Maria Alejandra Cardona/REUTERS
Maria Alejandra Cardona/REUTERS

‘Queremos uma boa relação com os EUA, mas sem ceder em princípios’, diz cônsul de Cuba em São Paulo

Para Pedro Monzón, sanções impostas pelo governo Biden são irrelevantes, mas cultivam imagem negativa da ilha

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2021 | 20h00

A imposição de sanções ao ministro da Defesa de Cuba, Álvaro López Miera, e a uma unidade especial do Ministério Interior para punir o governo pela forma como lidou com as manifestações do dia 11 de julho foi o último capítulo da série que começou com a população saindo às ruas na ilha. A reação de Washington surpreendeu quem pensava que o governo do democrata retomaria a política de Barack Obama e reverteria as medidas restritivas impostas por Donald Trump à ilha.

Para o cônsul geral de Cuba em São Paulo, Pedro Monzón, as sanções são, na prática, irrelevantes, mas “cultivam uma imagem negativa de Cuba”. Em entrevista ao Estadão, Monzón fala das dificuldades enfrentadas na ilha e afirma que há intenção de ter uma boa relação com o governo americano.

Como o sr. vê a imposição de novas sanções por parte dos EUA?

Os EUA estão acostumados a aplicar sanções a outros países, são um país imperialista. Já aplicaram sanções diversas vezes a Cuba. Durante o período de Trump, foram mais de 240. Agora, Biden vai pelo mesmo caminho, disse que enfraqueceria o bloqueio e seguiria a política de Obama, mas está incrementando as sanções. As sanções de ontem (quinta-feira) são muito irrelevantes, foram aplicadas a um ministro que tem uma história na revolução e não tem interesse econômico nos bancos dos EUA, nem interesses empresariais. Não lhe interessa ir aos EUA. O mesmo acontece com a brigada que foi sancionada. Com isso, eles (EUA) continuam cultivando uma imagem negativa de Cuba, mas essas sanções são irrelevantes, no sentido prático são uma estupidez.

O embargo americano é hoje o principal motivo das dificuldades econômicas na ilha?

Não chamamos de embargo, que é uma medida econômica limitada. Temos uma medida que afeta as relações entre os nossos países, mas é extraterritorial, tem incidência sobre qualquer país do mundo. Uma empresa francesa, canadense, ou até malasiana, que são de países muito amigos nossos, tem proibições de negociar com Cuba. Alguns se atrevem a desafiar isso, mas outros não. E a lei de comércio dos EUA se aplica ao mundo inteiro. É muito mais do que um embargo, é um ato de guerra, como foi a invasão da Baía dos Porcos. Em seis décadas do triunfo da revolução (cubana), e do começo do bloqueio, perdemos bilhões de dólares. Entre abril de 2019 e março de 2020, a perda de Cuba superou os US$ 5 bilhões. Nos últimos cinco anos, foram mais de US$ 17 bilhões. Cada vez que vamos importar algo temos que procurar uma empresa que esteja disposta a isso. Muitas vezes pagamos um imposto pelo risco, além disso pagamos um frete muito mais caro porque temos que buscar os produtos muito mais longe. 

O bloqueio é terrível, não se pode fazer nada em Cuba. No terreno econômico, no social e no político. Os investimentos são bloqueados e os que têm intenção de investir em Cuba são retaliados. E quando se compara o peso econômico de Cuba ao dos EUA, se opta pelos EUA por razões práticas. Somos perseguidos financeiramente, não temos acesso a nenhum financiamento social. 

A chegada de petróleo foi bloqueada durante anos e, principalmente, nos últimos anos. Agora, impedem que os barcos venham da Venezuela carregados de petróleo. Em uma ocasião, pelo menos, tivemos que comprar o barco para poder receber o petróleo porque o armador disse que não podia chegar a Cuba, foi ameaçado. Então compramos o barco.

As remessas de cubanos americanos, que era um ingresso dos cidadãos em primeiro lugar, mas que eles gastam em Cuba, foram limitadas. Trump limitou isso e depois proibiu. Biden diz que está fazendo um estudo para determinar que o governo não fique com parte das remessas. Isso é mentira. Nós nunca aplicamos nenhum tipo de cobrança ou imposto às remessas que entram. 

