo fundado em 2003 para ser o braço na Síria do PKK, um grupo separatista curdo na Turquia, responsável por dezenas de atentados terroristas no território turco ao longo de décadas. 

Por isso o governo turco repudia o apoio de Washington ao grupo. Na visão turca, PKK e YPG/PYD são a mesma coisa. A Turquia considera os curdos do YPG na Síria terroristas. Já os Estados Unidos os viam como aliados para combater o o grupo jihadista Estado Islâmico (EI). Por causa da histórica parceria com os curdos na Síria, os americanos defendiam o grupo.

Até hoje, o PYD e o PKK mantêm boas relações, inclusive no campo militar. O governo em Ancara teme o estabelecimento de uma região autônoma controlada por um grupo que eles consideram terrorista no Norte da Síria ao redor de Afrin e também em outra área em Manbij. Na visão turca, seria o equivalente à Faixa de Gaza, governada pelo Hamas, para Israel.

Os turcos nunca aceitaram a existência de uma região autônoma curda, conhecida como Rojava, na Síria, mas a toleraram durante as operações para combater o EI.

Com a organização terrorista praticamente eliminada do território sírio, o governo Erdogan passou a se voltar mais uma vez contra os curdos, especialmente após o Pentágono afirmar que iria manter a presença militar americana para defender e treinar as “Forças Democráticas Sírias” (nome adotado por Washington para se referir ao YPG e a algumas outras milícias aliadas) e impedir o renascimento do EI na Síria.

Desde que o Estado Islâmico começou a perder território, os EUA enfrentam um dilema: seguir com o apoio aos curdos do YPG e correr o risco de uma confrontação com a Turquia; ou reduzir esta aliança com os curdos para não irritar o governo em Ancara, que é integrante da Otan e fundamental geopoliticamente para os americanos. 

O Pentágono preferia a primeira alternativa, e deixou claro na semana passada, quando criticou os planos turcos. Já a Casa Branca preferiu evitar uma crise com a Turquia.

Curdos não têm Estado

Os curdos perderam suas terras quando o Império Otomano assumiu controle da maior parte do território curdo nos anos de 1500. E a derrota do império na Primeira Guerra Mundial também foi ruim para os curdos. Sob o Tratado de Sèvres em 1920, que dissolveu o Império Otomano, os Aliados planejaram tornar o Curdistão autônomo. Pelo tratado, o Curdistão ficaria no Leste da península turca de Anatólia e na atual província iraquiana de Mossul. 

Porém, após a vitória de Mustafa Kemal na Turquia, os Aliados modificaram sua decisão e, em 1923, o tratado de Lausanne instaurou o domínio da Turquia, Irã, Reino Unido (no Iraque) e França (na Síria) sobre as populações curdas.

Os curdos, que nunca viveram sob um poder centralizado, estão divididos em vários partidos e facções entre os quatro países. Às vezes transfronteiriços, estes movimentos são antagonistas, em função principalmente dos jogos de alianças com os regimes vizinhos. 

Conflitos e revoltas

Os curdos, que reivindicam a criação de um Curdistão unificado, são percebidos como uma ameaça à integridade territorial dos países em que estão estabelecidos. Na Turquia, o conflito entre o governo e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foi retomado em 2015, acabando com as esperanças de uma resolução para esta crise que causou mais de 40 mil mortes desde 1984.

No Irã, confrontos esporádicos opõem as forças de segurança aos rebeldes curdos, cujas bases de retaguarda estão no Iraque. Após a revolução islâmica de 1979, ocorreu uma revolta curda que foi duramente reprimida. No Iraque, os curdos perseguidos pelo regime de Saddam Hussein se rebelaram em 1991 após a derrota do exército iraquiano no Kuwait e estabeleceram uma autonomia de fato, que foi legalizada pela Constituição iraquiana de 2005.

Na Síria, os curdos sofreram décadas de marginalização e opressão pelo regime por reivindicar o reconhecimento de seus direitos. Eles adotaram uma posição de "neutralidade" em relação ao poder e a rebelião no início do conflito em 2011, antes de aproveitar o caos gerado pela guerra para instalar uma administração autônoma nas regiões do norte do país sob seu controle.

Luta contra o Estado Islâmico

Na Síria, as forças curdas lideram a aliança das Forças Democráticas Sírias (FDS), que combatem o grupo Estado Islâmico (EI) com o apoio de uma coalizão drigida pelos Estados Unidos. A aliança lançou em novembro de 2016 a batalha para expulsar o grupo extremista de Raqqa, sua capital de fato no Norte do país. No Iraque, os combatentes curdos peshmergas também participam na luta contra os jihadistas./ AFP, REUTERS E NYT

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