Daniel Brenner/The New York Times
Daniel Brenner/The New York Times

Quem são os eleitores que veem Bernie Sanders como sua salvação

Apoiadores do senador enxergam nele uma opção para ter salários melhores, assistência médica gratuita e condições mais favoráveis para ir à universidade

Jennifer Medina e Sydney Ember / The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2020 | 10h04

PHOENIX, ARIZONA - "Essa é uma campanha da classe trabalhora, pela classe trabalhadora e para a classe trabalhadora!". O senador Bernie Sanders, de Vermont, quase gritou essas palavras para uma multidão na semana passada em Phoenix. Recebeu aplausos estrondosos - como sempre.

Em eventos de campanha no ano passado, Sanders falou com dezenas de milhares de pessoas que foram ouvir sua mensagem de revolução política - e passaram a imaginar um país com assistência médica universal, sem dívidas estudantis e um salário mínimo de US$ 15 por hora. Quase todas as frases que ele diz no palco recebem aplausos. Com todas as promessas e propostas, a multidão se torna um mar de placas azuis e brancas com o logotipo "Bernie". 

A campanha de Sanders expôs uma divisão de classe dentro do Partido Democrata: suas promessas são atraentes para quem precisa e frustrantes para quem não precisa. 

Mais seis Estados vão às urnas nesta terça, 10, no que é agora um confronto direto na corrida presidencial democrata entre Sanders e o ex-vice-presidente Joe Biden. O caminho para Sanders retomar a liderança de delegados é mais difícil agora do que era há uma semana, mas independente de como se saia nessas primárias, o senador angariou um número grande de eleitores que querem e esperam mais de seu partido, de seu governo e de seu país.

É assim que Audrey Yanos vê Sanders e o atual momento político. Administradora médica de 39 anos, ela votou no candidato democrata em todas as eleições presidenciais em sua vida adulta. Mas Yanos tem suspeitas: esses democratas, ela acredita, nunca fizeram tanto para cumprir a promessa do sonho americano. Ela começou a sentir que o país traiu pessoas como ela.

Para ela, Sanders é diferente. "Estamos lutando o tempo todo e o que temos não está funcionando", disse ela semana passada. "Precisamos de alguém que entenda isso." 

Sentimento 

Esse sentimento - que Sanders entende a catástrofe que está surgindo para tantas pessoas e que tantos outros políticos não - é central para os seus apoiadores e crucial para entender para onde esses eleitores podem se virar se Sanders não for o candidato. Se o Partido Democrata quiser manter esses eleitores engajados e comprometidos, terá de falar mais diretamente com eles e atender melhor às suas necessidades.

Muitos de seus apoiadores sabem como é lutar de uma maneira ou de outra. Eles precisam de medicamentos controlados, mas não podem pagar. Eles estão enterrados em uma implacável dívida estudantil. Eles fazem malabarismos com os cuidados de pais ou filhos pequenos doentes - ou ambos. Eles querem vidas melhores, vidas mais estáveis ​​e precisam de ajuda.

Quando Sanders pede às pessoas em que contem suas histórias, suas vozes às vezes tremem. Às vezes há lágrimas. Yanos foi a primeira pessoa da família a frequentar a faculdade. Ela se considera sortuda porque uma bolsa de estudos pagou a matrícula e livros, então se formou com cerca de US$ 25.000 em dívidas, que pagou no ano passado. Financeiramente, ela está muito melhor do que seus pais quando criança. No entanto, não vê evidências de uma economia em expansão em sua própria vida.

"Olho em volta e vejo tantas outras pessoas mal aguentando", disse Yanos, escondendo as lágrimas enquanto seus filhos faziam a lição de casa na mesa da cozinha. "Não que eu ache que tudo será um arco-íris e luz do sol se ele for eleito, as coisas não mudarão da noite para o dia. Mas as pessoas mais jovens que eu vão exigir mudanças".   

Mudanças radicais na campanha 

Tudo parecia indicar o sucesso de Sanders antes da semana passada. Ele terminara no topo das primárias em Iowa e New Hampshire, depois foi bem em Nevada. Mas, na Superterça, o crescimento de Biden praticamente extinguiu esse momento, com o ex-vice-presidente ganhando 10 dos 14 Estados. E com o apoio de muitos eleitores negros da classe trabalhadora.

Biden e Sanders estão agora entrando nas primárias em Michigan e em outros grandes Estados do Centro-Oeste favoráveis ​​de várias maneiras ao ex-vice-presidente. Mas Sanders também tem bastante apoio nesses Estados, principalmente dos eleitores brancos da classe trabalhadora. 