Com o turismo, fazem o possível para acabar com isso. Obama abriu um pouco a situação, mas em geral a visita dos americanos a Cuba sempre foi ameaçada. Os voos regulares foram limitados, os cruzeiros turísticos que levavam quase metade dos turistas brasileiros a Cuba foram suspensos, as embarcações privadas foram proibidas de entrar, os voos particulares também. O turismo é uma das principais fontes de entrada de dinheiro em Cuba, que é um país com praias lindas, com segurança, as pessoas querem visitar. 

As missões médicas que durante anos foram gratuitas e depois foram reguladas, sendo que dos países mais pobres não se cobra, ou se cobra muito pouco, e dos que têm mais recursos se cobra, também foram afetadas. Disseram que se tratava de tráfico de pessoas, de escravos, de pessoas sem nível profissional. No Brasil disseram que eram integrantes da inteligência cubana. Assim alguns países suspenderam essa assistência médica cubana, como o Brasil.

A troca de tecnologia entre Cuba e o resto do mundo fica muito restrita com o bloqueio. Muitas tecnologias não podem entrar em Cuba, muitos medicamentos não podem entrar, e às vezes pode ser um medicamento para uma criança com câncer, e olha que temos muitos medicamentos produzidos aqui. Ingredientes ativos para se fazer medicamentos também não podemos comprar.

O bloqueio afeta tudo, não se pode ter um programa de desenvolvimento. O que querem é nos destruir, não é uma medida administrativa. 

O turismo foi muito afetado pela pandemia também. Como lidar com isso?

O turismo desde antes da pandemia foi reduzido por conta das medidas que te falei. A pandemia praticamente baixou a chegada de estrangeiros a zero. Não porque não temos cuidados, mas porque o mundo todo passa por uma crise econômica e de saúde. As pessoas não se movimentam mais como antes. O turismo deixou de ser uma fonte de ingressos para Cuba, infelizmente.

E como está o desenvolvimento de vacinas contra a covid-19 em Cuba?

Temos uma biotecnologia potente. Cuba tem coisas inexplicáveis apesar do bloqueio. É inexplicável que Cuba tenha o sistema de educação que tem, a justiça social que tem, que não haja gente vivendo nas ruas, que a delinquência não seja um problema, assim como o envolvimento com drogas. Desenvolvemos uma boa biotecnologia e a vacina (contra a covid) é o último exemplo disso. Temos vacinas contra câncer, hepatite B, que impedem que pessoas tenham que amputar membros por conta da diabetes. Cuba tinha 5 candidatas a vacinas (contra a covid-19) e duas já foram aprovadas, a Soberana 02 e a Abdala, essa com mais 92% de eficácia. Se comparam com as melhores vacinas do mundo, apesar de sermos um país empobrecido pelo bloqueio. As duas vacinas já foram aplicadas a mais de 8 milhões de pessoas, com três doses. Neste ano, teremos toda a população vacinada e temos produção para exportar ao mundo, sempre com o mesmo critério: os mais pobres recebem de graça ou pagam menos. Já enviamos 12 milhões de doses à Venezuela. 

O acesso mais fácil à internet por parte dos jovens abre espaço à cultura do consumo. Como o governo está lidando com isso?

Ultimamente, ocorreu uma grande manipulação do que aconteceu em Cuba por parte dos EUA. Isso levou a manifestações limitadas, as maiores tinham um pouco mais de cem pessoas. E o presidente foi até os locais falar com as pessoas. Cuba teve um incidente, aí sim, no dia 11 de julho. Desde então, Cuba está tranquila e as massas saíram às ruas defendendo a revolução, incluindo os jovens. 

Temos um bombardeio contínuo dos EUA no âmbito cultural, um bombardeio dirigido, sobretudo à juventude e alguns setores da população com a intenção de mudar sua mentalidade. Além disso, há o bombardeio normal dos filmes, do “American way of life” e todas essas coisas que aparecem e nos dão uma imagem adocicada dos EUA. Isso tende a propiciar o consumismo, que, naturalmente, não tem nada a ver com nossos critérios sociais e políticos. Não é que não queiramos que as pessoas tenham o que necessitam. Queremos chegar num momento em que as pessoas se sintam cômodas e tenham tudo o que necessitam, mas sem criar um ambiente onde haja mais de 20 marcas de pasta de dente, 400 marcas de sabonete e as pessoas tenham que trocar de marca a cada seis meses porque a outra ficou obsoleta. Isso não faz parte da sociedade que queremos.

