''Quero morrer com um único tiro na cabeça''

Beto (nome fictício) tem hoje 17 anos. Recrutado pelo cartel La Família Michoacán, contou à antropóloga mexicana Rossana Reguillo, da Universidade de Guadalajara, detalhes da sua vida como sicário - publicados no blog Viaducto Sur, da especialista. Até os 16 anos, era responsável por 18 assassinatos.

Talita Eredia, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2011 | 00h00

""Vamos, Beto, pegue seu facão e suba na caminhonete", ordenou o chefe. Foi assim que entrei para o bando. Foram as três primeiras pessoas que matei. Primeiro foi o dono de uma loja, depois o irmão dele e um outro homem. A verdade é que não senti nada. O chefe dizia "Bravo, você se saiu muito bem", e fez o sinal da cruz. Eu estava contente que meu chefe estava contente. O pior veio depois", relatou o jovem.

"O chefe puxou um facão e cortou as três cabeças como o meu padrinho matava galinhas no sítio. Minhas pernas tremeram. Todos comemoravam na caminhonete."

Os pais de Beto fugiram com três dos sete filhos. O irmão mais velho de Beto desapareceu, "não se sabe se foi levado pelo Exército ou pelos Zetas", contou o jovem à especialista. Uma das irmãs casou e não deu mais notícias; a outra virou uma das "namoradas" dos traficantes - as jovens são seduzidas e depois exploradas sexualmente.

Rossana acredita que os meninos sicários são, ao mesmo tempo, vítimas e assassinos. "Muitos deles são excluídos do sistema, foram vítimas de violência familiar. Mas quando estão no comando, são implacáveis e não pensam duas vezes para executar uma ordem. O desafio é não satanizá-los e, ao mesmo tempo, não romantizá-los."

Questionado sobre como imagina a sua morte, Beto diz que seria melhor "de uma vez, com uma única bala na cabeça. Ou que me façam em pedaços, para evitar que minha mãe sinta a dor de velar o meu corpo."

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