Quem somos nós?

Expansão do Estado Islâmico força os muçulmanos sunitas a fazer uma dolorosa reflexão sobre os laços que os unem

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2014 | 02h02

O ataque terrorista do 11 de Setembro, perpetrado por 19 jovens, em sua maioria sauditas, em nome do Islã, provocou um debate no mundo árabe sunita sobre religião e como suas sociedades poderiam ter produzido fanáticos suicidas. Esse debate, no entanto, foi logo abafado pela negação e pela fracassada invasão do Iraque pelos Estados Unidos.

Conversas aqui em Dubai, um dos grandes cruzamentos árabe/muçulmanos, deixaram claro que a ascensão do califado que o Estado Islâmico (EI) tenta impor no Iraque e na Síria, bem como o tratamento bárbaro dos seus adversários - sunitas ou xiitas moderados, cristãos, outras minorias e mulheres - reviveram esse debate central sobre "quem somos nós"?

Por quê? Porque o EI (ou Isil, sigla pela qual o grupo era conhecido) é local. Seu objetivo não é atacar inimigos distantes, mas espalhar e impor sua visão de uma sociedade islâmica aqui e agora. Eles querem atrair jovens muçulmanos de todos os lugares, até do Ocidente. Sua ideologia é uma mutação violenta do islamismo wahabita puritano e não pluralista, a tendência dominante na Arábia Saudita, e está sendo transmitida via Twitter e Facebook - os pais de Dubai sabem - diretamente para seus filhos. É por isso que o EI está forçando um inevitável e doloroso olhar no espelho.

"Não podemos mais evitar essa luta - estamos num trem a caminho de um abismo", disse Abdullah Hamidaddin, consultor do Al-Mesbar Studies & Research Center, de Dubai, que monitora movimentos islâmicos e trabalha para promover uma cultura mais pluralista.

O mais chocante, porém, é o quanto o Al-Mesbar não vê o EI como um problema religioso que precisa ser combatido com uma narrativa islâmica mais inclusiva, mas como um produto de todos os problemas que afligem simultaneamente essa região: subdesenvolvimento, sectarismo, educação defasada, repressão sexual, falta de respeito por mulheres e falta de pluralismo em todo o pensamento intelectual.

Rasha al-Aqeedi é uma editora iraquiana de Mossul que trabalha no Al-Mesbar. Ela esteve em contato com pessoas de Mossul desde que o EI tomou a cidade. Corre que a população muçulmana sunita de Mossul "agora despertou do choque", ela me contou. "Antes, as pessoas diriam: 'O Islã é perfeito e o mundo exterior está nos perseguindo e nos odeia'. Agora as pessoas estão começando a ler os livros que o EI usa como base. Sei de pessoa que dizem: 'Acho que vou me tornar ateu'."

Ainda segundo Rasha, quando um jovem que não passou da sexta série entra no EI e depois "vai dizer a uma professora na universidade o que ela deve ensinar e como deve usar um vestido longo, você pode imaginar o choque. Eu ouço pessoas dizendo: 'Não vou à mesquita rezar enquanto eles estiverem aqui. Eles não representam o Islã. Representam o Islã antigo que jamais mudou'".

Além dos fanáticos religiosos, o EI abriga muitos aventureiros e jovens empobrecidos atraídos simplesmente para poder dominar outros. Muitos sunitas que se apressaram em se unir ao EI em Mossul vieram da cidade próxima mais pobre de Tal-Afar, cujos cidadãos sempre foram desprezados pelos sunitas de Mossul.

"Esses rapazes (de Tal-Afar) fumam, bebem e têm tatuagens", disse Rasha. Um deles que entrou no EI procurou alguém que eu conheço e já cobre a cabeça com um hijab - mas não o rosto - e lhe disse para usar uma burca e cobrir tudo. Ele disse: "Se não usar a burca, posso lhe garantir que uma das mulheres rurais - que pessoas como você ridicularizaram - virá e lhe dará uma surra".

"Pessoas são atraídas para a religião moderada antes de mais nada porque elas próprias são moderadas", argumenta Hamidaddin. "Pessoas são atraídas para ideologias religiosas extremistas" porque o contexto social e econômico distorcido em que vivem produz uma atração por soluções holísticas (essa é uma das razões pelas quais os muçulmanos paquistaneses tendem a ser mais radicais do que os muçulmanos indianos).

Uma reforma religiosa ajudaria, disse Hamidaddin. "Mas foi a completa deterioração da situação econômica, política e de segurança (no Iraque e na Síria) que pediu uma interpretação do mundo nítida, preto e branco. Uma política (governamental) correta é necessária para se contrapor a isso."

Maqsoud Kruse dirige o Hedayah International Center, com sede nos Emirados Árabes, que se contrapõe ao extremismo violento. Ele concluiu que para forçar o recuo do "EI-ismo" será preciso um investimento de longo prazo para capacitar e educar cidadãos árabes para competir e prosperar na modernidade. Somente pessoas da própria região podem fazê-lo porque esse é um desafio ao poder público, à educação e ao empenho dos pais.

"Aquele terrorista suicida pode decidir não apertar o botão e nosso trabalho é compreender como podemos ajudá-lo a decidir não apertar o botão, a torná-lo informado, consciente e racional, em vez de abrir mão dele", disse Kruse. "Tem tudo a ver com a maneira como equipamos e apoiamos nossos jovens e os impedimos de ser alguém que diz: 'Eu tenho a verdade'". Precisamos que eles tenham a "capacidade de desconstruir ideias e ser imunes e resistentes" ao extremismo. Tem tudo a ver com "a maneira como os levamos a parar e pensar" - antes de agir. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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