Querido Pablo Milanés

Havana e Miami são cidades muito distantes, apesar de estarem a alguns quilômetros uma da outra. Os confrontos políticos, de ambos os lados, os impedimentos para viajar e um discurso de cinco décadas de enfrentamento fizeram com que o Estreito da Flórida pareça impenetrável. No entanto, timidamente, pontes começam a ser erguidas em cada margem, apesar de ainda frágeis e incompletas.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Entre os gestos de cordialidade, nenhum provocou tanta polêmica como o concerto de Pablo Milanés, dia 27 de agosto na arena da American Airlines, em Miami. De ambos os lados, a discussão foi sobre a pertinência ou não de o conhecido cantor e compositor apresentar-se para os exilados cubanos.

E essa discussão me lembrou de alguns fatos da época em que fomos subvencionados pelos soviéticos, quando o panorama da música cubana era medíocre e insípido. Ainda não tinha surgido Ry Cooder para descobrir os velhinhos do Buena Vista Social Club, os clipes estrangeiros tinham pouco espaço na TV e os aparelhos de fita cassete eram algo tão remoto quanto um fragmento de meteorito. A existência de uma lista negra de cantores exilados e de outros proibidos fazia que, a cada dia, desaparecessem mais e mais vozes do nosso já minguado espectro sonoro.

Nos pesadíssimos aparelhos de rádio que vinham da Europa Oriental, somente era possível ouvir, uma ou outra vez, a voz de Silvio Rodríguez ou Pablo Milanés. Com suas canções, eles criaram a trilha musical da utopia, os acordes que acompanhavam um projeto social que muitos não puderam escolher. Aqueles que, como nós, cresceram ouvindo esses estribilhos, identificavam a Nueva Trova (movimento musical cubano surgido nos anos 60) com o poder, o status quo, o governo.

Fora da ilha, porém, as mesmas canções que nos saturavam assumiam outras conotações. Transformaram-se nos hinos de milhares de jovens que queriam alcançar essa quimera da qual muitos cubanos já estavam desencantados. As letras das canções interpretadas por Pablo Milanés se converteram em cânticos de protesto em países como Chile, Argentina e Espanha.

Milanés, nascido em Bayamo, em 1943, parecia estar no auge da popularidade internacional, mas o caminho percorrido para chegar até ali não foi nada fácil. Ele também sofreu com a intolerância que expulsou tantos colegas das rádios e da TV nacionais.

Em meados dos anos 70, o autor de Yolanda foi encarcerado na Umap (Unidades de Ajuda à Produção), campos de trabalho forçado onde o objetivo era corrigir, por meio da disciplina militar e do trabalho agrícola, religiosos, homossexuais e transviados ideológicos.

Depois disso, o seu périplo pessoal e artístico misturou-se com o das instituições, especialmente com a Casa de las Américas. Chegou a se tornar deputado da Assembleia Nacional. Poucos o perdoam por não ter, nesse período, quebrado a unanimidade de tantas mãos erguidas, nem ter se atrevido a dizer em voz alta as opiniões críticas que tinha.

Apesar de seu silêncio, todos começaram a notar que Pablo se afastava do oficialismo. Não o fazia com declarações grandiloquentes nem com tomadas de posição muito evidentes, mas lentamente, sem grandes rupturas.

O clímax do desengajamento ocorreu quando, em 2003, ele se negou a assinar uma carta que tentava justificar medidas repressivas do governo cubano. Com o título Mensagem de Havana para amigos que estão distantes, várias personalidades no nosso mundo artístico e literário respaldaram atos de violência judicial. Entre eles, o fuzilamento de três jovens que haviam sequestrado uma embarcação para emigrar e a prisão de 75 opositores pacíficos.

Pablo desvinculou-se desse compromisso político, embora outras vozes conhecidas, como Omara Portuondo, Amaury Pérez e Silvio Rodríguez, tenham assinado o documento. Em entrevistas a órgãos de comunicação estrangeiros, Pablo criticou o governo. Chegou a afirmar que acreditava no sistema, mas não nos homens que o dirigiam. Uma heresia de enormes proporções, se falamos de um projeto político que durante 50 anos procurou se desenvolver à imagem e semelhança de Fidel Castro.

Mas seria errado considerar Pablo um dissidente. Embora permaneça em Cuba durante alguns meses no ano, ele evita participar de atos públicos muito carregados de ideologia e tampouco luta aqui dentro para que seja respeitada a diversidade.

Seu maior mérito, porém, foi o de ter achado seu próprio espaço de inconformismo, sua maneira pessoal de ser ele mesmo. Já não aparece em todas as rádios, é certo, mas cantou em Miami, contribuindo com sua voz para a tênue e frágil ponte que se constrói entre os dois lados. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO

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