EFE/ Neil Hall
EFE/ Neil Hall

Quem se beneficiaria com a morte do ex-espião russo Skripal?

Para alguns analistas, situação seria favorável para a Rússia e para Vladimir Putin, além de servir de aviso para agentes secretos que pensam em trair o país; para outros especialistas, porém, acusações contra Moscou não passam de piada

O Estado de S.Paulo

07 Março 2018 | 16h02

LONDRES - Muito analistas acreditam na participação de Moscou no envenenamento no Reino Unido do ex-espião russo Serguei Skripal e de sua filha Yulia, ambos internados em estado grave desde domingo, embora a investigação ainda esteja em seus primeiros estágios. 

Ex-espião russo sofreu tentativa de assassinato com agente nervoso, diz polícia britânica

"Atacar um espião que foi trocado por outro, assim como a um membro de sua família, é algo novo", disse Bruce Jones, especialista em Rússia do centro de estudo militar britânico Jane's Defence.

Segundo Jones, Moscou teria muitas vantagens com a morte de Skipal: "pode servir como um castigo, como uma advertência para quem pensar em trair (o país) e pode ser uma forma de desestabilizar o Reino Unido, muito hostil à Rússia".

Para os críticos do Kremlin e do presidente russo, Vladimir Putin, os motivos estão claros. "O veneno é o método favorito do FSB (o serviço de inteligência russo)", afirmou Yuri Felshtinsky historiador próximo a Alexander Litvinenko, ex-agente secreto russo envenenado com polônico em 2006, em Londres.

Chanceler britânico ameaça boicote diplomático à Copa da Rússia após envenenamento de espião

De acordo com as conclusões da investigação oficial deste caso, a morte de Litvinenko foi um assassinato "provavelmente aprovado" por Putin.

"No contexto da eleição presidencial russa, (o ataque a Skripal) tem a marca de um assassinato de Putin. É um aviso do FSB que todo traidor será perseguido e assassinado", disse Felshtinsky, segundo declarações reproduzidas pela agência britânica Press Association.

"É também uma advertência a todos os opositores políticos que consideram seriamente desafiar o presidente", completou o historiador.

Bill Browder é um gestor de fundos de investimento britânico que promoveu uma leia americana para impor sanções aos russos culpados por violações de direitos humanos. A iniciativa foi uma resposta à morte de um de seus empregados em uma cadeia moscovita em circunstâncias pouco claras.

"Putin faz isso para o efeito de demonstração. Ele precisa manter o mundo todo aterrorizado, mas não tem que matar todos, apenas algumas poucas pessoas, para deixar muito claro que algo terrível acontecerá com quem atravessar seu caminho", explicou Browder.

Reino Unido vulnerável

Para Browder, no entanto, o ataque a Skripal não tem relação com a votação presidencial russa no dia 18 porque Putin "está seguro de sua popularidade". 

Investigador do ‘Russiagate’ interrogou ex-espião que produziu dossiê sobre Trump na Rússia

Bruce Jones acredita que o motivo pelo qual o Reino Unido foi escolhido para o ataque é que "está em uma posição vulnerável, alguns duvidam da liderança de Theresa May e o país entra em uma fase crucial do Brexit com um governo fraco".

Segundo Browder, o motivo é a fraca reação britânica ao assassinato de Litvinenko. Dez anos depois, "quando um juiz da Suprema Corte (britânica) determinou que se tratou de um assassinato organizado a partir da Rússia, o governo não fez nada. Esta inação foi um convite a Putin para matar neste país".

Alguns analistas russos também vem a mão do Kremlin no caso de Skripal. Pavel Felguengauer, analista do jornal Novaya Gazeta, disse "não ter dúvida de que (o ataque) foi cometido seguindo ordens de Moscou porque ninguém mais poderia estar interessado (na morte do ex-espião)".

"Entra nas tradições do FSB. Sempre pensaram e continuam pensando que é preciso castigar os traidores para manter a disciplina nas fileiras dos serviços de segurança", diz Felguengauer.

Um aventureiro

Outros, no entanto, colocam em dúvida a teoria que culpa a Rússia pelo caso, como Mijail Liubimov, antigo agente secreto moscovita e escritor. "Toda essa história das acusações contra Moscou é uma piada", disse Liubimov.

"Quem é Skripal? Para quem ele é importante? Já foi alvo de intercâmbio que é o mesmo que ser anistiado. Se quisessem tê-lo matado o teriam feito aqui, mas o libertaram", argumentou.

Alexander Golts, analista militar russo, acredita que "não devemos esquecer que pessoas como Skripal têm um espírito aventureiro, ninguém sabe em que aventura ele poderia se meter na Grã-Bretanha". / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.