REUTERS/Andres Stapff
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Quero tirar uma licença antes de morrer, diz Mujica ao renunciar ao Senado

Ex-presidente uruguaio alegou 'motivos pessoais' e cansaço; observadores especulam que renúncia pode ser preâmbulo de futura candidatura à presidência

O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 17h23

MONTEVIDÉU - O ex-presidente do Uruguai, José "Pepe" Mujica, de 83 anos, renunciou nesta terça-feira, 14, ao cargo de senador que assumiu em 2014. "Vejo que tenho 83 anos e vou me aproximando da morte. Quero tirar uma licença antes de morrer, simplesmente porque estou velho", disse ele à agência EFE.

Mujica anunciou sua decisão em uma carta enviada ao Senado, pedindo que a Casa aceitasse sua decisão. Ele estava ausente na sessão. No texto, o ex-presidente e agora ex-senador justificou a saída com "razões pessoais", citando principalmente o "cansaço de longa viagem".

Na carta, Mujica ainda pede "desculpas muito sinceras" por ter ferido alguns dos senadores pessoalmente no "calor dos debates". Ele ressaltou que, enquanto sua mente funcionar não desistirá da "solidariedade e da luta por ideais".

Em 6 de agosto, Mujica havia dito à EFE que planejava deixar seu cargo no Parlamento porque queria tirar uma "folga" antes de morrer. Ele havia anunciado sua renúncia anteriormente, em 2016, mas vinha adiando a saída em definitivo.

Sua decisão foi lamentada pelos colegas da coalizão esquerdista Frente Ampla. "Vamos continuar nos encontrando em seus caminhos e seguiremos a rota de mudança para que nesse mundo aqueles que são mais infelizes sejam os mais felizes", disse a senadora Ivonne Passada.

O ex-presidente anunciou que após sua renúncia viajará para a Europa, onde participará do Festival de Veneza e estará presente na estreia do filme sobre sua vida, dirigido pelo sérvio Emir Kusturica.

Alguns observadores veem a decisão do ex-presidente como um preâmbulo para uma futura candidatura presidencial nas próximas eleições do Uruguai, marcadas para 2019. Mujica repetiu que não será candidato, mas afirmou a mesma coisa antes das eleições de 2010, quando foi eleito.

"Renuncie hoje à campanha", escreveu o deputado Daniel Radío, do Partido Independente de centro-esquerda, pelo Twitter. O assento de Mujica no Senado será ocupado por Andrés Berterreche, membro do Movimento de Participação Popular, setor político do ex-presidente.

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Mujica governou o Uruguai entre 2010 e 2015, cinco anos durante os quais ganhou fama mundial por seu estilo austero, por sua retórica contra o consumismo e o impulso a leis inovadoras que transformaram o Uruguai no primeiro país do mundo a ter um mercado regulamentado de maconha, desde a semente até a venda do produto em farmácias.

Apesar disso, a avaliação de seu governo em conquistas concretas nas áreas da economia, educação, segurança pública e direitos humanos divide a população uruguaia. / EFE e AP

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