Em suas duas propostas para a Casa Branca, Sanders mostrou que sua mensagem populista ressoa em alguns locais, mesmo quando repele grande parte do establishment democrata, que se alinha constantemente a Biden. Os comícios de Sanders geralmente se assemelham a shows de rock, atraindo dezenas de milhares de pessoas que aparecem enfeitadas com roupas de campanha, com camisetas que proclamam "Unidos com Bernie" e letreitos dizendo "Não eu, Nós". 

Apoio muda em diferentes faixas de renda 

Pesquisas durante a campanha mostraram Sanders atraindo seu apoio mais forte dos eleitores com renda familiar abaixo de US$ 50.000 por ano. E seus números diminuem à medida que a renda aumenta. Há um mês, quando ele liderava as pesquisas, pessoas com renda familiar de US$ 50.000 ou menos apoiavam Sanders duas vezes mais do que qualquer outro candidato. Naquela época, ele teve apoio da maioria dos eleitores democratas que ganhavam menos de US$ 100.000.

As pesquisas da Superterça não perguntaram diretamente aos entrevistados sobre sua renda. Mas nos três Estados em que ele venceu e as pesquisas de opinião foram conduzidas - Colorado, Vermont e Califórnia -, Sanders teve um desempenho de cinco a oito pontos porcentuais melhor entre aqueles sem diploma universitário do que aqueles que foram para a universidade. Em Massachusetts e Minnesota, os dois Estados em que ele esperava vencer, mas acabou perdendo decisivamente para Biden, o apoio de Sanders entre os graduados ficou abaixo de dois dígitos.

"Bernie é o único candidato com quem já senti uma conexão, no sentido de que ele realmente se importa com a classe trabalhadora de uma maneira que nenhum outro candidato jamais tenha demonstrado", disse Andrew Hilbert, 26, que veio ver Sanders em Phoenix.

O apoio de Sanders este ano se mostrou particularmente forte no Oeste, onde muitas comunidades permanecem visivelmente marcadas pela Grande Recessão. E seu foco na classe trabalhadora ajuda a explicar parte de seu apelo aos eleitores latinos, que são desproporcionalmente jovens e têm maior probabilidade de ter origem na classe trabalhadora. Muitos desses eleitores acreditam que a única maneira de criar uma economia justa é mudar drasticamente a maneira como a atual funciona. 

"Tivemos décadas de políticas que falharam em atender às nossas necessidades e precisamos quebrar esse ciclo", disse Antonio Arellano, diretor executivo da Jolt, um grupo no Texas que se concentra na divulgação de jovens eleitores latinos e que endossa Sanders. "O que estamos vendo pela primeira vez é a coragem de romper com o passado e construir radicalmente o futuro". 

Tendo passado a vida em Orange County, Califórnia, Rita Xochitl Estrada, uma instrutora de fitness de 39 anos e estudante da California State University, em Fullerton, viu inúmeros exemplos de extrema riqueza e extrema pobreza. Ela se autodenomina socialista “romântica, mas pragmática”, e disse que não estava tão otimista quanto a Sanders vencer a primária, sem falar na presidência. Sua maior esperança, disse ela, é que ele esteja iniciando uma nova era da política, com mais foco nos pobres.

"Se ninguém insistir, nunca chegaremos lá, e é por isso que ainda estamos presos do jeito que estamos", disse Estrada. Ela foi às urnas com seu filho de 21 anos, que também votou em Sanders. Como outros apoiadores latinos do senador de Vermont, Estrada se vê como parte de um movimento que permanecerá, seja qual for o destino político dele. "Este é um país que deseja que a atual estrutura de classes permaneça no lugar, e é realmente difícil lutar contra isso".

Muitos apoiadores apontam a oposição de Sanders à guerra do Iraque como a questão inicial que os levou à sua órbita. Depois de assistir a muitos amigos ingressarem nas Forças Armadas como um caminho para a classe média e voltarem com lesões mentais e físicas traumáticas, eles estão profundamente céticos em relação à intervenção americana no exterior, como Sanders tem sido por toda a sua carreira. 

Valores

Originalmente de El Salvador, Ruth Trujillo-Acosta, 59, e seu marido, Gustavo Acosta, 61, se preocupam em se aposentar por medo de não terem economias. Eles temem que seus filhos nem pensem na faculdade, porque é muito caro. Os dois foram para a faculdade quando adultos, mas ainda têm empréstimos para pagar.

Os dois agora vivem em Holyoke, no oeste de Massachusetts. Ela é uma clínica de saúde mental. Ele é conselheiro acadêmico de uma faculdade comunitária. Eles se consideram independentes, mas são inequívocos em apoiar Sanders. Ruth Trujillo afirmou que Sanders pode não ser capaz de executar todas as suas propostas de política. "Não acho que ele fará uma revolução completa imediatamente", disse ela, mas afirmou que ele pelo menos deu esperança, e vale a pena tentar. "Nossos valores estão com esse cara". 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.