'Queremos democracia, e não mais uma guerra'

BEIRUTE - O ativista sírio Zaidoun Zoabi, exilado em Beirute depois de duas temporadas na prisão em Damasco, é contra o bombardeio americano na Síria. Ele considera que a ação limitada vai apenas fortalecer Bashar Assad, que poderá dizer que enfrentou e venceu os Estados Unidos. Além, disso, Zoabi, cujo pai era deputado pelo Partido Baath, de Assad, até morrer no ano passado, não vê uma solução militar para o conflito em seu país. Ele defende uma negociação envolvendo os Estados Unidos e a Rússia, para tirar Assad do poder.

Entrevista com

Lourival Santana, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2013 | 02h09

Zoabi, de 39 anos, tem credenciais oposicionistas inquestionáveis. Em razão de suas críticas ao regime, que fez ao vivo nos canais internacionais de televisão, mostrando seu rosto e dando o seu nome completo, além de participar de manifestações de rua, perdeu o emprego de professor de gestão de sistemas informatizados na Universidade Árabe Internacional, em Damasco, e foi preso duas vezes, a primeira durante 18 dias e a segunda, 64, dos quais 47 na solitária. Só foi solto no dia 30 de junho, graças a campanhas no Facebook e na CNN, com apoio de Lakhdar Brahimi, enviado do secretário-geral da ONU para a Síria. A seguir, a entrevista que ele concedeu ontem à noite ao Estado.

O que o sr, acha da intervenção americana?

ZAIDOUN ZOABI - Deixe-me explicar uma coisa: sofri muito com o regime. Destruíram minha casa duas vezes. Fui preso duas vezes, meu irmão foi preso, fui expulso da universidade e meu irmão também. O que eu acho é que uma guerra nunca põe fim a outra. Precisamos é de democracia na Síria, de cidadania, e não vejo, na história, que bombardeios e guerra trarão democracia. Exemplos do Afeganistão, do Iraque e mesmo do Líbano mostram isso. Sou contra a guerra por princípio. Em segundo lugar, um ataque limitado dará uma vitória ao regime. Eles dirão aos que os apoiam: 'Derrotamos a superpotência americana'. Por que os EUA e a Rússia não encontram uma saída, um processo político para dizer a Assad: 'Vá embora, chega de crimes e mortes'?

Mas Assad não parece disposto a deixar o poder, e nem a Rússia a pressioná-lo o suficiente para sair.

ZAIDOUN ZOABI - No momento em que os EUA anunciaram que usariam a força contra Assad, a Rússia saiu totalmente de cena: 'Não vamos interferir, não vamos ser arrastados para uma guerra'. A Rússia tem medo dos EUA. Então, pressão verdadeira dos EUA por um processo político salvará mais vidas e dará a Obama a chance de dizer: 'Interferimos de uma forma positiva, não usamos a força'. Tudo bem, precisaremos fazer algumas concessões. Teremos de sentar com o regime, embora seja difícil para mim, que sofri tanto nas mãos deles. Mas, se é isso que salvará vidas, o que podemos fazer? Posso te garantir que Assad vai sair, seja em um mês, um ano ou cinco.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.