Questão árabe-israelense vira maior desafio externo do governo Obama

De acordo com especialistas, presidente americano terá de montar uma equipe de primeira linha no Departamento de Estado para lidar com a instabilidade no Oriente Médio

Denise Chrispim Marin, correspondente ,

01 de dezembro de 2012 | 23h18

WASHINGTON - Nada será mais desafiador para a política externa do presidente dos EUA, Barack Obama, quanto avançar em um acordo de paz entre Israel e Palestina. Especialistas o criticam por não ter se dedicado ao tema como deveria, algo que ocorreu também nos dois mandatos de George W. Bush, e avisam que essa conduta terá de mudar.

Não porque esse seja um meio de o presidente entrar para a história por um grande feito, mas por ser uma questão de interesse nacional. "A última vez que tivemos uma política exterior séria na questão árabe-israelense país foi com Bush (pai) e com James Baker", afirmou Aaron Miller, ex-negociador americano e especialista em Oriente Médio do Woodrow Wilson Center. "Os EUA têm um interesse nacional essencial em ver esse problema resolvido."

Elaine Kamarck, especialista em políticas públicas da Universidade Harvard e ex-assessora de Bill Clinton, afirmou ao Estado que países da América Latina não devem se queixar da falta de atenção da Casa Branca para a região, que tende a se repetir no segundo mandato. "Eles não deram atenção nem mesmo ao Oriente Médio", disse. A América Latina, segundo ela, continua a ser uma região pacífica, sem riscos para a segurança americana, mas não se pode dizer o mesmo do Oriente Médio, onde o conflito entre israelenses e palestinos dura 65 anos.

"O recente conflito em Gaza, cuja trégua foi mediada por EUA e Egito, é apenas um microcosmo do que o Obama enfrentará", disse Robert Malley, diretor do International Crisis Group. No entanto, a plataforma é agora diferente. Não está certo até quando os EUA poderão contar com o Egito, que emergiu da Primavera Árabe liderado por Mohamed Morsi, político da Irmandade Muçulmana. Como aliados regionais, de fato, Washington tem apenas Israel e Turquia.

A chamada "solução de dois Estados" está se esgotando, afirmam Miller, Malley e Marwan Muasher, diplomata jordaniano e vice-presidente do Carnegie Endowment. O Hamas, com controle sobre a Faixa de Gaza, tornou-se um novo ator e potencial defensor de um novo Estado. A Autoridade Palestina e seu líder, Mahmoud Abbas, mesmo com o reconhecimento na ONU, se enfraquecem.

"A Palestina parece uma Arca de Noé: tem um par de cada. São duas Constituições, duas visões de país, duas políticas, dois serviços de segurança. Se você não controla todas as armas, não controla nada", disse Miller, referindo-se à incapacidade de a AP, com sede na Cisjordânia, controlar Gaza.

Para Miller, a situação torna difícil a solução de dois Estados. Para piorar, Hamas, Morsi e Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, estão, segundo ele, não querem o fim do conflito. Apesar de Netanyahu ser o único político israelense capaz de construir consenso, ele não tem interesse em resolver os temas mais críticos: Jerusalém, refugiados, fronteiras e segurança.

Segundo Muasher, o assunto é tão difícil que Obama não pode esperar, porque a coisa não vai melhorar. William Quandt, ex-membro do Conselho de Segurança Nacional nos governos de Richard Nixon e Jimmy Carter, insistiu que os EUA terão de agir para garantir a paz mais abrangente que puderem. Isso significa, para Daniel Kurtzer, ex-embaixador americano em Israel, que Washington terá de construir uma política para o Oriente Médio que hoje não existe. "Ir para a negociação não é uma política, mas uma tática. Os EUA têm de montar uma diplomacia dura para essa questão. Não há alternativa: os dois lados evitam se olhar", afirmou Kurtzer.

Aaron Miller parte de dois pontos igualmente críticos. Primeiro, Obama terá de evitar o "abismo fiscal" (a ausência de acordo entre a Casa Branca e o Congresso que pode levar os EUA a nova recessão). Caso contrário, não terá margem para atuar na esfera internacional. Depois, precisará montar uma equipe de política externa de "primeira classe, liderada pelo secretário de Estado".

"O presidente tem uma secretária de Estado (Hillary Clinton) que segue sua própria agenda, que eu chamo de humanismo planetário", afirmou Miller. "Mas o secretário tem de trabalhar a política externa em tempo real com o presidente e não deixar a tarefa para os enviados especiais."

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