Em Cuba, todo sistema de educação e a informação pública nos meios de comunicação não respondem a critérios privados e não podem ser manipulados pelos EUA. As pessoas recebem muitas informações históricas, do que custou fazer a revolução, do que acontece no mundo. A imprensa está nas mãos da revolução, então não é fácil manipular os jovens. Temos recursos para deter esses processos de alienação. Temos um capital histórico que inclui José Martí, Fidel e outros revolucionários, essa herança influencia a todos, inclusive os jovens. E como eu digo, a grande maioria da população defende a revolução e sai às ruas para defender isso. Depois de 11 de julho, vimos isso e lá estavam os jovens. Agora, ninguém se sente incomodado em Cuba. Não quer dizer que não temos defeitos, que não cometemos erros na área econômica. Acontece, como ocorre em outros países. Mas o grosso do problema vem do bloqueio. E a população agora sofre, os jovens também, com a dificuldade de conseguir alimentos e as dificuldades com as plantas energéticas. Mas em Cuba não há fome, temos um sistema de moradia que continua crescendo, mesmo que com muitas limitações por conta da falta de recursos e financiamentos.

Isso afeta a todos e ninguém se sente feliz. As manifestações que ocorreram, e foram originadas por grupos manipulados, financiados, desde os EUA, e temos muitas evidências disso, mobilizaram alguns ingênuos revolucionários que pensaram que essa era uma via para buscar uma saída ao sofrimento que o bloqueio gera. Essas pessoas já perceberam que esse não é o caminho, que apenas prejudica a revolução e a nossa soberania. Os EUA queriam que houvesse uma explosão social em Cuba, mas não há. Sabemos que isso levaria a uma intervenção estrangeira. Em Cuba, qualquer passo que damos tem que ser firme, se não for assim sempre haverá a vontade de intervir. Mesmo quem é contra revolucionário ou não concorda com o sistema social daqui saiu para defender Cuba porque é patriota. 

Como o governo dialoga com quem é contra revolucionário ou não concorda com o sistema social cubano?

Há uma parte deles que funciona por dinheiro. São pagos de acordo com tarifas. Recebem determinado valor para jogar pedras contra policiais, outro valor para apedrejar um mercado, por exemplo. Há uma moça de Las Tunas, uma província de Cuba, que recebeu uma mensagem dos EUA dizendo que se ela criasse hematomas em si mesma receberia US$ 100, se fizesse hematomas em uma criança, receberia US$ 200. Essas pessoas não têm jeito, são contra a pátria, são mercenários, não têm programa e nem critério político. Quando você fala com youtubers que promovem isso, percebe que o nível cultural é baixíssimo, são muito agressivos e estão cheios de ódio. Mas eles são minoria.

Agora, para quem não concorda com o sistema e está confuso com o que está acontecendo, o próprio presidente se dirigiu a eles em dois pronunciamentos na televisão após o 11 de julho, explicou o contexto, disse que era preciso ver os problemas da comunidade e buscar soluções possíveis dentro do bloqueio que se vive. Desde então, o governo tem tomado medidas para aliviar os problemas, tirando os impostos de alimentos e remédios que chegam a Cuba. Como se sabe, a capacidade de diálogo em Cuba é muito alta. Muita coisa se discute em referendos aqui, como foi com a mudança da Constituição em 2019. Mais de 86% das pessoas aprovaram a mudança. E a Constituição fala que somos um país socialista, fala da importância do Partido Comunista dentro do país. A maior parte das pessoas aprova isso, o que não quer dizer que não precisamos melhorar, que aprovamos o nível de burocracia que tanto causa danos. Há uma oposição dentro da revolução e vejo isso nas reuniões e há pressão para que o sistema melhore. Agora mesmo, há medidas de descentralização e isso é importante porque leva a menos burocracia.

O governo cubano pensa em buscar ajuda da igreja como fez na era Obama para aliviar as novas imposições do governo Trump?

Na época de Obama, as circunstâncias eram diferentes. Foi no segundo mandato de Obama, no primeiro não aconteceu nada. Ele tomou as medidas no segundo, quando já não havia ameaças de não votarem por ele, afinal (os políticos) sempre pensam em Miami como uma comunidade importante para as eleições americanas. Então, o papa interveio, e não apenas ele, e houve condição de ajudar. Depois, na era Trump, vimos uma política muito dura e Biden está seguindo isso. Não sei se há conversas ocorrendo neste momento, não é de meu conhecimento, tomara que haja. Mas minha opinião é que os EUA se propuseram a acabar com a revolução cubana, aproveitar a pandemia como uma arma e destruir a revolução. Falam em mais sanções aos cubanos, um povo empobrecido por culpa deles. Somos uma ameaça aos EUA? Queremos uma boa relação com os EUA, isso já foi dito até por Fidel. Não queremos uma relação ruim com os EUA, não somos estúpidos. Claro, queremos uma boa relação, mas sem ceder em nossos princípios. Mesmo sendo uma ilha pequena, temos que discutir com os EUA em condições de igualdade, como fazemos com a União Europeia. 

