Queremos privacidade; devemos compartilhar

Cada vez mais as pessoas percebem que seus dados colocados online poderão ser usados contra elas, fazendo-as pagar do ponto de vista psicológico

KATE, MURPHY, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2014 | 02h03

Imaginem um mundo que, de repente, não tenha mais portas. Nenhuma porta na sua casa, na entrada do bar ou nas toaletes dos teatros. As autoridades dizem que se você não está fazendo nada de errado, não precisa se preocupar. É esta essencialmente a situação na internet. Não existe privacidade.

Se os anúncios dirigidos para você no Google não o denunciaram, certamente as revelações de Edward Snowden ou os selfies de Jennifer Lawrence nua deixaram sua vulnerabilidade à espionagem cibernética totalmente clara.

Basta ler 1984 de George Orwell ou assistir ao filme Minority Report para compreender até que ponto a vigilância é incompatível com uma sociedade livre. E, cada vez mais, as pessoas estão se dando conta de que seus dados colocados online poderão ser usados contra elas. Talvez você não consiga um emprego ou um encontro por causa de uma postagem indiscreta no Twitter, ou quando o seu endereço no Google Street View mostra o carro destruído do seu cunhado na entrada da sua casa. Menos óbvio é o preço que as pessoas precisam pagar do ponto de vista psicológico por causa da atual abertura total dos dados.

"Com a atenção que está sendo dada aos aspectos legais da privacidade e ao impacto sobre o comércio global, não se tem discutido suficientemente o motivo pelo qual as pessoas querem privacidade e o motivo pelo qual esta é intrinsecamente importante para elas enquanto indivíduos", disse Adam Joinson, professor de Mudanças de Comportamento na University of the West of England em Bristol, que criou o termo "crowding digital" (financiamento coletivo digital) para descrever o excessivo contato social e a perda de espaço pessoal online.

Talvez isso aconteça porque não se chegou a nenhum acordo a respeito do que constitui uma informação privada. É algo que varia segundo as culturas, os gêneros e os indivíduos. Além disso, é difícil defender o valor da privacidade quando as pessoas se mostram tão ansiosas por compartilhar tantas informações pessoais dolorosas na mídia social.

Mas a história da privacidade (definida no sentido amplo como o direito de não ser observado) é uma história de status. Os que vivem em instituições por seu comportamento criminoso ou por motivo de doença, crianças e pobres têm menos privacidade do que os que se comportam de maneira honesta, são saudáveis, maduros e ricos.

"A implicação é que se você não tem privacidade, não tem o direito ou não é capaz ou digno de confiança", disse Christena Nippert-Eng, professora de Sociologia no Illinois Institute of Technology em Chicago.

Portanto, não surpreende que a pesquisa sobre privacidade online ou não mostra que a percepção, sem falar na realidade, de ser vigiado produz baixa autoestima, depressão e ansiedade. Quando observadas por um supervisor no trabalho ou por amigos no Facebook, as pessoas tendem a se conformar e a demonstrar menos individualidade e criatividade. Seu desempenho nas tarefas ressente-se disso, e elas apresentam um aumento dos batimentos cardíacos e dos níveis dos hormônios do stress.

Uma analogia em termos psicológicos é que a privacidade é como o sono. Assim como permaner inconscientes durante uma parte do dia é restaurador, o mesmo acontece quando somos espontâneos. A estimulação associada ao fato de ser observada e o julgamento implícito, reduz os recursos cognitivos de uma pessoa. Nós nos preocupamos com o modo como somos percebidos, o que inibe nossa capacidade de explorar nossos pensamentos e sentimentos para crescermos como indivíduos.

Um estudo realizado na Alemanha ao longo de três anos e encerrado em 2012, mostrou que, quanto mais as pessoas revelavam a respeito de si próprias na mídia social, mais diziam desejar privacidade. A autora principal do estudo, Sabine Trepte, professora de Sociologia na Mídia na Universidade de Hohenheim de Stuttgart, disse que o paradoxo indicava a insatisfação dos participantes com o que recebiam em troca por revelarem tanto a respeito de si mesmas. "É algo ruim, pois o que elas recebem é principalmente um apoio sob a forma de informações, talvez como uma dica de restaurante ou o link para um artigo", disse. "O que elas não obtêm é um suporte emocional que produz bem-estar, como um ombro para chorar ou alguém que sente a seu lado no hospital."

Mas os entrevistados continuavam participando porque temiam ser excluídos ou julgados pelos outros como pessoas derrotadas e não conectadas. De maneira que o ciclo da revelação seguida por sentimentos de vulnerabilidade e insatisfação geral continuava.

O problema é que se a pessoa revela tudo a respeito de si mesma ou isso pode ser descoberto numa busca no Google, ela pode se sentir menosprezada em sua capacidade de preservar sua intimidade. Voltamos assim à teoria da penetração social, uma das explicações mais citadas e experimentalmente corroboradas da conexão humana. Desenvolvida por Irwin Altman e Dalmas A. Taylor nos anos 70, a teoria afirma que as relações se desenvolvem mediante a revelação mútua gradativa de informações cada vez mais sensíveis.

"Criar e preservar um relacionamento íntimo duradouro é um processo de regulação pessoal", disse o dr. Altman, hoje professor emérito de Psicologia da Universidade de Utah. "Isso diz respeito a abrir e fechar fronteiras a fim de preservar a identidade, mas também a demonstrar sintonia com o outro. Se houver violações, o relacionamento estará ameaçado."

Pode-se dizer que a informação sobre você mesmo é como dinheiro. A quantidade que você gasta com uma pessoa significa o quanto você valoriza o relacionamento. Por outro lado, se a pessoa costuma se expor excessivamente, na realidade ela tem muito pouco para oferecer de especial. "Devo dizer também que se uma pessoa se dispõe a abrir tudo a respeito de si mesma demonstra certa vaidade e egocentrismo", observou o professor Allen.

Até o momento, o Congresso não se mostrou disposto a proteger os cidadãos de sua promiscuidade digital ou a coibir a coleta de dados feita pelas empresas de internet. Os Estados têm tomado algumas medidas, como a lei que permite, na Califórnia, que menores apaguem postagens da mídia social, mas os estudiosos do Direito afirmam que essas medidas têm se mostrado insuficientes, até o momento.

Mas os pesquisadores da privacidade começam a ver sinais de uma reação. As pessoas passaram a exercer um pouco mais de recato online ou adotam táticas subversivas para frustrar os garimpeiros de dados. Estes pequenos atos de desafio chegam à criação de múltiplas identidades falsas, usando uma rede privada a fim de proteger o próprio comportamento na internet, e não "curtir" nada no Facebook ou mesmo não seguir mais ninguém no Twitter, de maneira que suas redes sociais e preferências sejam mais difíceis de descobrir. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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