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Quer se vacinar?

O Peru passa por um momento difícil, mas o novo julgamento de Fujimori é uma boa notícia

Mario Vargas Llosa*, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2021 | 03h00

A imprensa europeia fez eco à notícia procedente do Peru de que a procuradoria peruana apresentou esses dias uma denúncia penal contra o ex-presidente Alberto Fujimori e três ministros da Saúde de seu regime autoritário pelas esterilizações forçadas que levaram a cabo durante o segundo período da ditadura (1995-2000), consequentemente matando pelo menos cinco camponesas que sangraram até a morte. 

Os responsáveis por esse grande crime, impregnado de racismo e fraude, conseguiram até agora, durante 20 anos, escapar de suas responsabilidades, de maneira que o ceticismo é obrigatório, ainda que a esperança de que eles paguem por seu delito estará sempre presente, incendiando a consciência do povo peruano.

Foi um dos piores crimes que a ditadura cometeu, mas, ainda que pareça inacreditável, o ditador que cumpre uma pena de 25 anos por violar os direitos humanos se livrou até agora, assim como seus ministros da Saúde, graças à cumplicidade do Judiciário, de ser condenado por esse horror: a esterilização em massa de mulheres camponesas, que em sua maioria não falavam espanhol e muitas das quais eram analfabetas, a quem o Estado fingia somente vacinar.

À esterilização forçada eram acrescentados, neste caso, o racismo e a mentira. As camponesas não sabiam que seriam castradas. As brigadas enviadas às comunidades camponesas pelo Ministério da Saúde, o grande cúmplice desse delito coletivo, perguntavam a elas se queriam ser vacinadas ou examinadas para saber se tinham enfermidades ocultas. O Procurador-Geral acrescentou à sua denúncia pelo menos uma página com uma autorização supostamente assinada por uma camponesa quíchua analfabeta que não sabia nenhuma palavra de espanhol.

Quantas mulheres camponesas foram vítimas dessa política praticada outrora pelos nazistas contra os judeus, os negros e outras “raças inferiores”? Na realidade, não se sabe nem nunca se saberá. Foi um delito perpetrado por muitos anos – três ministros da Saúde de Fujimori foram implicados pelo procurador em sua acusação – mediante uma mentira da qual foram cúmplices múltiplos funcionários públicos assim como muitas supostas autoridades do Judiciário que deveriam intervir no momento certo e impedir que a ditadura continuasse enchendo a Cordilheira dos Andes de tanto sangue. 

A cumplicidade chegou às mais elevadas alturas e os peruanos ainda se recordam de uma autoridade eclesiástica de Lima confessando que sim, protestou contra o que ocorria, mas o fez de maneira privada, admoestando o ditador sem ser escutado, pois lhe sussurrava as reprimendas ao ouvido. 

A organização feminista Demus, há alguns anos, investigou esse delito coletivo e chegou à conclusão de que cerca de 270 mil mulheres camponesas foram esterilizadas de acordo com esse plano, mediante ligadura de trompas ou castração simples. Os homens tampouco se livraram da medida oculta. Nesse mesmo levantamento foram registrados 24 mil homens de origem camponesa esterilizados sem saber.

As leis peruanas são muito claras a esse respeito. Nenhuma pessoa pode ser objeto de esterilização sem dar seu consentimento, sendo informada nos menores detalhes ao que está exposta com essa delicada intervenção que somente médicos podem recomendar, porque nela se inclui a saúde da mãe. Para burlar essas determinações, a ditadura de Fujimori recorreu a uma mentira da qual foram cúmplices seus ministros dessa área e múltiplos funcionários públicos, sobretudo os que em campo se ocupavam de levar a cabo as esterilizações.

As camponesas não eram consultadas quanto a isso. Perguntavam para elas, em vez disso, se queriam ser vacinadas ou examinadas em razão de alguma outra enfermidade. Naturalmente, a imensa maioria respondia que sim. À falsidade era adicionado o preconceito racial. Tratava-se de humildes mulheres índias das comunidades serranas, muitíssimas das quais nem sequer compreendiam os sanitaristas ou enfermeiros das brigadas encarregadas das esterilizações. Quantas dessas mulheres sangraram até morrer? O procurador assinalou que cinco delas morreram como consequência dessas intervenções e 1.307 padeceram de lesões graves.

Mas é óbvio que o número real está muito acima dessas quantidades, que somente refletem as que se atreveram a denunciar a lorota sanguinária de que foram vítimas. Muitíssimas outras nem sequer se deram conta dos efeitos que teriam em sua saúde “a lenda da vacina”.

Chegará desta vez a ocorrer o julgamento e os mais altos responsáveis por esse crime serão castigados? O procurador apontou três ex-ministros da Saúde, Eduardo Yong, Marino Costa e Alejandro Aguinaga, além do ex-diretor de Saúde, Ulises Aguilar, como os principais perpetradores dessa operação. Um deles, Aguinaga, é candidato nas próximas eleições pelo partido fujimorista Força Popular, que postula à presidência a filha do ditador, que, diga-se de passagem, vai muito mal nas pesquisas.

Entre os muitos crimes e roubos cometidos naqueles anos da ditadura fujimorista, esse é um dos piores, porque reflete, melhor do que qualquer outra extorsão que cometiam Montesinos e o próprio Fujimori, as malícias e os preconceitos do sistema. As esterilizações forçadas vinham acompanhadas de mentiras e racismo, posto que suas vítimas eram sobretudo índias de língua quíchua, a quem era fácil enganar pois uma boa porcentagem delas nem sequer conseguia entender o que estava acontecendo, pois não falava espanhol. O objetivo não era que não nascessem mais bebês no Peru, mas que não nascessem mais índios do que já havia no país. Além de tudo, havia estímulos às brigadas que cumpriam suas cotas.

Uma operação com essa índole não poderia ser levada a cabo sem a cumplicidade de centenas, talvez milhares, de pessoas. Os membros das brigadas que percorriam a serra, perguntando às camponesas se queriam se vacinar, sabiam muito bem que burlavam a lei difundindo tamanha mentira e, por exercer essa ignóbil função, se tornaram cúmplices. 

Dessa maneira não somente violavam algumas leis mas colocavam em prática esse racismo anti-índio que um grande número de peruanos de alta e média classes sociais ainda conserva no fundo de sua personalidade, ainda que isso não costume se fazer patente de maneira tão flagrante como nessa operação em grande escala que o governo de Fujimori pôs em prática.

Por isso, é preciso continuar apoiando a quem, como o procurador Pablo Espinoza neste caso, se empenha para que esse crime não fique impune e seja objeto de um julgamento em que os grandes responsáveis, começando pelo ex-ditador, recebam o castigo que merecem. 

Ainda que o Peru atravesse momentos muito difíceis – a pandemia golpeou o país de maneira gravíssima, sobretudo os setores sociais mais humildes, onde o número de infectados e de mortos foi muito elevado –, esta foi uma boa notícia para os peruanos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA © DIREITOS DE PUBLICAÇÃO EM  TODAS AS LÍNGUAS RESERVADAS PARA EDICIONES EL PAÍS S.L. 2020 

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