Queremos viver em paz, sem bloqueio. Aqui não há pessoas vivendo nas ruas, as crianças vão para a escola. Não temos torturados, assassinados. As repressões brutais que vemos nos EUA, Europa e América Latina por tropas não vemos em Cuba, vemos pelo noticiário e vemos como usam tropas anti motim, balas de borracha, gás lacrimogêneo. Em Cuba não existe isso. Então por que nos castigam? Porque somos uma ruptura com o sistema de hegemonia dos EUA na América Latina e mostramos que é possível fazer diferente, que não é preciso se subordinar aos EUA. 

Entre os manifestantes do dia 11, estavam vândalos que atacaram a polícia, lojas e até uma ala pediátrica. Esses foram detidos e serão julgados, outros foram soltos mediante pagamento de multas, mais altas do que os dólares que receberam. Mas não há desaparecidos ou mortos como dizem falsamente na grande imprensa ocidental. Mas em breve haverá os julgamentos e saberemos de muitas coisas. 

O que o sr. tem a dizer sobre as acusações de repressão feitas por movimentos culturais na ilha?

Os incidentes com relação à cultura fazem parte de toda essa política. Ocorreram há algum tempo e desapareceram. Mobilizaram também alguns ingênuos, mas esse movimento ficou isolado. Em Cuba, há uma cultura livre, filmes cubanos são extremamente críticos e são livres. Somos democráticos e queremos ser mais democráticos, claro. Nossa democracia é participativa, não é formal. Queremos ser e temos que ser mais democráticos.

Culturalmente, somos um país muito rico, com milhares de possibilidades. Há milhares de orquestras, que viajam e ganham dinheiro. O sistema de formação musical, com a universidade, é gratuito, o ensino artístico é democratizado por meio de uma rede de escolas por todo país. Alguns artistas que dão declarações agora nunca falaram do bloqueio, por exemplo. Agora falam da repressão, falam que há milhares de presos e desaparecidos, mas há muitas mentiras. Ver de fora é muito difícil. É preciso ir atrás do que está acontecendo. Um estrangeiro ouvindo isso com certeza se assusta. Por meio da cultura criaram um movimento e, alguns artistas, alguns, se submeteram a isso. Mas a grande maioria dos artistas está dando declarações contra isso e contra o bloqueio. 

Na pintura, por exemplo, muitos foram críticos e são livres para isso, vivem em Cuba livremente. Não são simpáticos ao governo, mas continuam pintando e participando de exposições. 

O que foram os cortes de internet após as manifestações de 11 de julho?

Fomos lentos para começar o desenvolvimento da internet em Cuba, mas neste momento o uso da internet e do celular é um dos mais altos do mundo. Ao longo dos anos, a dificuldade de acesso tem relação com o bloqueio. Estamos proibidos de usar os cabos dos EUA que passam perto de Cuba. Agora, Biden fala em facilitar a internet na ilha, é mentira. Eles sempre dificultaram isso. Além disso, ter internet implica em gastos, até com equipes, mas Cuba estava interessada nessa abertura. Fidel insistia em usar a internet pelo nível de informação que ela possibilita. Ele falava, inclusive, de uma espécie de democratização da informação. Apesar das besteiras que existem na internet, no sentido da tecnologia e da ciência é muito interessante. Por outro lado, por haver a internet e as redes sociais é que essas influências entraram em Cuba. E isso afeta a todos, em todo o mundo há razões para se preocupar com a internet, é uma discussão no mundo todo. 

Agora, durante esses dias pós 11 de julho, a internet caiu. O ministro de Relações Exteriores e o ministro de Energia explicaram que tinha relação com a eletricidade, com o servidor. Há dias, a internet foi restabelecida e, além disso, foi concedido 1 gigabyte a todos os cubanos como uma forma de compensação, para aliviar o dano que tiveram anteriormente. Mas não houve corte de internet, ela caiu, como caiu a eletricidade aqui.

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