Oksana Parafeniuk/ The Washington Post
Oksana Parafeniuk/ The Washington Post

Quem são os voluntários ucranianos treinando para combater russos nas ruas de Kiev

Há três anos, reservistas se reúnem aos fins de semana como parte do 130º batalhão de defesa territorial da Ucrânia, preparando-se para uma eventual ofensiva de Moscou

David L. Stern, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2022 | 15h00

KIEV, Ucrânia - Em todo fim de semana dos últimos três anos, os reservistas do 130º batalhão de defesa territorial da Ucrânia se reúnem em florestas e parques nos arredores de Kiev para treinar para o pior: uma possível invasão em grande escala da Rússia.

Em geral, parecia uma perspectiva improvável. Tudo mudou de repente com as tropas de Moscou concentradas na fronteira e os ucranianos se perguntando o que farão - lutar, fugir, esconder-se, adaptar-se - caso as forças russas cheguem até a capital do país.

O 130º batalhão de Kiev é uma das muitas unidades de reservistas na Ucrânia. No caso de um ataque, o governo ucraniano planeja fornecer armas para todos. No momento, a maioria dos membros obteve a sua própria arma. Quem não tem armas treina com réplicas de madeira.

O The Washington Post conheceu alguns dos cerca de 500 membros do batalhão durante seus recentes exercícios de táticas militares e defesa de instalações estratégicas.

Oleksiy Bida, 47 anos

Oleksiy Bida, designer gráfico, juntou-se ao 130º batalhão das Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia como reservista voluntário há dois anos. Em um sábado recente, o treinamento deles ocorreu no prédio de uma antiga fábrica e na floresta ao redor.

Bida é da cidade de Luhansk, no leste da Ucrânia. Em 2014, depois que a Rússia anexou a península da Crimeia, insurgentes apoiados pelo Kremlin tomaram parte dela e de regiões vizinhas de Donetsk.

Eles prenderam Bida, que era um ativista pró-ucraniano, e o mantiveram em um porão, onde o torturaram, disse ele. Logo depois, ele e sua esposa, Yulia, fugiram para Kiev. Sete meses atrás, os dois tiveram seu primeiro filho, Simon.

Bida disse que depois de suas experiências em Luhansk e se mudar para Kiev, ele teve problemas para dormir. “Eu não tinha nenhuma sensação de segurança”, disse ele.

Dois anos atrás, ele conheceu um membro do 130º batalhão de defesa em uma festa de Ano Novo e decidiu se juntar ao grupo. No batalhão, disse ele, trabalhou com pessoas que estavam prontas para defender “suas famílias, casas e cidades”.

Isso restaurou sua sensação de bem-estar. “Não tenho dificuldade para dormir”, disse Bida, agora líder de unidade na 130ª que supervisiona até 12 combatentes.

Bida se formou como designer gráfico e por muito tempo foi um pacifista comprometido.

“Pensei que qualquer conflito poderia ser resolvido por meios pacíficos”, disse ele. “Mas eu não acredito mais nisso - não com a Rússia.”

Maryana Zhaglo, 52 anos

Maryana, pesquisadora de mercado, disse que o batalhão de defesa é uma oportunidade “para não ficar no banco de reservas”.

Como muitos dos voluntários, ela participou dos protestos de 2014 no país que derrubaram o presidente Viktor Yanukovich e seu governo, que eram vistos como corruptos e pró-russos. Yanukovich e vários de seus ministros fugiram para a Rússia.

Durante a revolução de 2014, os manifestantes construíram uma cidade de tendas na praça central de Maidan, em Kiev, com refeitórios, postos de primeiros socorros e até uma capela. Eles também se organizaram em unidades de autodefesa caso os oficiais tentassem liberar a praça à força.

Após a tomada da Crimeia pela Rússia e o início da guerra no leste da Ucrânia, Maryana procurou uma maneira de se envolver.

“Quando a agressão russa começou, era impossível fazer como fizemos em Maidan - colocar um capacete e vir até a praça, certo?” disse ela, lembrando-se da facilidade com que se juntou aos protestos.

Dois anos atrás, um amigo que se juntou ao batalhão a trouxe para um de seus exercícios de treinamento. "Aconteceu por acidente", disse ela.

Maryana, que tem duas filhas crescidas com suas próprias famílias e um filho ainda na escola, disse acreditar que é possível que o presidente russo, Vladimir Putin, decida não lançar um ataque contra a Ucrânia.

“A situação está mudando a cada dia”, disse ela. “Especialistas estão chegando, a comunidade mundial está nos fornecendo armas e tudo é possível.”

“Acho que agora essa ajuda que a Ucrânia recebe de todo o mundo ainda desempenhará seu papel e a Rússia, talvez, não se atreva”, disse ela.

Iaroslav Brezytskyi, 44 anos

Brezytskyi, consultor de negócios que ajuda empresas a atualizar seus métodos de gestão, ingressou no batalhão de defesa territorial há três anos, depois de visitar a unidade quando os membros praticavam com armas em um dos dias designados de exercícios com munição real.

“Percebi que isso é exatamente o que eu preciso. Posso ser civil e ganhar dinheiro para minha família, pagar impostos, e ao mesmo tempo ajudar como voluntário no Exército e adquirir conhecimento militar”, disse ele. “Esse foi o dia em que me juntei à defesa territorial mentalmente.”

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O batalhão também ofereceu a Brezytskyi uma maneira de não se sentir marginalizado. “Antes de entrar, eu não conseguia me livrar da sensação de que não estou envolvido na guerra de libertação da Ucrânia contra a Rússia”, disse ele. “Agora, ao longo destes três anos, temos formação semanal, adquirimos novos conhecimentos e know-how.”

“Espero que todos se tornem úteis, se a Rússia continuar aumentando suas ações na Ucrânia”, disse ele.

Brezytskyi disse que comprou sua própria arma, um rifle semiautomático estilo AR-15 fabricado nos EUA, por cerca de US$ 800 (aproximadamente R$ 4.310).

“Cada combatente tenta se munir de sua própria arma, mas não é barato e nem todos podem pagar”, disse ele.

Ao todo, ele disse, ele gastou “aproximadamente” entre US$ 1.700 e US$ 2.100 em armas e equipamentos. Mas alguns itens, como coletes à prova de balas com placas de cerâmica em vez dos de metal, menos eficazes, são “mais um sonho do que realidade”.

“É muito difícil, claro. A prioridade é a saúde dos pais, entes queridos, sua esposa e filhos, suas necessidades”, disse. “Se houver uma guerra, vamos lutar com o que temos.”

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