Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

'Queremos comida’, gritam venezuelanos

Em Guarenas, como em muitas cidades da Venezuela, a escassez generalizada provoca longas filas na frente de supermercados 

O Estado de S. Paulo

19 Maio 2016 | 05h00

GUARENAS, VENEZUELA - Era quase meio-dia quando um caminhão carregado de alimentos chegou a um supermercado da cidade de Guarenas. Mas a guarda militar levou a carga e as pessoas se enfureceram: “Queremos comida”, gritavam rompendo a fila para protestar, cena cada vez mais frequente na Venezuela.

Muitos estavam na fila havia horas para comprar alimentos a preços subsidiados no Supermercado Paga-Poco. Não obstante, conta Haydé Terán, a prefeitura determinou que “a metade dos alimentos que chega aos mercados privados” deve ser distribuída por meio de um sistema comunitário criado pelo governo.

Como parte do estado de exceção e “emergência econômica” decretado na sexta-feira, Nicolás Maduro ordenou que as forças de segurança garantissem com comitês de cidadãos a entrega de cestas de alimentos de casa em casa, para evitar que acabem parando nas mãos de “bachaqueros” (contrabandistas).

“Este decreto não resolve nada. O que as pessoas querem é comida. Não teve saques, mas fechamos as ruas com os protestos. A situação está muito tensa”, disse a mulher, que gravou tudo no seu celular. Em vídeos que circulam no Twitter pode-se ver as pessoas protestando e até mesmo algumas correndo atrás do caminhão.

Enquanto relata à AFP o que ocorrera horas antes, a dona de casa de 48 anos aguarda na fila ao lado de uma pequena padaria de Guarenas, 45 quilômetros a leste de Caracas, sob a vigilância de soldados da Guarda Nacional Bolivariana.

“O governo tem medo de Guarenas porque aqui começou o ‘caracaço’”, disse sua amiga Yanina Díaz, técnica em turismo de 49 anos, referindo-se à sangrenta revolta social de fevereiro de 1989, desencadeada pelo aumento dos preços da gasolina e das tarifas dos transportes públicos, que deixou ao menos 300 mortos. Maduro atribui a crise a uma “guerra econômica” de empresários de direita. 

“Sabemos que por trás destes fatos estão dirigentes da oposição interessados em desestabilizar e derrubar Maduro”, declarou Rodolfo Sanz, prefeito governista de um município do distrito de Guarenas. Na cidade, os muros são cobertos de cartazes com o rosto de Hugo Chávez, mas a escassez cotidiana exacerbou o mal-estar contra o governo e, nos últimos dias, foram registradas desordens nas ruas.

Desde que Maduro decretou o estado de exceção para enfrentar a crise econômica e conter a ofensiva da oposição que quer tirá-lo do poder, a tensão política intensificou-se. E a temperatura social pode ser medida pelas filas, cada vez mais longas, que os venezuelanos precisam fazer diariamente para conseguir comida. “O que ele quer fazer com o decreto de emergência? O que ele precisa fazer é buscar comida, lá na casa do c... e trazer pra cá”, afirmou Migdalia López, de 51 anos.

Mais cedo, ela participara dos protestos, e está também na fila do pão. Mas contrariamente a Haydé e a Yanina, diz que foi revolucionária. Sempre votou em Chávez (morto em 2013) e em seu substituto Maduro.

“Aqui em Guarenas havia gente revolucionária, mas essa gente não quer a revolução, o que quer é comida. O povo está com fome. Estamos cansados de fazer fila, de ver gente se matar por uma caixa de ovos ou farinha de trigo”, queixou-se. O país, grande produtor de petróleo duramente afetado pela queda vertiginosa dos preços do bruto, sofre com a escassez de 66% dos produtos de primeira necessidade, a contração econômica de 5,7% e a inflação mais alta do mundo, 180,9% em 2015.

Frequentemente, usuários das redes sociais publicam fotos e vídeos de pequenos protestos, tentativas de saques ou saques mesmo, que estão ocorrendo em várias cidades. 

O coordenador do Observatório Venezuelano de Conflitividade Social, Marco Ponce, assinalou à AFP que a ONG contou mais de cem saques e tentativas de saques no primeiro trimestre e centenas de pequenos protestos. Segundo pesquisa da empresa Datanálisis, 70% dos venezuelanos apoiam uma mudança de governo. “Não vejo uma solução nisso tudo, é melhor que venham outros mandar, mas não estes esquálidos (opositores) de m...”, disse Migdalia. “Sou de Barinas, de Sabaneta, onde nasceu Chávez, e lá o povo está passando fome”, afirmou Haydé, encostada numa parede onde está pintado o rosto de Maduro.

Perto dela, um homem de bicicleta grita com ironia: “O pão socialista está chegando”. Os comentários sobem de tom e a fila vai se ordenando. “E vai cair, vai cair, este governo vai cair”, gritam os vizinhos das janelas do edifício onde está a padaria. / AFP

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