Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Quero viver como um cidadão comum', diz Ali Sipahi após STF negar extradição à Turquia

Empresário turco naturalizado brasileiro, que faz parte de movimento opositor a Erdogan, comemora decisão da Justiça

Murillo Ferrari, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2019 | 11h56
Atualizado 08 de agosto de 2019 | 16h36

O empresário Ali Sipahi, turco naturalizado brasileiro, afirmou nesta quarta-feira, 7, que o Supremo Tribunal Federal (STF) se alinhou a países democráticos "que vem negando cooperação com o regime autoritário da Turquia" ao negar sua extradição.

Em entrevista no Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT) ao lado de amigos, advogados da Defensoria Pública da União (DPU) e de seu defensor pessoal, Sipahi afirmou que pretende retomar sua vida no Brasil. 

"Desejo agora viver como um cidadão comum, trabalhando, ao lado de minha família e amigos neste país que escolhi para viver e aprendi a admirar", disse. "Foi um período muito difícil tanto para mim quanto para os simpatizantes do Hizmet no Brasil." 

Questionado sobre como recebeu a decisão unânime do STF, o empresário contou que estava no CCBT com os amigos e era informado constantemente por sua defesa. "Esse País tem uma importância muito grande na minha vida (...) vivi quase metade dela aqui", respondeu com a voz embargada. 

Ele disse que sua mulher, Merve, e o filho de 4 anos ficaram muito felizes com a decisão. "Ela também estava sujeita à mesma medida do governo turco que eu, porque é titular na mesma conta de banco que usaram pra me acusar", disse "Se me afetou, podia afetar ela." 

Ele disse ainda não ter medo de novas iniciativas judiciais do governo de Recep Tayyip Erdogan. "Fui preso por motivos que não são de terrorismo. Então, quando se tem Justiça, como no Brasil, não tenho medo do que possa acontecer", explicou. 

Supremo indeferiu pedido de extradição 

Por unanimidade, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal(STF) negou nesta terça-feira, 6, um pedido do governo da Turquia para extraditar Ali Sipahi, empresário turco naturalizado brasileiro acusado de pertencer a uma organização considerada terrorista pelo presidente Recep Tayyip Erdogan.

O entendimento do colegiado foi o de que não há garantias de que Sipahi seria submetido a um julgamento justo e imparcial pelas autoridades turcas.

Antes do julgamento, a Procuradoria-Geral da República (PGR) já tinha se manifestado contra a extradição, depois de o Ministério Público Federal conduzir investigação que concluiu não haver indícios de que o Movimento Hizmet, do qual Sipahi participa, tenha a prática de crimes de terrorismo como atividade principal, secundária ou eventual.

Ancara acusou Sipahi de ter feito depósitos no Banco Asya, que Erdogan fechou em 2015 por ser ligado ao Hizmet.

Hizmet temia perseguição a cidadãos turcos no Brasil

Conforme informou o Estadoopositores do presidente da Turquia denunciaram um aumento da perseguição aos turcos que vivem no Brasil e têm ligação com o movimento Hizmet, considerado terrorista pelo governo do país.

Segundo o grupo, pelo menos dez pedidos de extradição foram protocolados pelo Judiciário turco no Ministério da Justiça brasileiro, e ao menos seis pedidos transitavam em maio em sigilo no Supremo Tribunal Federal. Há cerca de 300 turcos ligados ao Hizmet residindo no Brasil.

Decisão faz justiça, diz advogado

A decisão de ontem reforçou um entendimento histórico do Supremo Tribunal Federal de que a Justiça brasileira não deve cooperar com um governo que não respeita o devido processo legal, o direito de defesa, a autonomia do judiciário e que não se submete aos tratados internacionais de direitos humanos. Essa foi uma tônica da decisão em todos os votos, reafirmando esse compromisso do STF em processos de extradição.

A decisão fez justiça ao cidadão Ali Sipahi, que não praticou crime e poderá seguir na sua vida de pai, marido e comerciante no Brasil, país que adotou como seu. Mas a decisão transcende ao caso do Ali Sipahi. Ela terá impacto sobre todo cidadão turco residente do País e que não concordam com os rumos autoritários do governo Erdogan. 

Terá impacto também sobre todos os cidadãos que forem alvo de perseguição política por parte de países que não se submetem às regras do Estado democrático de direito. É uma decisão que fica como um importante precedente e estou ansioso para ver o acórdão porque ele certamente será citado em vários casos futuros.

O STF tomou uma decisão firme, ao dizer categoricamente que a extradição deve ser indeferida quando implicar risco concreto de violação dos direitos humanos. Foi uma mensagem importante, uma luz nesses tempos sombrios que atravessamos no Brasil e em outros países democráticos do Ocidente, onde forças autoritárias vem erodindo as estruturas do Estado de direito. 

O STF teve um dia feliz e um capitulo bonito da sua história mostrando-se à altura dos desafios políticos que a realidade impõe.

Cinco pergunas para Ali Sipahi

Você disse que prestou serviço para o Consulado turco. Como era isso?

Eles (o Consulado turco) me chamavam para fazer tradução em alguns eventos e eu ia sem cobrar nada porque pensava que era um serviço que fazia pela pátria, para as pessoas conhecerem a Turquia. Pensava que estava ajudando o país. Fui até guia de viagem de empresários brasileiros.

E como passou a ser considerado terrorista?

Quando aconteceu a tentativa de golpe, eu quis sacar o dinheiro que tinha no banco lá no país (Ali explicou, na coletiva, que recebeu o dinheiro quando casou e o deixou em uma conta conjunta com a mulher, Merve), então tentei fazer uma procuração para um amigo meu por meio do consulado, mas eles nem permitiram que eu e minha esposa entrássemos no prédio. Não entendi, porque não tenho nenhuma ligação com as pessoas que tentaram dar o golpe. Como podiam me acusar de algo que não fiz? Foi uma associação automática só porque eu tinha ligação com o Hizmet e conta no banco (Asya, depois fechado por Erdogan). Então foi assim que o Consulado rompeu relação comigo.

Seu advogado deu alguma recomendação para evitar outros problemas com o governo de Erdogan?

Olha, o que podia acontecer de pior comigo, o mais grave (que era ser preso) já aconteceu. Eu não sou uma pessoa política, nem defendo algum partido político na Turquia. Eu sou um empresário querendo viver aqui no Brasil e continuar minha vida. Não vou mudar por causa desse processo, não vou virar político, não vou ser uma voz crítica na Turquia. Quero continuar minha vida normal e sem restrições.

Mas em viagens, por exemplo, vai evitar países aliados do governo turco?

Claro, eles podem tentar alguma alguma medida porque eu não sou mais uma pessoa normal (no sentido de ser anônimo). Meu caso teve muita repercussão aqui na Turquia, especialmente nas redes sociais. Então preciso ter cuidado com os países para os quais eu for e tomar cuidado para não passar nesses países (aliados de Erdogan).

Você teme alguma retaliação a seus pais, que ainda vivem na Turquia?

Isso pode acontecer. Quando eles (governo turco) não encontraram uma pessoa, pegam mãe, pai, esposos que ainda estão lá, ou proíbem de deixar o país. Então eu tenho medo que aconteça algo assim, mas prefiro não falar mais sobre essa questão para evitar problema.

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